Perguntei no Twitter como traduziriam a palavra inglesa underdog.

Responderam-me com muitas expressões diferentes: “subvalorizado”, “desfavorecido”, “perdedor provável”, “vencedor improvável”, “oprimido”, “desprivilegiado”, “enjeitado”, “preterido”. Um brasileiro ofereceu “azarão”, alguns engraçados disseram “subcão” e houve quem me dissesse “não traduzes, colocas entre aspas”.

O rótulo de underdog é frequentemente utilizado num contexto competitivo, referindo-se àquele cujas possibilidades de ganhar são menores. É o David na luta contra Golias: com menos meios, menos força, menor probabilidade de vitória.

É também utilizado para referir uma vítima de injustiça: aquele que é perseguido, que rema contra a maré, que luta contra um sistema que está montado para o prejudicar.

O ser humano adora histórias de superação, de exceções que contrariam a regra, underdogs que, contra todas as probabilidades, ultrapassam as grilhetas do seu contexto e triunfam. Essas vitórias são momentos de esperança e gáudio para uma multidão de gente que, quer o confesse quer o cale, se vê a si própria como underdog.

Escrevi nestas páginas sobre privilégio, e houve quem me tivesse levado a mal. Eu compreendo, verdadeiramente, esse sentimento de rejeição: da mesma forma que ninguém se acha burro, mas toda a gente conhece gente burra, também todos acreditamos que há muita gente que tem mais do que merece, mas que esse lote nunca nos inclui.

É por isso muito difícil enquadrar na conversa do privilégio esta sensação muito humana de que nada nos foi dado e muito nos é devido.

É facílimo reconhecer que o mundo assenta em estruturas de poder injustas, que beneficiam uns em detrimento de outros, causando tremendas desigualdades: quase ninguém discorda disto. É, contudo, muito difícil afirmar que nos encontramos entre aqueles que são beneficiados pelo sistema.

Este quase-paradoxo explica-se por esta crença que poucos assumem, mas que tantos sentem, de que somos todos underdogs. Daí a felicidade, o gozo, quando “um de nós”, “o pequenino”, vence. Até o herdeiro do dono da empresa gosta de acreditar que “passou por muito”, que “chegou onde chegou pelo seu trabalho”, apenas porque começou a trabalhar como estagiário na empresa do pai.

Gostamos de imaginar a nossa própria história como uma história de superação, porque são as nossas histórias que nos elevam, que nos tornam objeto de admiração, que desculpam qualquer percalço, que acrescentam espanto ao tanto que conquistámos. É esse o poder das histórias, e é por isso que é importante contá-las, e contá-las bem.

Somos todos underdogs, mas uns são mais underdogs do que outros.

Não sou ninguém para dizer quem representa, neste jogo que é a vida, o papel de underdog. Estou certo de que não é o meu caso. E gostava genuinamente que se perdesse este hábito de nos considerarmos underdogs por dá cá aquela palha, porque julgo que essa convicção impede muita gente de ver com verdade um país escondido na penumbra, um país sem voz, sem motivação, sem representantes e onde a desigualdade, a pobreza e a falta de esperança dão corpo ao conteúdo verdadeiro dessa expressão.

Eu trabalhava num escritório de advogados em Lisboa. Por vezes fazia noitadas, uns dias fiquei até de manhã. Nesses dias, pelas 5 ou 6 da manhã (nessas alturas já nem sabia em que hora estava), entrava-me pelo gabinete um par de senhoras, nos seus 40 ou 50 anos, naturais de Cabo Verde. Diziam-me simpaticamente que estava na hora de eu ir tomar um cafezinho para as deixar fazer a limpeza. Aquelas duas senhoras eram apenas duas de muitas e muitos que acordam todos os dias pela madrugada para apanhar o autocarro e o comboio e o barco, para saírem dos subúrbios onde vivem e entrarem antes do nascer do sol no primeiro de vários trabalhos, e voltarem a casa à noite para dar jantar aos filhos e descansarem até à madrugada do dia seguinte.

O que pensam, do que precisam, de que se queixam, estas senhoras? Nunca perguntei, perdido que estava de sono e de lamúrias sempre que as encontrei. Ainda hoje não sei, porque elas não dão entrevistas, não escrevem crónicas, não têm followers nem sonham com isso.

Estas senhoras é que são underdogs.

Liguei a um amigo da escola, um dos mais inteligentes que tenho. Desistiu da faculdade porque as obrigações financeiras em casa o obrigavam a trabalhar a tempo inteiro. Apesar de ter nascido em Portugal, e de nunca ter visitado África, de onde são os pais, só pôde votar aos 28 anos, quando lhe reconhecemos a nacionalidade portuguesa.

Tive de lutar quase três décadas por um direito que era meu por nascença. Quando votei pela primeira vez…senti que era finalmente gente neste país”.

Paguei tudo o que tenho, carta, carro, estudos, com o meu dinheiro, com o meu trabalho. Nunca pedi dinheiro aos meus pais”.

Trabalhei durante oito anos para uma entidade pública a recibos verdes”. “Ganho o salário mínimo e não tenho carreira, não tenho progressão, não tenho segurança”.

Gostava de sair de casa do meu pai, mas não consigo pagar uma renda na cidade”.

Esta é a minha experiência, constantemente a lutar contra o sistema”.

Este meu amigo é um underdog. Disse-lhe que ia a tempo de tirar a licenciatura, que o podia fazer em pós-laboral. Disse-lhe que isso lhe abriria portas novas, que tinha muitos anos para beneficiar desse investimento. No caso dele, acredito mesmo que assim seja.

