1. Mark Zuckerberg talvez nunca tenha ouvido falar em Pierre Sioufi. Ou, quem sabe, se calhar há sete anos, quando o nome Pierre Sioufi foi famoso por um instante, Zuckerberg até o viu no Facebook, na televisão ou naquele texto do “New York Times” em que Pierre se viu nomeado “o guru da revolução” no Egipto. Mas a revolução no Egipto desfez-se num piscar de olhos, durante anos o nome de Pierre não voltou ao mundo, além de que Zuckerberg, como todos sabemos, não está a ter um Março fácil. É altamente improvável, pois, que ele tenha sabido da morte de Pierre Sioufi, no começo deste mês. E, no entanto, poucas pessoas no mundo simbolizarão tanto um Facebook do bem como Pierre. Assim de repente, nenhuma outra que eu tenha conhecido.

2. O CEO do Facebook pode não ter a mínima ideia do que deve a Pierre Sioufi (além das explicações que deve a milhões). Mas, quem estava em casa de Pierre na semana de Fevereiro de 2011 em que o regime de Mubarak caiu, é testemunha disso. Claro que, na verdade, não há um Faceboook do bem (ou do mal). Há, por vezes, raras vezes, gente a ser incrível num momento incrível e capaz de o multiplicar por milhões. Foi isso que Pierre fez. Calhou o Facebook estar à mão. Também o Twitter, o Skype, a televisão, a rádio, os jornais, e ele abriu os braços a todos. Mas acima de todos, no seu poder de contágio imediato, com texto e imagem, o Facebook. O que Pierre percebeu foi que era essencial manter aquela praça ligada ao mundo. Não apenas porque, de facto, uma revolução estava a acontecer, mas para que mais sangue não corresse. Não será exagero escrever isto: Pierre Sioufi fez com que aquele momento único nas vidas de todos os que estavam ali corresse mundo, mas também com que muita gente não morresse.
Aquilo que uma parte do mundo viu, ouviu e soube sobre a Praça Tahrir, nesses dias arrebatadores de há sete anos, deve-se de algum modo a Pierre. Eu devo-lhe isso, directamente. E, para além de tudo o mais, que personagem, que humor, que espírito livre, que peito espaçoso, por fora, por dentro. Que abalo pessoas assim morrerem aos 57 anos, logo elas. Ficamos aqui, maiores por causa dele, menores porque ele morreu, a agradecer.

3. Pierre era um homem literalmente grande. Um gordo, de barbas, cabelos grisalhos meio no ar. No dia em que o conheci disse-lhe que me lembrava o Coppola. A resposta dele foi: o Coppola não, o Orson Welles. E isto era só um dos muitos diálogos desconcertantes que se podiam ouvir naquele 9º andar atulhado de gente sobre a praça Tahrir, em plena revolução.

4. Não fui enviada à Tahrir, nessa altura já morava no Brasil como correspondente. Mas calhou estar nos Açores a apresentar um livro e, perante as notícias que chegavam do Cairo, onde o levantamento estava a ser violentamente reprimido, pedi uns dias e voei para o Cairo. Vários amigos acolheram-me, deram pistas. Devo ao João Pina, que andava na praça a fotografar, ter-me mandado uma mensagem a dizer que estava num apartamento sobre a Tahrir que eu tinha de conhecer. Eu estava no extremo oposto da Tahrir, e havia meio milhão de pessoas entre nós, incluindo um tanque. Quando cheguei ao lado de lá, localizei o prédio, na esquina com a Taalat Harb, epicentro daquela megacidade, e disse a senha a quem estava na entrada.
A senha era: Pierre.

