1. Nenhum lugar tem tantas organizações mundiais como Genebra. A sede da Assembleia Geral da ONU é em Nova Iorque, mas Genebra é a sede europeia da ONU, e de uma infindável lista de estruturas de toda a espécie. Dezenas de milhares de diplomatas, funcionários, candidatos, expatriados, imigrantes, metade da população não-suíça. Um estranho lugar onde quase todos os países se sentam, e que nunca parece o mundo, mas um seu pequeno laboratório.

Estive lá de quarta a sexta-feira, pela primeira vez. Toda a gente com quem conversei estava na expectativa de ir embora. Mesmo que ainda faltem anos.

2. Genebra não é capital, não é uma cidade grande, e tem um aeroporto de bolso, com um comboio constante e gratuito para o centro que leva sete minutos (o autocarro também é gratuito). Só entrei de novo num transporte para voltar ao aeroporto, de resto andei sempre a pé. Muita gente na cidade, incluindo o povo das organizações, anda de bicicleta, um rodopio de capacetes escuros, e roupa formal. Imagino que no Inverno, com neve, tudo seja diferente, mas agora, a meio de Julho, fazia um calor tal que a praça em frente à ONU estava cheia de crianças de fato de banho a saltarem nos repuxos de água, o festim mais selvagem a que assisti em Genebra. Tal como o lago Léman, que é o grande acontecimento geográfico de Genebra, estava repleto de piqueniques, churrascos, concertos, bailes, écran inflável para cinema ao ar livre, corredores, ciclistas, maratonistas e gente a tomar banho às dez da noite, hora a que ainda não escureceu realmente.

3. O piquenique é uma instituição. Há fontes por toda a parte, grelhas para assentar o churrasco, toda a gente traz mantas com a parte de baixo impermeável, e aparentemente toda a gente sai do trabalho cedo o bastante para ainda ter umas horas na relva. Fiz piqueniques todos os dias que lá estive, só variou o estado do Mont-Blanc, aquele monte eternamente nevado, o mais alto dos Alpes, que em certos poentes fica cor-de-rosa, do outro lado do lago Léman. A margem de lá já é França, e dormitório de muito trabalhador em Genebra, porque Genebra é caríssima. Tanto que, mesmo morando do lado de cá, muita gente vai fazer as compras do mês a França, para poupar. De resto, o salário mínimo, que não se chama assim, é tão alto em Genebra que compensa a chatice de morar em Genebra. Não são só os portugueses que juntam dinheiro. Ouvi mais árabe do que português, e ouvi bastante português. Assim na rua, mais árabe e português do que francês. Desde Marselha que não ouvia tanto árabe na Europa. O falafel do tasco Parfum de Beirute também compensa um pouco o facto de estarmos em Genebra, e não, infelizmente, em Beirute. E eu nem sou tanto de falafel.

4. Difícil imaginar como tudo seria em 1939, quando duas viajantes intrépidas partiram de Genebra para Cabul ao volante de um Ford. Mas já chato o bastante para elas serem intrépidas viajantes. Quem dera hoje, uma pessoa ir de Genebra a Cabul por terra sem nem mostrar passaporte, como aconteceu a essas duas, ambas fotógrafas e escritoras, Ella Maillart, suíça francesa, e Annemarie Schwarzenbach, suíça alemã. Os manuscritos de Maillart hoje estão na Biblioteca de Genebra, onde não fui. Não era um pulo literário, este meu de quarta a sexta. Nem me lembrei que Borges aqui estudou, bem antes das intrépidas, e aqui morreu, muito depois delas. Aqui está sepultado.

