O caso português. Primeiro, apareceram as noites de futebol falado que foram proliferando nos principais canais de televisão por cabo. A conquista de audiências puxou o culto da máxima intriga, até insulto. Agora, este futebol falado também ocupa parte das tardes de televisão, com especulações sobre eventuais transferências. Na maior parte dos casos, nada há de novo, mas há audiência fácil conquistada a custo baixo, sem necessidade de investimentos em reportagem. Os programas da tarde ainda estão livres dos envenenadores que atacam à noite em alguns dos canais.

Abundam lugares vazios em bancadas de vários estádios de futebol portugueses em jogos do principal campeonato masculino. Porquê? O que é que leva ao afastamento do público? Será a baixa qualidade do futebol jogado? Será a falta de ligação entre a equipa e a comunidade, efeito de escassa participação de jogadores criados no clube que prefere importar futebolistas, muitos só de passagem? Será o discurso grosseiro de alguns dirigentes? Será o tal envenenamento produzido pelo futebol falado? A realidade mostra-nos jogos da liga principal portuguesa com apenas escassas centenas de espetadores nas bancadas. É um caso português, sem paralelo por exemplo em Espanha onde jogos do segundo escalão chegam a ter dezenas de milhar de espetadores.

Junta-se uma outra pergunta: o que se passa com o trabalho de formação em alguns clubes? Será que preferem importar jogadores com qualidade incerta a formá-los nas suas escolas? O caso do Sporting é flagrante: criou, com o empenho de Aurélio Pereira e outros, uma academia que formou sucessivas gerações de grandes futebolistas, de Paulo Futre a Cristiano Ronaldo, passando por Luís Figo e tantos mais. Quantos futebolistas da academia do clube integram a tão financeiramente asfixiada atual equipa principal do Sporting? É, neste aspeto, devido elogiar os bons resultados da atual formação, tanto no Benfica como no Porto.

A Federação Portuguesa de Futebol tem gente competente no ofício, a começar pelo topo. A Liga dos Clubes anuncia boas intenções. As seleções masculinas funcionam e ganham, ainda que sem jogo de encantar. Mas o sistema de muitos dos clubes parece nefasto para que o futebol seja um espetáculo sedutor.

Poderemos esperar a reforma do modelo de dirigentes nos clubes de futebol e passar a ouvir prazer em vez de ódios nos serões do futebol falado? Parece pouco provável.

O mundial feminino. O jogo das meias-finais, entre as seleções dos Estados Unidos e Inglaterra foi visto por 11,7 milhões de pessoas no Reino Unido e tornou-se, de longe, o programa de televisão mais visto este ano nas ilhas britânicas. Não se pense que o entusiasmo é apenas produto do orgulho britânico. A seleção francesa já estava fora do Mundial e, mesmo assim, mais de seis milhões de pessoas viram este mesmo jogo em França – significa 31,1% do público diante dos ecrãs franceses nessa noite.

O interesse dos franceses nas transmissões dos jogos deste Mundial feminino fica atestado pelos números de espetadores em dois jogos da seleção francesa: 12 milhões no jogo com as brasileiras, 11,8 milhões no jogo com a seleção dos Estados Unidos. É escassa a diferença em relação aos 12,5 milhões que viram o França-Uruguai, nos quartos-de-final do Mundial masculino, no ano passado, jogado na Rússia (os uruguaios tinham afastado os portugueses nos oitavos-de-final).

Também neste Mundial feminino, a meia-final jogada entre a Holanda e a Suécia fez o quase pleno (79,8%) entre os telespetadores suecos e a televisão holandesa anuncia que esta transmissão é o programa mais visto desde a meia-final Holanda-Argentina, na meia-final do Mundial masculino de 2014, no Brasil.

Há relatos de mais de enormes audiências nos Estados Unidos. O triunfo das americanas é tratado com excecional destaque a cinco das seis colunas no topo da primeira página do The New York Times, também no The Washington Post, ou em jornais financeiros como The Wall Street Journal e o Financial Times. Para o The Dallas Morning Post elas são “simply the greatest”.

O poderio das futebolistas dos Estados Unidos. Esta seleção feminina tem um palmarés de domínio absoluto: já ganhou quatro (1991, 1999, 2015, 2019) dos oito campeonatos do mundo e quatro ouros olímpicos (1996, 2004, 2008, 2012).

De onde vem este poderio? Em 1970 havia 700 mulheres futebolistas nas escolas dos EUA; agora, há mais de 390.000. Uma lei, conhecida como Título 9,  aprovada em 1972 pelo Congresso dos Estados Unidos, proibiu toda a discriminação nos programas de educação financiados pelo Estado. Esta lei levou à generalização das competições desportivas femininas nas escolas e universidades nos Estados Unidos. O futebol foi uma das modalidades que dispararam nas universidades. No final dos anos 90 já estavam lançados campeonatos profissionais femininos e as universidades competiam entre si para terem como alunas as melhores desportistas, no caso, futebolistas. A quantidade gerou modelos inspiradores e a excelência. Assim apareceram Megan Rapinoe, Carli Lloyd ou Alex Morgan. As americanas começaram há muito e assim vão muito na frente. A qualidade da formação contribui para a boa prática e o espetáculo sedutor.

O futebol feminino é uma esperança. O diário Le Monde conta como em Tijuana, no norte do México, epicentro de criminalidade brutal ligada ao tráfico de droga, o investimento na ocupação de terrenos vadios por campos de futebol e a criação de campeonatos femininos está a permitir às mulheres romperem o cerco. Também em Molenbeek, periferia com má fama da cidade de Bruxelas, o futebol feminino é visto como antídoto à estigmatização.

As contas da FIFA sobre este Mundial feminino dizem-nos que a média de 20 faltas no conjunto dos 54 jogos mostra melhor comportamento em campo do que no último Mundial masculino, com 27 faltas na média de todos os jogos. Neste Mundial feminino apenas houve um cartão amarelo por simulação.

O balanço FIFA sobre o futebol feminino conta 33 milhões de mulheres que, para se divertirem, para se emanciparem ou pelo prazer de jogarem e ganharem, integram equipas de futebol por todo o mundo. Num subúrbio de uma cidade da África do Sul, numa favela do Rio de Janeiro, numa megacidade da Índia, numa vila da cordilheira dos Andes ou num estádio de Amesterdão, Lyon, Estocolmo ou Londres.

Talvez o modelo do futebol feminino possa ajudar a melhorar o masculino.

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