Pânico: só volto a casa no domingo à noite. Como escrever o texto?

Enfim, a solução está no bolso: o telemóvel. O problema é que escrever mais do que dez palavras no telemóvel irrita-me os dedos. Lá dei umas voltas à cabeça e depois de algumas aventuras que ficarão para outro dia, já tenho um teclado de jeito à minha frente. A crónica há-de sair.

Este meu lapso de bagagem levou-me a pensar nos objectos que nos afligem quando estão longe. Sim, nós somos dependentes de muitos objectos. Imagino que já todos estão a pensar nos telemóveis, mas o que dizer das ferramentas de cozinha, da roupa, dos óculos? Ou do papel higiénico?

Onde estão os óculos escuros?

Depois da tal aventura em que perdi os óculos, acabei por conseguir uma daquelas promoções em que paguei um e levei dois. Foi assim que, pela primeira vez na vida, arranjei óculos escuros graduados.

Agora é ver-me pelas estradas da vida a acelerar sem semicerrar os olhos — e a travar logo a seguir porque cheguei ao sinal vermelho.

Ora, estranhamente, se por acaso me esqueço dos óculos escuros, fico irritado e com dores nos olhos por causa da luz — tanta luz! O que é estranho, pois nunca me tinha sentido especialmente incomodado por conduzir ao sol antes de ter óculos escuros…

O terror na casa de banho

Sei que isto não é assunto digno, mas faz parte da vida e, como tal, faz parte da crónica. Pois quem de entre nós nunca se esqueceu de verificar se há papel higiénico e, chegando ao final do processo que o trouxe àquela importante divisão da casa, ficou em pânico quando percebeu que nada tinha para resolver o problema?

O que vale é que todos nós temos o mítico telemóvel no bolso das calças caídas no chão e, se é verdade que muitos o vilipendiam, o tal objecto já me safou de apertos deste género, permitindo-me pedir ajuda a quem me podia trazer o confortável papel.

Mau, mau foi o dia em que me esqueci do papel higiénico e do telemóvel. O horror, o horror!

Mas nisto dos esquecimentos, há pior…

As chaves esquecidas (e a família presa em casa)

Claro que já me esqueci das chaves e tive de fazer viagens nocturnas por causa dessa distracção — julgo que poucos serão os portugueses a quem tal nunca aconteceu.

Mas há pior: lá por casa, depois de nascer o meu filho, ganhámos o hábito de fechar o corredor dos quartos à chave para que o nosso gato não vá onde não é chamado. Sim, o bichano consegue abrir portas — só ainda não aprendeu a rodar a chave. Pois um dia, saio do quarto para ir ao supermercado. Chego à entrada, tranco o corredor como de costume. Saio de casa — e reparo que não tinha trazido a chave.

Foi então que senti um piano a cair-me em cima com estrondo: a minha mulher estava no quarto, com o meu filho — e a chave de casa estava na sala. Nem ela podia abrir a porta, nem eu podia entrar em casa. Acabara de trancar a minha família no quarto!

A minha cunhada tinha uma cópia da chave, que estava em casa dela. E a chave da casa dela? Estava na mala pendurada na sala de professores duma escola do outro lado da cidade. Durante duas horas, percorri a cidade com vários molhos de chave no bolso, impaciente para reencontrar mulher e filho presos no quarto. Imaginem o esforço que fiz para parar nos semáforos e nas passadeiras. Com alguma dificuldade, não atropelei ninguém e não passei por cima de nenhum carro.

Duas horas depois, libertei a minha família — e nunca mais me esqueci da chave.

Os objectos moldam-nos o corpo

Se algum extraterrestre aterrasse na Terra, veria o nosso mundo dominado pelas bactérias. Mas, para lá desses bichos — que são muito mais numerosos do que nós e hão-de nos sobreviver a todos —, os extraterrestres notariam a nossa presença.

No entanto, imagino que, mais do que os nossos frágeis corpos de símio pouco peludo, o que impressionaria os visitantes celestes seria a panóplia de objectos com que andamos a forrar a Terra.

Estradas, muralhas, cidades, campos de cultivo, roupa, lixo, papéis onde os tais mamíferos escrevinham uns símbolos estranhamente relacionados com os sons que lhes saem da boca... Há ainda ecrãs, transmissões variadas, antenas e colunas de som.

Nós criamos objectos e estes acabam por nos transformar mais do que pensamos. Até a forma das nossas cabeças, bem diferente dos restantes símios, parece adaptada aos alimentos cozinhados — e este é apenas um exemplo da maneira como os objectos são uma continuação dos nossos corpos.

Também por isso, creio que poucos de nós sobreviríamos na floresta. Exagero? Talvez. O ser humano adapta-se a tudo. Mas estou certo que o papel higiénico nos faria muita falta — para não falar do telemóvel, para pesquisar no Google como caçar um bisonte. Por outro lado, não consta que, na floresta, alguém consiga deixar a família trancada em casa, o que me parece uma vantagem a ter em conta.

Marco Neves | Tradutor e professor. Autor do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e do romance de aventuras A Baleia Que Engoliu Um Espanhol. Escreve no blogue Certas Palavras.

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