1. A noite das máquinas avariadas

Tudo começou de forma simples. A minha mulher e eu deixámos os miúdos com a avó e partimos felizes para o delicioso programa romântico que é ir ao hipermercado fazer as compras do mês.

Estávamos muito bem a percorrer os belos corredores com a tralha da vida quotidiana, nesse cansaço de preços, carrinhos de choque e listas ilegíveis, quando se ouve o som de um anúncio de voz.

A senhora habitual, em vez de mandar a limpeza ao corredor dos congelados, informou os estimados clientes que não havia pagamentos automáticos. O sistema Multibanco estava em baixo.

Nós continuámos a enfiar coisas no carrinho como se tivéssemos dinheiro no bolso. Mas, segundos depois, quando o que ouvíramos chegou àquela parte do cérebro responsável por descodificar a linguagem humana, percebemos: espera lá... Sem Multibanco, como é que pagamos isto?

De repente, nós e os nossos companheiros da luta fazíamos contas à vida: e agora?

Bem, tudo seria rápido. O sistema voltaria. Um pouco a medo, lá continuámos a encher o carrinho. A vida parecia continuar como normalmente.

O aviso voltou. A coisa não se resolvia assim tão bem. A bicha para pagar aumentava: várias pessoas tentavam, sem conseguir, arranjar maneira de levar comidas, produtos de limpeza, champôs e afins para casa... Já havia gente desorientada, a empurrar o carrinho pelos corredores, sem saber o que fazer.

Disse à Zélia que iria lá fora levantar dinheiro. Ela continuou a retirar produtos das prateleiras e eu fui à aventura.

Cheguei à caixa Multibanco mais próxima: o boneco sorridente acenava-me. Sorri: tudo iria correr bem. O problema era só do hipermercado.

Enfiei o cartão e o boneco deixou de sorrir: «Dirija-se à caixa mais próxima.» Hum. Raios. Abri o telemóvel. Procurei nas famosas redes sociais alguma notícia. De repente, percebi: o problema era nacional! O Multibanco parecia estar em baixo em todo o lado... Ou, pelo menos, em suficientes sítios para atrapalhar a vida do país.

Olhei para o hipermercado: a bicha já dava voltas a vários corredores. Havia já sinais de irritação por parte daqueles portugueses privados do prazer de pagar as compras. Os empregados, como tripulação dum avião no meio de turbulência, tentavam manter a aparência de normalidade perante a turba agitada. Pensei mesmo: e se isto não se resolve? Teremos país amanhã?

Já um pouco nervoso, dirigi-me a outra caixa, noutro andar do centro comercial. A mesma coisa. Uma rapariga vinha com o cartão em riste pronto a enfiá-lo na ranhura. Como quem informa que vem aí o meteorito que termina o mundo, disse-lhe, muito sério, que não havia Multibanco no país inteiro! Ela olhou-me com horror, de cartão a tremelicar entre os dedos. Encolhi os ombros, com um esgar de desconsolo.

Agora, era cada um por si.

  1. À procura da solução

Lembrei-me: o cartão não funcionava na rede Multibanco, mas talvez funcionasse na rede do meu banco (cujo nome não digo à espera que me paguem o patrocínio da próxima vez). Não disse a ninguém e lá fui eu, contente. Quando cheguei, descobri que a agência fechara para sempre. Raios. Logo hoje.

Foi então que a Zélia me telefonou. Havia rumores entre a multidão perdida no hipermercado que aquelas caixas amarelas que fazem o mesmo que o Multibanco mas não se chamam Multibanco estavam a funcionar! Dizia-se até, entre os combatentes da guerra dos carrinhos de compras, que havia duas máquinas dessas ali mesmo à saída do centro comercial.

Fui a correr por entre a multidão desorientada que serpenteava pelos corredores. As bichas para as duas máquinas amarelas eram grandes, mas todos estavam felizes, a ver como cada pessoa saía dali com notas fresquinhas a dar a dar.

O meu descanso durou pouco. Comecei a ficar nervoso. As notas de cada máquina não são infinitas e a bicha era considerável. E se o dinheiro se acabasse mesmo à minha frente, deixando-nos pendurados com um carrinho cheio?

Mas, não: consegui levantar as notas nas tais máquinas que não são o Multibanco. Fui até ao hipermercado, pagámos, viemo-nos embora a empurrar o carrinho depressa, não fosse o diabo tecê-las. Enfiámos os sacos no porta-bagagens e saímos de lá com um relinchar de pneus.

  1. Perigos modernos

Em casa, liguei as redes sociais para ver como andava o país. Muitos falavam do Grande Apagão do Multibanco. Passei mais tempo, naquela curiosidade mórbida de que todos somos culpados, a ler disparates no Facebook sobre o tal apagão do que a percorrer os corredores do centro comercial em busca de máquinas que funcionassem... Li quem se indignava como perante uma invasão do nosso país — um senhor enervado dizia até que assim se provava que éramos um país do «terceiro mundo».

Perante aquela algazarra, sorri, com a minha sabedoria de sobrevivente da catástrofe. Afinal, o que aconteceu foi isto: um sistema de pagamentos automáticos teve uma falha. Se há problemas típicos do primeiro mundo, este é um deles. Mas parece que, nas redes sociais, a dose diária de indignação tem de ser utilizada até ao fim, aconteça o que acontecer. Estejamos a falar dum genocídio ou duma falha no Multibanco, o tom e o arrancar de cabelos são os mesmos.

Estarei a ser injusto, admito. O genocídio, habitualmente, leva a mais dois ou três posts no Facebook do que o habitual.

Enfim, se não serviu para mais nada, este apagão serve para dar aqui uma recomendação de leitura. Lembrei-me, naquele cirandar por uma noite sem Multibanco, duma excelente leitura de há uns tempos. Falo do livro Antifrágil, de Nassim Nicholas Taleb. Nesse livro, o autor mostra como os sistemas modernos padecem duma grande fragilidade: são, muitas vezes, pouco redundantes, demasiado optimizados e com uma centralização que pode ser perigosa. O Multibanco é um sistema muito útil e confortável e estou certo que a SIBS terá muitos sistemas redundantes que ajudam a resolver problemas destes em pouco tempo. Mas se for o único sistema de pagamento que cada um de nós usa, torna-se perigoso. As tais máquinas amarelas (que mais não são do que um sistema alternativo de pagamento automático), afinal, até podem ser úteis. E as velhinhas notas de banco também servem para alguma coisa... Português prevenido vale por dois.

Neste caso, o dinheiro é só um exemplo. Toda a nossa vida precisa de redundâncias, de coisas que parecem estar a mais e, no entanto, são a almofada necessária para aguentar os embates daquilo que não prevemos.

Mas, enfim, isto já não cabe nesta crónica. Fica a sugestão de leitura deste vosso cronista sobrevivente do Grande Apagão do Multibanco de 2018.

Marco Neves | Tradutor e professor. Autor do livro Doze Segredos da Língua Portuguesa. Escreve no blogue Certas Palavras.

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