La La Land é um filme que parece uma sequência de Singing in the Rain. É cinema com o drama de um amor não sincronizado, que tem a coragem de acreditar no sonho e que tenta tudo para nos libertar da banalidade quotidiana. A cena inicial faz recordar musicais com grande potência coreográfica no ecrã, como West Side Story. La La Land renova o musical no cinema e traz para 2017 o sabor do cinemascope dos anos 50. O filme chegou aos ecrãs numa época em que muitos na América das artes falam da necessidade de, agora, tal como nesse tempo do macartismo, lutar pelas liberdades nos EUA. Tanto que se põe a questão: e se a atmosfera política e social na América fizer desviar alguns dos Óscares dados como prováveis para o filme que, com 14 nomeações, está no topo das apostas?

Hidden Figures (Elementos Secretos), filme biográfico sobre três mulheres que ajudaram de modo decisivo a NASA a pôr o primeiro homem no espaço, bem pode arrebatar alguma surpresa. É a história de três mulheres, uma delas é superdotada matemática, que são negras e que por isso não têm acesso às escolas, aos transportes, às casas de banho e às cantinas das companheiras brancas. Enfrentam a segregação e nunca deixam de lutar. São figuras determinantes para o cálculo das trajectórias das primeiras missões espaciais humanas, como o primeiro voo de John Glenn. O filme conta a história verdadeira de personagens reais que souberam mudar a vida delas e mudar a história. São mulheres, são negras e a maior parte de nós não sabia desta história que emociona.

Os Óscares também tendem a ganhar cor com Fences (Vedações), teatro levado para o cinema por Denzel Washington (realizador e ator). É uma grande adaptação de um grande argumento (de August Wilson, que morreu em 2005, com 60 anos e dois prémios Pulitzer) com uma história exemplar sobre a condição do negro na América: trata a vida de um talentoso jogador de beisebol que por causa da cor da pele não consegue chegar à liga profissional. Consumido pela frustração acaba na recolha do lixo em Pittsburgh. É um filme que também trata a difícil relação entre um pai, revoltado por não ter conseguido ser o que sonhou, e a família. É um filme que nos confronta com aquilo em que nos tornamos pela força das coisas. Merece prémio.

Moonlight, drama dirigido por Barry Jenkins, sobre a vida de um rapaz negro, pobre, vulnerável, que cresce num bairro de Miami infestado por drogas, também é uma aposta comprometida: retrata com precisão o que continua a representar ser negro na América, e mais: ser negro e ser homossexual. E consegue fazê-lo com sensibilidade, sem recurso a estereótipos. Será que a Academia de Hollywood vai querer levar tão acima o desafio a Trump, premiando um grande filme feito com baixo orçamento e este argumento?

Para melhor atriz, Emma Stone, com aqueles olhos grandes e verdes que juntam realidade e sonho, compõe em La La Land uma personagem com a beleza etérea que convém em cheio ao argumento. Quase toda a gente já a vê com o Óscar na mão. Mas apetece saber quantos votos da gente do cinema terá recebido Meryl Streep. Não pelo papel da enorme atriz numa comédia menor, Florence Foster Jenkins, mas como resposta de Hollywood à grosseria de Trump quando respondeu às críticas de Meryl Streep nos Golden Globes com a afirmação no Twitter que ela é uma atriz sobrevalorizada. Seja como for, também há que contar com a sempre audaz e ao mesmo tempo gélida e escaldante Isabelle Huppert.

O Óscar é um prémio que adquiriu uma dimensão global que transcende a arte do cinema. Envolve também o valor do humanismo. É um prémio que tende a ter em conta a grandeza humana da personagem representada e a pertinência da temática do filme no momento social e político em que é apresentado. É por isso que a deliciosa fantasia La La Land pode sair da noite dos Óscares com menos estatuetas do que teria num ano que fosse normal, que não tivesse Trump na Casa Branca.

É uma razão, por exemplo, para que o realizador Ashgar Farhadi, Óscar para o melhor filme estrangeiro em 2012, agora outra vez nomeado na mesma categoria, desta vez com The Salesman, mas ausente de Los Angeles por ser cidadão de um sete países que Trump pretende impedir que tenham acesso aos EUA, o Irão, mereça que o nome dele seja proclamado no próximo domingo como premiado.

Obviamente, também um filme difícil, sobre a dor, a perda e o luto, como é Manchester By the Sea, merece estar no palmarés dos Óscares. E o protagonista, Casey Affleck, pode surpreender Ryan Gosling de La La Land. Este 2017 tem tudo para ser um ano de Óscares muito politizados.

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A capa de revista escolhida hoje, esta da The New Yorker.

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