Quando os dois Boeing 767-200ER chocaram com as torres do World Trade Center, em Nova Iorque, entre as oito e as nove horas da manhã do dia onze de Setembro de 2001, muita gente assistiu à tragédia – nas ruas da cidade e em muitas partes do mundo, em directo pela televisão. Todos os espectadores perceberam que estavam perante um acontecimento monumental, tanto física como politicamente; mas o que ninguém percebeu naqueles momentos foi que o mundo ia mudar. Começava assim, inesperadamente, o Século XXI, com mudanças na História que ainda hoje se fazem sentir. As relações de poder que definiram a segunda metade do Século XX estavam prestes a alterar-se inexoravelmente.

Mudou a forma de fazer guerra, mudou a definição de poder, mudou o equilíbrio entre poderes, a percepção da justiça, o estatuto das nações, os conceitos políticos e as definições ideológicas. Embora os homens continuem a fazer a barba todos os dias e as mulheres a pintar as unhas uma vez por semana, em 2018 o modo como avaliam o estado da Humanidade não é o mesmo que pensavam em 2001.

É fácil definir esta diferença por chavões, dependendo do ponto de vista de cada um: o medo substituiu a esperança, a esperança venceu o desespero, as verdades absolutas são relativas, as verdades relativas não são verdades, o capitalismo faliu, o comunismo desintegrou-se, o imperialismo mudou de região ou mudou de justificações, o globalismo é predador, o nacionalismo é destrutivo, o espiritualismo está em expansão, as religiões condenam em vez de salvar...

A lista do que se pensa e se diz, agora em altos berros, em tempo real e a nível planetário, é interminável. No século XX todas as pessoas tinham opinião (no século XIX, a maioria não sabia o suficiente para opinar); no século XXI exprimem essa opinião sem barreiras, ou com barreiras, mas não se calam.

E tudo começou, pode dizer-se, pela necessidade de colocar datas certas em fenómenos de longa gestação, naquele dia onze de Setembro do ano da Graça de 2001 do Calendário Juliano.

Com o perigo da superficialidade inerente às generalizações, e em benefício daqueles que há dezassete anos ainda usavam fraldas, podemos dizer que o mundo do século XX esteve até 1989 dividido em três blocos, o capitalista, o socialista e o terceiro, que servia de campo de batalha para os dois primeiros; que vigorava o imperialismo organizado desde 1945, com os Estados Unidos a dirigir a economia mundial, a proteger a Europa e a dividir com ela a exploração do terceiro mundo, de onde emergia já o poder do futuro, o capitalismo comunista chinês. Havia paz nos países civilizados e os em vias de desenvolvimento estavam acachapados sem grandes tumultos. Havia ditaduras em pequenos países, porque serviam aos grandes poderes, pois só incomodavam quem nelas vivesse. Embora já houvesse guerras ditas assimétricas (como a do Vietname, 1955-75, ou a russa/afegã, 1979-89, ou do colonialismo português, 1961-74), em geral considerava-se que guerra era uma confrontação de dois exércitos equivalentes.

Em 1991, com a dissolução do Bloco Soviético, e simbolicamente antes, a 9 de novembro de 1989 com a queda do muro de Berlim, parecia que o capitalismo, o globalismo e o livre comércio eram o futuro promissor. Os descamisados que se esforçassem mais para obter camisas, seguindo a grande miragem da meritocracia.

O 9/11, como ficou conhecido para a História, desencadeou uma série de acontecimentos, com uma velocidade que mesmo a intensiva informação diária tem dificuldade em acompanhar. Os Estados Unidos eram governados desde Janeiro desse ano por um Presidente, George W. Bush, que tinha um programa de alterações económicas cosméticas no país e uma benévola indiferença com o que acontecesse no mundo pacificado. Apanhado de surpresa pelo inesperado ataque no coração do país (há um vídeo que mostra a sua estupefacção quando recebeu a notícia) deixou as decisões na mão dum trio: o vice-Presidente Dick Cheney (considerado o mais poderoso vice que o país já teve), o Ministro da Defesa Donald Rumsfeld e o vice dele, Paul Wolfowitz. Identificada a Al-Qaeda (uma organização de que o vulgo nunca tinha ouvido falar) como autora do ataque às Torres Gémeas, os Estados Unidos invocaram pela primeira vez o artigo da NATO que considera que um ataque a um membro é um ataque a todos, e invadiram o Afeganistão. Nesse momento tinham a simpatia dos países ocidentais – e até da Rússia, que tinha sido humilhada lá, anos antes – e conseguiram ocupar o país em poucos meses. (Ocupar é uma coisa, vencer é outra; a guerra no Afeganistão continua até hoje, a mais longa da História dos Estados Unidos.)

