É uma fotografia que documenta a queda a pique de tantas, não sabemos quantas, vidas. Muitas escapam ao naufrágio, outras sucumbem e ficam para sempre em lugares de fossa comum, localizados de modo vago como "ao largo da costa líbia". A história lembra o modo como Virgílio, há 20 séculos, descreveu o naufrágio da frota troiana de Eneias perante a fúria desencadeada pela poderosa e vingativa deusa Juno. No caso mostrado nesta imagem de agora, um bravo grupo da Guarda Costeira italiana conseguiu evitar a hecatombe e salvar a maior parte destas vidas. Também há gente valente de Portugal nestas operações de socorro. Mas não chega, os naufrágios fatais sucedem-se, todos os dias. O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados reportou, a partir do testemunho de sobreviventes, cerca de 700 vidas perdidas só em três dos muitos naufrágios da última semana.

Sabe-se que há muitos milhares de africanos que, frustrados na terra onde nasceram, dispostos a arriscar, estão nas margens da costa sul do Mediterrâneo na esperança de embarcar. Tendem a ser milhões. Muitos nem terão a noção das escassas perspetivas e dos perigos. São migrantes económicos, não preenchem as condições para serem considerados refugiados e assim obterem acolhimento. Mas são levados a ousar a sorte e estão à mercê da indústria contemporânea do tráfico de seres humanos.

No começo do outono, aquela fotografia do pequeno Aylan, vestido e calçado mas inerte pela morte na beira-mar de uma praia na Turquia, conseguiu acender a opinião pública europeia para a tragédia dos refugiados e impôs o debate político. Houve então muitas palavras, comoção de circunstância, mas por pouco, demasiado pouco tempo. A crise dos refugiados segue por tratar.

Agora, esta imagem da barcaça que se afunda volta a pôr diante dos nossos olhos um drama que resulta de uma das questões essenciais do nosso tempo, a da emergência migratória: os milhões de pessoas que estão num continente com 30 milhões de quilómetros-quadrados e que aspiram chegar à Europa. É preciso saber reagir e encontrar soluções humanas. Quais? Não sei. É uma tarefa para os políticos. Eles são eleitos com o encargo de encontrarem soluções para os problemas. Sendo que, continuando a desviar o olhar, continuando alheios ao sofrimento dos outros, continuando sem saber resolver com humanidade, continuando a silenciar este abandono, estamos todos a naufragar.

TAMBÉM A TER EM CONTA:

O Prémio Camões vai este ano para o brasileiro de origem libanesa Raduan Nassar, pela "força poética da sua prosa". O escritor, que gosta de se dedicar à agricultura, não cultiva aparecer ou protagonizar entrevistas mas levantou a voz contra o afastamento de Dilma. É também autor de explosivos contos eróticos em que "a fricção dos discursos é tão ou mais erótica que a das peles".

Agora é o Ministro da Transparência, apanhado em escutas: em sete dias já caíram dois ministros do governo transitório brasileiro que há 17 dias substitui o de Dilma.

Estão a começar as Festas de Lisboa. O programa está aqui.

Três primeiras páginas escolhidas hoje: esta, esta e esta.

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