No fim de semana, assaltou e pôs à sua ordem o controlo editorial do Zaman, o jornal diário com maior tiragem (770 mil exemplares por dia) na Turquia. Em 26 de novembro, o regime no poder na Turquia tinha mandado prender o director e o chefe de redação do histórico Cumhuriyet (este nome significa em turco "A República"), o jornal diário mais antigo na Turquia. Uma hostilidade que em ambos os casos resulta da publicação de notícias que desagradam ao governo turco que, autoritário, recorreu à polícia e aos tribunais para pôr aqueles jornais sob sua tutela, pretendendo que os jornalistas procedam como funcionários que seguem as instruções do poder. Há uma semana, tinha tocado à IMCTV, único canal nacional de televisão a reportar o ponto de vista não-governamental sobre as questões com os curdos: foi fechado, sem qualquer possibilidade de retomar as emissões.

Can Dundar é o director do Cumhuriyet. Em 26 de novembro passado estava a fechar a primeira página quando a polícia entrou pela redacção. Os agentes anunciaram que cumpriam uma ordem judicial e levaram para a prisão tanto o director, Can Dundar, como o chefe de redacção, Erdem Gul. Ambos foram encarcerados em regime de isolamento na prisão de Silivri, na periferia de Istambul.

Qual é o crime de que são acusados? Tornaram público um “segredo de Estado”. Os factos são estes: em janeiro de 2014, o Cumhuriyet noticiou que militares e agentes dos serviços secretos turcos tinham escoltado camiões que enviavam armas para rebeldes islâmicos dentro da Síria, designadamente para gente ligada ao auto-proclamado califado islâmico. O governo turco negou que o carregamento fosse de armas, disse que era apenas “ajuda humanitária” para o povo sírio. O presidente turco, Erdogan, ameaçou o Cumhuriyet, avisando que o jornal “iria pagar caro pelo que fez”. Em novembro passado, o jornal conseguiu acesso a um vídeo interno dos serviços secretos que mostrava, de modo indesmentível, que o carregamento que estava a ser conduzido para a Síria era mesmo de armas e munições. Em editorial, Can Dundar escreveu: “O Estado – nas costas dos cidadãos e do Parlamento – cometeu um acto ilegal ao traficar armas por meios ilícitos para um país em guerra civil. Se o Estado comete um acto ilegal, a imprensa não pode ficar mera espectadora que faz que não vê. Tem o dever de contar à população – cuja segurança está ameaçada – que tem o direito a saber tudo o que está a acontecer”.

Nesse mesmo dia, um juiz fez a vontade ao presidente Erdogan e ao seu governo, e colocou o jornal sob custódia e mandou prender o director e o chefe de redacção. A acusação invocou ter havido espionagem e violação de segredos de Estado. Can Dundar pediu para lhe levarem para ler na cadeia um exemplar do Quixote, de Cervantes. Sublinhou uma frase de um cristão prisioneiro: “Nunca me desamparou a esperança de ter liberdade”. O ataque ao director e ao chefe de redacção foi denunciado por muitas organizações internacionais. Mas muita imprensa turca fiel ao poder de ocasião acusou Dundar e Erdem de traição à pátria.

O chefe da oposição turca, porém, culpou o presidente Erdogan por estar a fazer da Turquia “um estado canalha”. Vai para duas semanas, em 25 de fevereiro, o Tribunal Constitucional turco ordenou a libertação imediata dos dois jornalistas, considerando que “o direito à liberdade de expressão e de imprensa foi violado”. Mas a acusação a Dundar e Erdem subsiste e mantem-se a reclamação de condenação a prisão perpétua, em julgamento marcado para 25 deste março.

Outro caso: na última sexta-feira, o governo turco decidiu chamar a si a condução do Zaman, o jornal mais lido na Turquia, e que desenvolvia uma linha editorial crítica do sistema de poder político encabeçado pelo presidente Erdogan. O jornal é privado, mas o governo, através de um tribunal de Istambul – tem havido sempre uma justiça colaborante -, como que o nacionalizou e nomeou uma administração judicial que por sua vez designou novos diretores, chefes e chefinhos, para o controlar.

