O comité Nobel norueguês resistiu à tentação do foguetório de uma escolha que seria celebrada por milhões de jovens nas ruas, como seria a opção de atribuir o Nobel da Paz à superfavorita Greta Thunberg. Preferiu chamar a nossa atenção para uma região do mundo tão desprezada no dia-a-dia dos media ocidentais e para um homem que em ano e meio de governo, num país que é um colosso com 105 milhões de habitantes, conquistou a reputação de estadista, fez a paz que parecia impossível com a Eritreia, está a reformar o país e a favorecer a ascensão das mulheres à igualdade com os homens.

A Academia Nobel sueca enviou-nos outras mensagens nas escolhas para Nobel da Literatura: ao optar por Peter Handke, também disse que um escritor, como um artista, vale pelo que cria, independentemente das atitudes pessoais e políticas; ao escolher Olga Tokarczuk premiou uma rebelde polaca, uma mulher livre num país de liberdades controladas, que é uma extraordinária pluma literária, capaz de conciliar o best-seller com a exigência na construção do relato, com short stories deslumbrantes.

Peter Handke escandalizou meia Europa ao defender até ao fim (quis estar no funeral) o ditador ultranacionalista Slobodan Milosevic e alinhou com as posições, classificadas como criminosas para a humanidade, deste chefe político e militar nas terríveis guerras dos anos 90 do século XX na desaparecida Jugoslávia. A ferida aberta por esta atitude de Handke ainda não cicatrizou: a atribuição, agora, do Nobel da Literatura levou o líder dos cada vez mais influentes Verdes no parlamento alemão a classificar este prémio “como um ultraje às vítimas de Milosevic”.

Handke já tinha por várias vezes sido proposto para Nobel da literatura. Ele fustigou sempre o “alvoroço inútil” suscitado por esta distinção anual. O facto é que este austríaco, agora com 76 anos, filho de uma mãe eslovena e de um soldado alemão, é autor de obra imensa em volume e em importância literária. Tem escrito teatro, poesia, romance, crónica, reportagem e até argumentos para cinema. Para além de eclético, assumiu-se sempre experimental, polémico, desafiador, como aliás fica evidente no título de um dos poderosos textos teatrais que já escreveu: "Insulto ao Público". Handke é um combatente contra a apatia e um grande multifacetado escritor. Merece o Nobel.

Também é escolha certeira, a da polaca Olga Tokarczuk. Talvez seja uma psicóloga falhada – formou-se em psicologia, mas não exerceu – é, porém, uma grande escritora, como constatamos ao ler a prosa poética que nos desperta para modos diferentes de ver, no livro "Viagens", editado em Portugal pela Cavalo de Ferro.

A escolha para Nobel da Paz do etíope Abiy Ahmed, 43 anos, pai muçulmano e mãe cristã, o mais jovem chefe de governo de um continente cuja população tem a idade média mais baixa de todo o planeta, enquanto ao contrário, a dos chefes políticos é a mais alta no conjunto mundial, é uma dupla esperança: a de que África se inspire nas políticas exemplares deste jovem líder democrático e a de que saiamos todos do alheamento em relação ao que se passa no tão devastado continente africano.

Os prémios Nobel, sobretudo os da Literatura, têm estado nos últimos anos expostos à crítica de ligeireza nas escolhas. Este 2019 traz de volta escolhas audazes, fortes.

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