Mas o trio chefiado por Dick Cheney resolveu aproveitar a oportunidade para descartar outro inimigo, Saddam Hussein, que nada tinha a ver com a Al-Qaeda ou o ataque às Torres Gémeas. A invasão do Iraque, que já não teve a aprovação nem o apoio da NATO, foi o maior disparate estratégico dos norte-americanos, pelas consequências que desencadeou, e que perduram até hoje: a desestabilização da Península da Arábia, a agudização da velha inimizade entre xiitas e sunitas, a expansão do Irão e, a partir da chamada Primavera Árabe (um nome tipicamente orwelliano...), em 2011, a desestabilização, guerra de extermínio, tribalização e radicalização de todo o Norte de África e, logo a seguir, da África Subsaariana.

Daqui advém o nascimento do ISIS/Daesh, a guerra civil de extermínio na Síria e toda uma série de desgraças ainda a decorrer. Daqui também resulta a emigração em massa para a Europa dos países mais destruídos, Síria e Líbia, e da região subsaariana.

Em poucos anos, os Estados Unidos viram-se envolvidos numa série de conflitos desgastantes e dispendiosos, em que nem sequer conseguem saber quem é amigo e inimigo. Que se consiga perceber, desta confusão generalizada só houve três vencedores: alegadamente a empresa petrolífera Halliburton (da qual Dick Cheney tem 13%); Israel, que quanto mais os muçulmanos se desentendem mais garantida tem a sua integridade e mais tolerada é a sua actuação face aos palestinianos; e a Rússia de Putin, que pode recuperar a influência na Ucrânia e no Médio Oriente. Quanto a perdedores, todos: europeus, xiitas e sunitas, norte-americanos e africanos.

Mas o efeito borboleta não se fica por aqui. Desgastado pela invasão do Iraque, o Partido Republicano não conseguiu eleger o seu candidato, John McCain, e os Estados Unidos escolheram um Presidente simpático, envolvente e bem falante, Barack Obama, que prometia "uma nova esperança" - de quê, não se sabe, mas imagina-se que fosse de melhores tempos. Ou porque a ausência de maioria no Congresso lhe cortou as pernas, ou porque o seu charme encobria uma permanente pusilanimidade, Obama não conseguiu fazer nada. Tentou ser simpático com os inimigos (Coreia do Norte, Rússia, Irão, China), aliviou a pressão sobre os subalternos (América Latina) e encantou os amigos com o seu charme (Europa), enquanto manteve todos os conflitos iniciados pelos antecessores, sem vitórias possíveis. Não conseguiu evitar os regimes autocráticos que entretanto se estabeleceram em países tão variados como as Filipinas, Turquia, Tailândia e Egipto. Em geral, presidiu ao esfarelar do papel imperial e supostamente pacificador que os Estados Unidos tinham montado a partir de 1945.

Enquanto isso, os americanos brancos, lavradores ou operários, pobres e desprezados pelas elites cultas, para quem o papel dos Estados Unidos no mundo não tem qualquer interesse, sentiam-se cada vez mais ameaçados pelos imigrantes e pelas minorias raciais. Parecia que não existiam mas, contadas as favas, são cerca de metade da população do país. Para eles o globalismo, a “defesa da democracia” no estrangeiro, o livre comércio, o avanço da ciência e da tecnologia e as questões ecológicas são apenas invenções dos políticos e dos intelectuais para os manter na pobreza.

Trump não foi a causa, é o efeito. Está a fazer o que eles queriam que alguém fizesse: abandonar o papel de guardião, ou de fiel da balança internacional e pensar em termos dialécticos, assente em generalizações: nós, os verdadeiros americanos, e os outros, os imigrantes ladrões, os europeus mandriões e pretensiosos, os asiáticos aldrabões.

E, enquanto isso, os russos, que só os comunistas europeus e latino americanos ainda vêem com o romantismo da antiga namorada quando era jovem e bonita, liderados por um autocrata de extrema-direita que não olha a meios, tentam reconquistar peso na cena internacional. Os chineses, que com o xijinpinguismo abandonaram definitivamente o marxismo que nunca tiveram (sim, na China de Mao havia castas), têm tudo para se tornarem os novos guardiões da ordem mundial – uma “ordem” que, tal como a anterior, a “ocidental”, só é boa para os seus e má para os outros. E, dentro dos seus, é melhor ainda para quem está no poder.

Pois é, nestes dezassete anos o mundo mudou. Está ainda a mudar. Naquele dia 11 de Setembro de 2001, quem poderia adivinhar?

(Artigo corrigido às 18h04 de 12 de setembro de 2018)

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