Depois de muitos meses em lume brando, inflamou-se nestes últimos dias o alarme dos EUA, da NATO e da União Europeia perante a movimentação de tropas russas em volta da Ucrânia.

Há uma tensão que já vai para oito anos. Desde a anexação da Crimeia por Moscovo em 2014, o leste da Ucrânia é terreno de confronto entre forças governamentais da Ucrânia e separatistas que se assumem pró-russos. O Kremlin nega qualquer ligação com estes separatistas e acusa os países da NATO de orquestrarem contínuas provocações. Mas acumulam-se relatos de apoio militar russo aos separatistas que desestabilizam a Ucrânia.

O que agora dispara alertas máximos é o que a espionagem americana apresenta como um plano russo para possível invasão da Ucrânia com uma armada de 100 batalhões e 175 mil soldados já em janeiro ou fevereiro do novo ano à porta. Este alarme dos serviços secretos americanos chegou ao Washington Post, alimentado com fotos de satélite que mostram o que é identificado como blindados pesados, artilharia e outros grupos militares russos em posição tática perto da fronteira oriental da Ucrânia.

O ministro dos Estrangeiros da Ucrânia quantifica: diz que já há 115 mil soldados russos não só junto à fronteira da Ucrânia como na Crimeia e em regiões ucranianas controladas por separatistas. Moscovo contrapõe através da porta-voz da diplomacia russa: argumenta que é a Ucrânia quem está a ativar tropas, afirma que 125 mil soldados de Kiev estão posicionados naquela região de fronteira com a Rússia.

O Kremlin repete desde a invasão da Crimeia em 2014 que não é parte no conflito da Ucrânia, que considera de guerra civil.

Mas Putin admite que a Rússia está agora a tomar “medidas técnicas e militares adequadas” para responder ao que define como crescente atividade da NATO nos arredores da Ucrânia.

A tensão está tão alta que Biden e Putin vão reunir-se nesta terça-feira em imprevista cimeira por via digital. A intenção é certamente a de evitar o pior com esta tensão em volta da Ucrânia.

Não é de crer que Putin queira uma guerra aberta na Ucrânia. Mas parece evidente que, em posição de força militar no terreno, quer enviar a mensagem de que a Rússia está de volta e que o Ocidente deve ter-lhe respeito ou mesmo temê-la.

O Kremlin também quer deixar claro que entende que o destino da Ucrânia passa por Moscovo e que nunca tolerará que Kiev se una à NATO.

Passa por aqui o problema que pode entrar em inquietante fase fora de controlo. Se a adesão da Ucrânia à NATO avançar e se forem instalados mísseis da Aliança Atlântica num país tão perto de Moscovo, Putin não vai ficar-se apenas por palavras de protesto.

A questão do alargamento da NATO para Leste é discutida desde o fim da URSS em 1991. Mikhail Gorbachev, último presidente soviético, repete que os americanos lhe garantiram, na negociação em volta do fim da União Soviética, que a NATO nunca seria ampliada para Leste.

Mas a cimeira da NATO em 2008, em Bucareste, teve na agenda a adesão da Ucrânia e da Georgia. Não se concretizou porque a França e a Alemanha vetaram a proposta, para não hostilizar a Rússia então ainda pouco altiva. Mas sucessivos governos da Ucrânia continuam a pedir entrada na NATO.

A insistência de Kiev tem crescido, amparada pelo que julga poder vir a ser apoio dos EUA. O secretário-geral da NATO, Jens Sloltenberg inflamou os russos ao afirmar, na semana passada, que o tema não é assunto para negociação com o Kremlin, “diz apenas respeito à Ucrânia e aos 30 membros da Aliança”.

Estamos numa época de recomposição das relações de força no mundo. Um dos focos é o Leste da Europa.

Moscovo quer garantir que a Ucrânia, ainda que não alinhe com o bloco russo, pelo menos não passe para o lado Ocidental. Mas Kiev quer passar e está a forçar esse passo.

A hostilidade entre as partes tornou-se perigosa. Sobretudo porque as peças destes jogos de guerra já estão colocadas no terreno. Putin é um experiente e hábil jogador de xadrez. Há o perigo de achar que está em vantagem para desencadear um lance decisivo.

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