“Só tem 16 anos, sabe lá o que está a dizer!”. Claro. Mas o Mozart compôs a primeira sinfonia aos 8, a Joana D’Arc tinha 17 quando se juntou à Guerra dos Cem Anos e mudou a História, A Mary Shelley publicou o Frankenstein aos 20, o João Félix já era príncipe do futebol português para aí aos 5, e eu aos 16 era incrível a dar linguados e beber shots de Pisang Ambon. Quando quiserem parar de falar da idade da Greta, já podem.

“Estão a aproveitar-se dela para fins políticos e ela está a ser manipulada!”. Claro. É inadmissível que se deixe manipular por factos, relatórios ou sinais de alarme de mais de 90% da comunidade científica. Porque os cientistas são políticos só que de bata branca, não é? Quando quiserem perceber que ela está só a ser um megafone das evidências comprovadas pelos cientistas, também já podem.

“A pressão e a exposição mediática vão dar cabo dela, é um crime!”. Se forem adolescentes a trabalhar milhares de horas, expostos a todo o mediatismo mundial que isso implica, a trabalhar em coisas como o Harry Potter, Game of Thrones, Stranger Things, Médico de Família, Super Pai ou Morangos com Açúcar, não há problema nenhum, eles é que escolheram a sua arte e estão a ser ser humanos corajosos e maravilhosos. Se forem adolescentes activistas que já movem milhões de pessoas para que se tente inverter a destruição da Terra como a conhecemos, ai ui, que já é uma coisa escabrosa. Uma coisa é andar a dizer feitiços contra o Voldemort, não nos venham é amaldiçoar os nossos hábitos de comer carne de vaca 3 vezes por dia e usar o carro até para ir pôr o lixo à rua. Quando quiserem perceber que ela faz o que faz porque é aquilo em que acredita: podem, podem.

“É uma vergonha ela faltar à escola e incentivar tantas crianças a faltar também!”. Que engraçado, há milhões de crianças no mundo que nem acesso a nenhuma escola têm e nunca nos vi assim tão preocupados com isso. Mas também sabemos que não estão realmente preocupados com ela. Ou acham que é mais uns TPC de Estudo do Meio que lhes estão a faltar para poder falar melhor sobre a crise climática? Quando quiserem perceber que a escola não é a única fonte de conhecimento (eu sei que parece demasiado óbvio, mas dadas as circunstâncias, vejo-me obrigado a escrever) e que ela sabe mais sobre o assunto do que a maior parte de nós: exacto, já sabem que podem.

E depois há todo um rol de “Ah, mas ela uma vez quando tinha 5 anos usou uma colher de plástico e os bisavós dela chegaram a comer um bitoque quando vieram de avião a Portugal”, “Ah, foi de barquinho para os EUA e agora quer que andemos todos de barco, como se as estradas fossem feitas de água!”, e por aí adiante.

Não deixa de ser muito divertido como uma adolescente cheia de convicções, e com o coração no sítio certo, consegue irritar tantos adultos que depois tanto, e tão pateticamente, se esforçam para a mandar abaixo.

Eu nem peço que acreditem nas alterações climáticas ou como estamos a destruir o planeta. Não mudem os vossos hábitos minimamente, façam o que bem entenderem. Se a Greta e os cientistas não são ninguém para vos dizer o que fazer, muito menos sou eu. Mas quando quiserem perceber que é completamente patético atacarem uma miúda que tem feito tanto pelo planeta, quando vocês nem separar o papel do plástico sabem: isso mesmo, já podem. Definitivamente, já podem.

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