Paridade salarial? Promoção de carreiras? Divisão de trabalho em casa? Com os filhos? Sim, e ainda liberdade de acção e de discurso. Tudo isto é uma causa, tudo isto significa que, por ser necessário manter a causa, ainda há muito que fazer. Na semana passada, surgiram uma série de artigos no jornal Público sobre a disparidade salarial entre homens e mulheres.

Nos últimos 54 dias do ano, as mulheres em Portugal trabalham à borla. Porque a disparidade está a reduzir, mas ainda não é suficiente. Portanto, para que não haja dúvidas, sou feminista, como tantas outras mulheres e homens, porque não entendo que o género defina qualquer superioridade. Ao longo da minha vida profissional – e pessoal, já agora acrescento por ser rigorosamente verdade – tenho visto e vivido situações infelizes com homens. E com mulheres.

Há umas semanas livrei-me de uma destas mulheres a que chamo “machistas” e que são tudo aquilo que me repugna: incapazes de serem mulheres por inteiro comportam-se como homens sempre que podem e, numa posição de liderança ou de poder, diminuem qualquer acção de uma outra mulher. É muito enervante. E, pior ainda, os homens à sua volta pareciam viver pacificamente com estas atitudes. O que importa se ela trata mal as outras mulheres? Deve ter sido com este desdém que alguns homens à volta da mesa onde nos reunimos há semanas pensaram no assunto, se é que pensaram no assunto. O cenário profissional é intrincado e complexo e são muitos os sapos que temos de engolir, para usar essa expressão que me parece bastante leve, mas tudo bem, diremos que são sapais inteiros que somos obrigadas a engolir porque a vida real é mesmo assim, não é para princesas. Com esta realidade, eu vivo de forma confortável, estou habituada.

Ser lixada por uma mulher que quer apenas ser just one of the boys [um dos rapazes] é uma coisa que me perturba e, ao fim de 31 anos de vida profissional, não há maneira de aceitar que assim seja. Portanto, há umas semanas livrei-me de uma mulher com estas características, uma mulher que na verdade, repito, não sabe nada sobre ser mulher e que despreza as outras mulheres, que as considera menores, e que é capaz de manter uma cena de sedução permanente com os homens à sua volta, sobretudo aqueles que ela entende que têm um poder maior ou significativo para o futuro que ela projectou para si própria. Desejei-lhe sorte e fui à minha vida. Foi um alívio imenso e pensei que a vida continua e que, preferencialmente, não teria encontros destes tão cedo. Ontem, numa reunião de trabalho, lá estava outra mulher-machista a olhar-me como se eu fosse... não vou terminar a frase, não vale a pena, vocês percebem. Desta vez consegui livrar-me da criatura em 15 minutos. Fiquei com pena da assistente que, pareceu-me evidente, é agredida várias vezes ao dia por uma mulher que deveria ser, hierarquicamente superior, mas solidária, justa e decente. Por uma vez, suspirei de alívio e pensei na minha imensa sorte, posso sempre dizer que não quero trabalhar com pessoas assim. Infelizmente é dizer que não quero trabalhar com algumas mulheres? Pois é. Faz de mim menos feminista? Nem por sombras.

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