O trânsito na capital é um verdadeiro totoloto que acabou de vez com a chamada “hora de ponta” - basta que chova e é hora de ponta à hora da chuva… -, e cujo centro nevrálgico me parece localizado justamente na zona do Marquês de Pombal, desde que uma alma tresloucada decidiu transformar uma rotunda numa confusão de partes de rotunda. Adiante.

Nessa mesma terça-feira caótica, o executivo camarário de Lisboa anunciou ao povo da capital a boa nova: vai renascer a Feira Popular, num terreno que a Câmara comprou por mais de 11 milhões de euros. O resto, asseguram, será sustentado por privados e eventuais parcerias. Nada foi muito claro, no que aos dinheiros diz respeito, no anuncio do “pré-programa” da Feira. O costume. Talvez acrescentem uma taxazita de entrada no aeroporto, ou algo parecido, para ajudar a pagar a despesa…

Agora imaginem o cenário: estou parado no trânsito, tentando chegar a horas ao meu destino, num caos sem sentido e nunca resolvido. Lembro de imediato os mails, protestos, petições, denúncias, do excelente Fórum Cidadania Lx, que nos recorda diariamente o estado lastimável do património da cidade: o Cinema Paris, os palacetes do Principe Real, a Casa de Garrett, entre tantos outros. E enquanto tudo isto acontece, e enquanto sabemos o estado precário de tantos edifícios, de ruas e passeios, e enquanto assistimos à mais completa e desbragada desregulação dos serviços ao turismo no centro da cidade - bom, enquanto tudo isto sucede, a Câmara Municipal de Lisboa acha que o que é urgente e relevante é mesmo recriar a Feira Popular de Lisboa.

Foi irresistível voltar ao tempo dos romanos e da célebre política do “pão e circo” - mas agora é pior: querem dar-nos o circo sem nos darem o pão. Querem divertir-nos sem aconchegar o estômago…

Um pouco mais a sério. Que faz falta uma Feira Popular na capital, não duvido. Que o espectáculo obsceno que se nos oferece todo o espaço onde viveu a Feira em Entrecampos devia acabar muito antes de se pensar na nova Feira, parece-me óbvio - para não falar da desolação que é olhar as ruínas do Teatro Vasco Santana (e que nome, e que falta de respeito pela memória…). Agora, que se anuncie, num momento em que não podemos dizer com segurança que saímos da crise, e numa altura em que Lisboa se debate com tantos problemas para resolver e (aparentemente…) tão pouco orçamento para gerir, uma Feira Popular, parece um gozo à moda antiga. Um pátio das cantigas. Uma cena romana, porém sem leões nem gladiadores. Talvez adapte a frase do bom Astérix: “estes lisboetas estão loucos”. E os que não estão, vão enlouquecendo devagar…

Coisas que me deixaram a pensar esta semana

Há algum tempo que frequento o Mic. O Mic é um agregador de notícias, mas também um jornal online, que nasceu há 3 anos da cabeça de dois jovens, Chris Altchek e Jake Horowitz, com um propósito muito claro: fornecer a informação que interessa às gerações mais novas. Não pretendem abordar todos os temas - só não querem falhar os que interessam às gerações que vão governar o Mundo em breve. É um bom barómetro de uma certa classe média jovem norte-americana. Vale por isso.

Uma boa notícia para os tradutores: não há (ainda…) como contornar o conhecimento humano da língua. Se dúvidas houvesse, a noticia que veio de Espanha esta semana dá para rir mas também dá que pensar: deixando ao cuidado do Google a tradução, a tradicional “Feira do Grelo”, que se realiza na cidade vizinha de Pontes de García Rodríguez, transformou-se subitamente na “Feira do Clitóris”, “uma delícia gastronómica típica da cozinha galega”… A língua portuguesa é traiçoeira, mas a tradução na net ainda é mais…

Sei que chegou o Netflix e que há séries modernas e fabulosas para ver. Mas confesso: associo o Outono e o começo dos dias chuvosos à família Crawley e aos seus criados em “Downton Abbey”. Escrita e criada pelo vencedor de um Óscar, Julian Fellowes, é um fabuloso quadro de época e de tempos de mudança. Com apenas 100 anos. A sexta e ultima série estreou esta semana, todas as terças a Fox vai esperar por mim. Ou gravo. Ou, como se diz agora, “ando para trás” - como se o tempo andasse mesmo para trás…

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