1. Ontem à tarde quase 200 convidados lotaram o Cinema Ideal, em Lisboa, para ver o documentário “Democracia em Vertigem”, estreado há pouco pela Netflix, e já falado para os Óscares, a que se seguiu um debate com Caetano Veloso e a realizadora Petra Costa, mediado pela Mídia Ninja. A própria sessão parecia concentrar, assim, contradições do filme, e da história nele condensada: um exclusivo Netflix numa sala de cinema; uma sessão sobre as fragilidades da democracia, mas não-aberta ao público (pelas obrigações contratuais com a Netflix); um documentário que, aliando-se a uma máquina poderosa, ganha meios, e condicionantes. Quase como se a existência, divulgação e projecção do filme fossem mais uma prova do que o filme mostra: a vulnerabilidade da democracia brasileira.

Os meios da Netflix terão sido decisivos para todo o trabalho de pesquisa e de montagem (oito montadores, de entre os melhores do Brasil). Ao mesmo tempo, as incríveis imagens de arquivo que esse trabalho oferece ao mundo só se revelam em todo o esplendor numa sala de cinema. E alguns dos elementos de que menos gosto, como o dramatismo sublinhado pela trilha sonora, e um certo estilo da voz off da autora, serão parte da proposta empática do filme, para envolver um público alargado.

Muitas camadas, paradoxos, ângulos. Seja como for, do ponto de vista da História, é difícil negar a importância de “Democracia em Vertigem”.

2. Algo que me impressionou em particular: nunca vi Brasília filmada assim, uma Brasília ao longo das décadas, desde a construção, nos seus vazios, no seu oco, no silêncio do extraordinário Palácio da Alvorada, na forma como tanta depuração da beleza contém um abismo entre povo e governantes. Abismo só quebrado pela figura visceral de Luís Inácio ‘Lula’ da Silva. Jamais eu vira Lula assim em Brasília, dentro do palácio presidencial, tornando tudo aquilo orgânico, matéria viva. Desse ângulo, para mim faz sentido, não é estetizante, a quantidade de imagens aéreas, muitas com o uso de drones, todas as vezes em que o filme se eleva do chão e parece planar sobre a gente, sem literalmente ninguém ao volante. Um continente à deriva, como um zeppelin.

Nisso, como nas imagens a que recorre (até porque, sendo posterior, pode evitar imagens já conhecidas), “Democracia em Vertigem” distingue-se de dois belos documentários recentes, “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, centrado no impeachment de Dilma, e “Espero Tua (Re)volta”, de Eliza Capai, sobre o levante dos estudantes secundaristas, ambos mais próximos do batimento cardíaco dos seus corpos. Onde Augusta e Eliza estão na pele, na trepidação, Petra plana, flana. Três mulheres documentaristas, três objectos ligados à luta política recente, a que se juntam vários outros, e milhões de imagens ninjas. Aquilo que explodiu nas manifestações de 2013: muita gente fora da grande mídia a fotografar, gravar, transmitir.

A Mídia Ninja cresceu desde aí até ser hoje um forte canal alternativo com um acervo impressionante. O ninja Felipe Altenfelder foi quem mediou o debate de ontem com Petra Costa e Caetano, o fundador Pablo Capilé também estava lá, e este sábado todos estarão na abertura da sede da Mídia Ninja em Lisboa, com um debate entre Caetano e Jean Wyllys, o ex-deputado federal negro e gay que se exilou na sequência de múltiplas ameaças depois da eleição de Bolsonaro.

3. Foi Altenfelder quem fez o primeiro elogio à Geringonça, logo na apresentação inicial, falando de como “Portugal vive uma experiência muito interessante, com um potencial, inspirador para o mundo inteiro”.

E, antes de as luzes se apagarem para que uma produção da Netflix fosse exibida, o dono do Cinema Ideal, Pedro Borges, já conhecedor do trabalho anterior de Petra, “admirador fanático” de Caetano Veloso, e que cedera a sala antes de mais por razões políticas, não deixou de dizer o que lhe ia na alma: “O cinema é para ser visto no cinema e não em casa.”

4. No início do documentário, Petra Costa, também narradora em off, estabelece um paralelo entre as contradições, divisões do Brasil e as da sua própria família. Neta de um dos maiores empreiteiros do Brasil, poderoso e conservador; e filha de militantes contra a ditadura, que viveram na clandestinidade, foram presos, tiveram amigos torturados, viram o seu mentor assassinado. Logo aí a questão das oligarquias, das famílias, das alianças que perpetuam o privilégio fica colocada como um molde da fragilidade democrática brasileira. Petra faz uma rápida condensação das décadas democráticas, da ascensão de Lula, das conquistas e contradições do seu governo, más alianças incluídas, e corrupção na máquina empresarial e partidária, e chega a 2013 como o “abalo sísmico” depois do qual “nada seria igual”.