Na noite da passada sexta-feira, Ishan Yilmaz, colunista do Zaman, ainda conseguiu descrever a Turquia em “pesadelo orwelliano” num artigo publicado na edição digital em língua inglesa com uma pergunta: “Será que a Turquia pode voltar à democracia?” A edição em papel do jornal de sábado ainda foi preparada pela direção legítima, apesar de oficialmente derrubada. Na manchete, lia-se, em turco, sobre um fundo a negro, “dia de vergonha para a imprensa livre”. No editorial era denunciada a “violação da liberdade de imprensa”. Nessa mesma madrugada a polícia assaltou a redacção do Zaman.

A edição de domingo já foi feita sob tutela e com a polícia dentro da redacção. A primeira página foi encabeçada com Erdogan a inaugurar a nova ponte sobre o Bósforo. A nova gerência proibiu reuniões de jornalistas e até as idas à casa de banho passaram a ser controladas. Os jornalistas deixaram de ter acesso aos servidores da internet no jornal. Na rua, cerca de duas mil pessoas que protestavam contra a tomada do jornal pelo poder governamental foram reprimidas pelos agentes, que usaram canhões de água e gás lacrimogéneo.

Assim vai a Turquia, submetida à vontade do chefe, o novo sultão, Erdogan. As vozes discordantes do poder são amordaçadas. A respiração de uma imprensa que faça contra-poder, primordial para a cidadania, está asfixiada. Provavelmente, os verdadeiros sultões do império otomano seriam menos intolerantes.

A Turquia é um país cheio de fascínio mas enrolado em múltiplas contradições. A promessa de coexistência harmoniosa entre a cultura islâmica e a democracia ocidental colapsou. O país que é importante aliado da NATO, tem a democracia doente: o estado de direito, a imprensa livre, a liberdade de expressão, a separação de poderes, os direitos das mulheres e das minorias (como a da enorme minoria curda), tudo está em causa nesta Turquia onde o autoritarismo ultranacionalista conservador islâmico do regime de Erdogan barra os valores humanos universais. The New York Times alerta, em editorial, para a "desintegração da democracia na Turquia".

Nas redacções, o clima de medo e intimidação leva à auto-censura.

Que lástima se a União Europeia sacrificar os valores a troco de interesses de curto-prazo no caso, despachando para a Turquia o acolhimento aos refugiados, um assunto que está a causar ainda mais mossa à unidade europeia que a grande crise financeira iniciada em 2007. Não é tolerável fechar os olhos perante ataques à liberdade. Seria cometer um acto de inaceitável cumplicidade.

TAMBÉM A TER EM CONTA:

Marcelo promete ser um presidente de afetos e próximo das pessoas. Vai certamente desenvolver consensos e simpatias, ao estilo de Mário Soares que, ao longo do primeiro mandato presidencial, de 1986 para 1991, ampliou em vinte pontos a percentagem de votos (de 50,7% para 70,3%). Mestre na comunicação e na arte de criar empatia, Marcelo vai explorar o estado de graça que o rodeia. Fica para o jornalismo o desafio de, apesar do envolvimento da onda afetiva gerada, cultivar na observação a dose de distanciamento que permite a necessária curiosidade crítica.

O terrorismo do chamado califado islâmico avança pelo Norte de África. Nova violenta vaga de ataques na Tunísia.

Michael Bloomberg renuncia à hipótese de candidatura presidencial nos EUA. Quer evitar facilitar a vida a Trump. Boas notícias para Hillary.

Duas primeiras páginas escolhidas hoje: esta, do The Guardian, que mostra como a Geração Y está a ser sacrificada. E esta do El País, que nos conduz ao risco de dupla discriminação que correm as mulheres refugiadas.

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