5. Mas o Comité Internacional da Cruz Vermelha (ICRC na sigla inglesa, que foi aquela a que me habituei) é anterior a tudo isso, vem da segunda metade do século XIX. Durante anos, como repórter, cruzei-me com gente do ICRC, membros e colaboradores, trabalhei com eles em lugares como Gaza, Cabul ou Kandahar. O irredutível compromisso de neutralidade faz do ICRC uma organização única, com um mandato e um acesso únicos a prisioneiros de guerra, refugiados e civis nas situações mais complexas. Então há algo de lendário em contornar o parque do Palácio das Nações, sede histórica da ONU, e ver aparecer no cimo da colina o palácio-sede da Cruz Vermelha, com aquela bandeira que é a inversão da bandeira suíça. Utopia e colapso. Erro e sobrevivência. O maior erro do ICRC, reconhece o ICRC, foi Auschwitz, ter ficado neutral, não afrontar os nazis, ter aliás penalizado então desobedientes seus que afrontaram. Como ser neutral na Segunda Guerra? E agora? Subi os degraus que levam às traseiras do palácio do ICRC, onde de facto, não por acaso, fica a entrada. E por um pedaço da minha manhã regressei à Síria em relances, sentada na cafetaria com um jovem inglês que veio da Papua Nova Guiné e vai para Jerusalém, mas pelo meio estava interino a acompanhar os espinhos sírios. Tão espinhosos que o ICRC neste momento tem dificuldade em conseguir vistos para o seu próprio pessoal. Por alguma razão não temos reportagens da Síria. Não é que as pessoas tenham parado de viver e morrer. Não que o horror, o impensável a cada vez, não esteja a acontecer enquanto dois europeus palram na cafetaria do ICRC de Genebra. Por exemplo, em Al-Hol, extremo nordeste do país, onde se amontoam os despojos humanos do chamado Estado Islâmico, dezenas de milhares de mulheres e crianças. Não vemos, não ouvimos, não sabemos.

6. Depois desci a colina, florida como tudo em Genebra, e foi só atravessar a avenida para entrar no Palácio das Nações, construído antes de a ONU se chamar ONU, quando ainda era a Liga das Nações. Foi, então o maior complexo da Europa, depois de Versalhes. Um imenso parque, de árvores, fontes e estátuas, com edifícios monumentais no meio do verde. Num deles, o E, acontece o Conselho de Direitos Humanos, que supostamente é a mais importante reunião de direitos humanos no mundo. Na sua lendária sala redonda XX, com um tecto que parece a tela de um pintor, a escorrer todos os tons de tinta-pastel, sentam-se os países membros da ONU para votar resoluções supostamente a aplicar. Na última sexta feira, o Conselho tinha em mãos uma resolução crítica para o governo da Síria. Todos fizeram o seu papel, a Síria mostrou-se indignada, meia dúzia aliou-se, a maioria votou a favor. Lá em cima, nas galerias públicas, um vidro separava os espectadores do plenário. Gente sentada a olhar para gente sentada, a ouvir por auscultadores. Lá em baixo, à porta da sala XX, os seguranças alternavam com rapidez. Um deles era português e já fizera uma missão no Iémen. Coisas que acontecem em Genebra, dois portugueses à conversa sobre o Iémen, enquanto cento e tal países estão sentados numa sala redonda, que mais daqui a bocado vai ser limpa por portugueses.

7. Houve uma vez em que a Assembleia Geral não aconteceu em Nova Iorque, mas sim em Genebra, porque os Estados Unidos tinham recusado entrada a Yasser Arafat, que acabava de proclamar o Estado Palestiniano. Então, a ONU votou por 151-2 fazer uma Assembleia Geral excepcional em Genebra para que Arafat pudesse falar lá. 151-2: derrota ribombante para os EUA. Os dois votos contra, claro, foram EUA e Israel. A 13 de Dezembro de 1988 Arafat discursou no Palácio das Nações.
Agora Arafat está morto há muito, eu própria o enterrei, quer dizer estava lá, em Ramallah, no funeral. Uma história em que Genebra joga a sua parte, se alimenta do risco sem arriscar, sombra e cenário, vitrina de luxo, banca, relógio, chocolate, lavagem do pecado. E ao fim da tarde quem tem cartão da ONU pode frequentar a praia privada, apesar da má música alta, e de tudo ser mais feio do que na relva pública, mas por isso mesmo não exclusiva.

8. O meu pulo deu para um pulo ao centro histórico, onde está a Catedral com a cadeira de Calvino. Subi os mais de cento e cinquenta degraus de penitência até uma torre, depois outra, passei os sinos, vi uma sanita de madeira no cesto da gávea da segunda torre, envolta em teias de aranha, com uma vista soberba sobre Genebra, Geneva, Genéve. O Mont-Blanc não deu de sua graça.
Quando Portugal estava a cortar pau-brasil e a escravizar indígenas no Brasil, Genebra era a cidade de Calvino. Naves austeras, ligação directa a Deus. Será assim ainda, para quem acredita. E cá fora, muito dinheiro.

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