Vem então a Lava Jato, aparece a cara do juiz Sérgio Moro, alguém na plateia do Ideal grita: “Ladrão!” Vem essa espécie de “joker” diabólico que é Janaina Paschoal, jurista acusadora de Dilma, já antecipando todo o delírio por vir. Vem, nos antípodas, José Eduardo Cardozo — que quando era ministro da Justiça teve a coragem de admitir o horror real das prisões brasileiras — chamar golpe ao impeachment. Vêm os vampiros Eduardo Cunha e Michel Temer, entretanto acusados de crimes. Vem Jean Wyllys, momento mais aplaudido no Ideal com a sua brava declaração nos votos do impeachament, pano vermelho aos ombros: “Eu voto não ao golpe, e durmam com essa canalhas!” Vem Bolsonaro, com aquele seu sorriso escarninho, as mãos em arminha, mostrando a Petra o retrato dos ditadores no seu gabinete. E por aí vai: Dilma derrubada, Lula acusado, Lula preso, vitória de Bolsonaro. Imagens dos bastidores de tudo isto que eu nunca vira, e creio que o Brasil também não. Muito perto de Dilma, de Lula, nos passos deles, nos lutos, nas despedidas, dentro dos carros, ao telefone. Por um lado, os tesouros de arquivo mais antigos, por outro estes documentos, para a história. E se a presença de espírito, a força genuína de Lula, não é surpresa, a calma de Dilma reforça uma dignidade singular. Cobri a campanha em que Lula entregou a sucessão a Dilma. Nunca achei que ela fosse uma boa escolha. Não era a pessoa para presidir ao Brasil. Mas sai limpa, sem que nada apague tudo o que se deve a quem como ela resistiu à ditadura e a uma tortura brutal. Também nunca tinha ouvido o que Dilma diz a Petra, sobre como se resiste à tortura: pensar que é só mais um minuto. Só mais um minuto.

Respeito.

5. Petra e Caetano chegaram depois, começou o debate. Na plateia estavam pelo menos três membros do Bloco de Esquerda, Joana Mortágua, Catarina Martins, Francisco Louçã, e do PCP pelo menos Rita Rato. E, na primeira vez que falou, Petra começou por elogiar a Geringonça, dizendo como “hoje Lisboa significa uma aliança progressista no mundo”, “bastião da democracia com quem todos temos muito a aprender”. Um optimismo que uma parte dos presentes não partilhará, ou achará realista, mas que revela o voluntarismo de várias iniciativas brasileiras em curso aqui.

Caetano começou por destacar três momentos no filme. Primeiro, o Brasil descrito como um país de famílias. Famílias que, fez questão de sublinhar, “têm laços primordiais com Portugal” e “isso está ligado ao modo como o Portugal do século XVI começou a colonizar as terras onde viviam tantas nações indígenas”. Ao longo do debate, Caetano voltou a referir-se mais de uma vez à forma como o Brasil foi moldado pelo seu passado colonial e esclavagista, e essa origem não pode ser desligada da discussão sobre a democracia. O segundo momento do filme destacado por ele é a fala incrível de uma empregada do Palácio do Planalto, que começa por parecer apoiar o impeachment para depois dizer que na verdade aquilo não aconteceu pelo voto, que na verdade não existe democracia. “Nós não votámos, isso me parece”, rematou Caetano. E o terceiro momento é aquele em que Petra interroga “como podemos imaginar um passo adiante”.

Entre perguntas do público, Petra conta que uma das coisas que tirou na montagem final é uma frase (citação de um cineasta, Chris Marker): “A história tem mais imaginação do que nós.” Mas Petra gosta dessa frase e fica na esperança: “Tenho fé que a história nos vai surpreender em breve.”

Mais adiante, Caetano fala da divisão actual, do momento actual, como “uma quebra do pudor”, em que uma branca já não tem vergonha de dizer que dar lugar a negros é algo contra brancos. Agora essa linguagem domina e era o indizível, resume Caetano.

Mas neste ponto faz avançar o debate: “A eleição de Bolsonaro é o quê? Um retrocesso? Não sei. O povo brasileiro se desvendando? Um passo à frente num certo sentido. Porque pode provocar respostas que não aconteceriam se o negócio não tivesse chegado a isto.” E aludindo à frase que Petra citara: “A história tem mais imaginação do que Marx.” Para chegar à ideia de que “percalço é prova de caminho”. Ou seja, de que o Brasil, no seu aparente retrocesso, continua avançando.

6. Como é incrível que este homem, que se exilou na ditadura militar, vidente de várias gerações, continue aqui, cada vez mais bonito, debatendo filmes, dando concertos, coincidindo connosco em 2019, no horror e na alegria, continuando a dar motivos para estarmos vivos com ele. Porque essa história, que sempre terá mais imaginação, tem de ser feita agora, e ninguém mais a pode fazer. Somos nós.

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