Não quero sonhar com isso, sinto que me estou a iludir”. Assim, seco. Um tiro no porta-aviões do meu entusiasmo e otimismo. Eu julgava que sonhar era para todos, mas há quem não queira sonhos, com medo que também lhos roubem.

Tive de lhe pedir a voz emprestada, porque a minha voz não presta para isto. Eu sei repetir o que me contam, mas estas histórias não precisam só de ser contadas: precisam de ser representadas, em primeira pessoa, no espaço público, no espaço político.

As verdadeiras histórias dos underdogs não são as histórias dos poucos que quebraram as expectativas associadas à sua condição, contra todos os obstáculos. Essas são histórias bonitas, são importantes na medida em que nos inspiram a chegar mais longe, mas pecam quando criam a ilusão de que atingir o improvável, de que superar todas as dificuldades e vencer, está ao alcance de qualquer um – e que esses exemplos são a prova determinante de que quem não consegue falha. Isto não está só errado: é pernicioso, cria uma cultura de recriminação, de estereótipos, que culpabiliza quem não supera o excesso de obstáculos com que nasceu. Não será por acaso que se chama calão à linguagem suburbana; calão, que significa também preguiçoso.

As verdadeiras histórias dos underdogs são as das tantas pessoas que vivem presas na improbabilidade do sucesso e que concretizam efetivamente essa improbabilidade, nos empregos que arranjam, seja a virar hambúrgueres no mac, a acartar pesos, ou a limpar escritórios; nos cursos superiores que não terminam, quer porque em casa precisam de dinheiro, quer porque lhes faltou redes de apoio ou uma palavra de incentivo; nas casas onde vivem, pequenas demais para o número de pessoas com que as partilham; na sua incapacidade para poupar, porque os salários e as responsabilidades não o permitem; na falta de visibilidade a que estão votados, quer porque lhes faltam oportunidades, quer porque não sabem sequer como as encontrar.

As verdadeiras histórias de underdogs não são feitas das exceções, são feitas da regra, e a regra é esta: em Portugal, quem nasce underdog vai provavelmente permanecer underdog. Porque o underdog nasce na subcave de um prédio, onde o elevador não chega, com péssimas escadas e sem janelas para a rua.

A OCDE estima que em Portugal precisaremos de cinco gerações para que alguém nascido numa família pobre chegue ao rendimento médio. Cinco gerações. Avós, pais, filhos, netos, bisnetos. São cinco gerações condenadas a trabalhos pouco qualificados, com salários baixos, sem poupanças, cujas histórias conhecemos na televisão só quando o vizinho transgrediu as fronteiras do bairro para conquistar o mundo num campo de futebol, ou a vizinha, contra todas as probabilidades, tirou um doutoramento e dá aulas na faculdade.

Eu diria que esta não é a minha realidade, mas se é a do país onde vivo, a de amigos que admiro, a de pessoas cujas vidas se cruzam com a minha, então tem de ser, também, a minha realidade, uma realidade que eu desconheço profundamente, aparte uns estudos que li, umas conversas que tive e os relatos desse mundo que a arte – onde ainda se fazem as melhores reportagens – me traz.

Cinco da matina
Já todos caminham pró mesmo enredo
Porque nos subúrbios
O sol levanta sempre mais cedo
É um povo escravizado nesta sociedade de extremos
Trabalham duas vezes mais e ganham duas vezes menos.
(…)
Ainda acreditas que o futuro será diferente do passado
Aqui não dá para dormir
Quanto mais para sonhar és parvo
Aqui o Diabo choca e actua
Às vezes para veres o Inferno
Basta abrires a porta da rua

(Valete, “Subúrbios”)

Esta não é uma crónica sobre como resolver o problema do elevador social, ou sobre como há sempre alguém pior do que nós.

É uma crónica sobre gente invisível, sem espaço mediático, que precisa de oportunidades e incentivos para contar as suas histórias de provações e dificuldades, porque não podemos querer resolver os problemas do país sem conhecer a fundo a realidade e os constrangimentos dos underdogs, aqueles que ninguém espera que vençam.

Porque é isso que é ser underdog: é ninguém esperar que tu venças – nem tu. É saber que é possível, sim, mas que é altamente improvável. Que a vitória, a acontecer, será sempre inesperada e fruto de uma conjugação de fatores que muitas vezes te ultrapassam. É um tecto no teu potencial, com um asterisco que diz: se superares drasticamente as expectativas, tens valor; se te ficares pela mera concretização dessas expectativas, falhaste.

Habituámo-nos à normalidade do underdog. Haverá maior iniquidade, maior imoralidade, que esta?
Julgo verdadeiramente que não. E estou convencido de que parte da solução passa por colocar a lupa nestas vidas, por trazê-las para o centro do debate público e por impedir que se ignore por mais tempo que, em Portugal, no século XXI, há portugueses que nascem condenados à pobreza.

Pela minha parte, ponho à disposição o pouco que tenho: um espaço mediático pequenino, mas que já vai sendo constante, e uma capacidade para escrever de forma percetível aquilo que me contarem. Enviem-me as vossas histórias para joao_tgm@hotmail.com. Não as prometo contar todas, não vou conseguir, mas darei espaço às que puder, nas plataformas que tenho à minha disposição.

Convido outros, com mais espaço do que eu, ou que controlam eles próprios espaços públicos, a juntarem-se a este exercício, a procurarem estas histórias, as dos underdogs que são regra, que são legados, e que não podem continuar a ser, se queremos alcançar, um dia, uma sociedade verdadeiramente justa.

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