5. Isto passou-se no dia 9 de Fevereiro de 2011. Não que me lembrasse agora de cabeça, mas partilhei esses dias primeiro no Facebook, depois num livro. Pierre é um dos protagonistas. Explico isto porque é lá que ficou guardado o nosso encontro, com as palavras dele, e o que estava a acontecer a toda a volta.
Então, depois de dizer a senha, subi: “Escadas de mármore, um esplendor gasto, elevador soluçante, com vidros partidos”. No 9º andar não percebi onde estava a entrada de um apartamento, portanto continuei a subir. Dei com o tecto do prédio, vista assombrosa sobre aquele meio milhão de pessoas lá em baixo. Daqui foram feitas muitas imagens e emissões, incluindo, clandestinamente, a Al Jazeera, vim a saber depois. Por cortesia de Pierre. Aquele tecto também lhe pertencia.
Voltei ao 9º piso em busca do apartamento. Era mesmo aquela porta de vidro que não me tinha parecido de entrada. Bastava empurrar.
E era como passar para o lado de lá do espelho ou entrar na gruta de Ali Babá. Porque ali, num apartamento art-déco com livros antigos dentro de armários de vidro, porcelanas raras, pinturas eróticas, todos os vestígios de quem muito leu e se interessou pelos humanos, mas ao mesmo tempo como se tudo tivesse ficado adormecido por ninguém lá ter morado, ali, naquela relíquia de um Cairo cosmopolita, estava o século XXI no seu melhor. Dezenas de rapazes e raparigas espalhadas pelo chão, por colchões, com cabos, com microfones, com portáteis. Mães de jovens revolucionários e velhos amigos, marxistas italianos e anarquistas recém-chegados, repórteres veteranos e paraquedistas, e um contínuo vai-vém da mais inquieta juventude do Cairo. Eram eles os revolucionários, partilhando a revolução em tempo real com o wifi do anfitrião, dormindo no chão dele, trazendo comida para a cozinha dele, vendo as novidades na televisão dele.
Aquilo era um apartamento que era uma praça que era um acampamento.
E o anfitrião, claro, era o tal Pierre da senha, sentado ao seu computador, sempre a fumar, sempre com o Facebook e o Twitter abertos.
Não, ele não morava exactamente ali. Aquele era o apartamento dos seus avós. Mas quando a revolução começara, e a violência começara, Pierre decidira que aquela posição estratégica de 9º andar sobre a praça tinha de servir a revolução. Então mudou-se para lá dia 25 de Janeiro, e começou a abrir as portas.

6. Sendo que no meio do frenesim parecia ter sempre tempo para conversar com toda a gente. Por exemplo, eu que acabava de aterrar na sala. “Fiz umas pinturas, mas não sou pintor, representei uns papéis, mas não sou actor. No fim de tudo tenho de dizer que sou um playboy.” Foi o que respondeu quando lhe perguntei a profissão. A verdade é que também encenara, dirigira filmes, e várias outras coisas. Estava então com 50 anos, a idade que tenho agora. “Alguns jornalistas dizem que tenho uma mão nesta revolução, mas não tenho, quem dera.”
Totalmente cairota, egípcio, aprendera francês na escola, e inglês “nas canções dos Beatles e em livros porno”. O pai, coleccionador, tinha clássicos porno em inglês e francês. O seu nome completo era Pierre-Tewfick Sioufi. Família de católicos gregos do lado libanês, o da mãe, que era grega de Alexandria. O pai nascera egípcio, mas o pai dele era um iraquiano de Bassorá. Tudo isto me contou enquanto gente entrava e saía, comia, dormia. Pierre, em si, era uma espécie de metáfora do Médio Oriente, uma confluência de sangues até ao centro daquela megalópole no Norte de África que se preparava para derrubar um ditador. E o que tudo isso dera, no caso dele, era um espírito libertário, que tinha como lema “No gods, no masters”, que se considerava um não-crente nascido cristão.
Jamais tinha ficado mais de três meses fora do Egipto. Mas gostava de frio, antes de a revolução rebentar ponderara morar tipo na Holanda.
A Tahrir era o lugar favorito do avô. No tempo dele, a vista ia daqui até às pirâmides. Os pais de Pierre tinham morrido, ele não tinha irmãos. Vivia dos alugueres de algumas casas que herdava. E ali estava, de porta aberta. “Não tenho nada a temer.” Grandes discursos não eram o seu estilo. Se lhe perguntavam porque fazia o que estava a fazer dizia: “Há uma revolução a acontecer. Estou a olhar para ela, estou a pôr a história desta revolução no Facebook desde o primeiro dia para quem quiser.” Ou então: “Não acredito muito em revoluções, mas a revolução agora está aqui….” Ou ainda isto: “A minha avó pediu à minha mãe para nunca fechar este apartamento. A minha mãe manteve a promessa até morrer, no ano passado. E eu percebi que uma cobertura ao vivo era o necessário para evitar um banho de sangue.”

7. No dia seguinte, 10 de Fevereiro, voltei ao 9º andar. A expectativa da queda de Mubarak estava ao rubro. Pierre tinha um baralho de cartas no seu computador com as figuras odiadas do regime, uma piada aos métodos dos norte-americanos. Foi nesse dia que, nem sei como, soube que na sua família havia também o apelido Soussa, assim grafado. Pierre não sabia de onde vinha, mas contou que o avô fora como turista a Portugal, e corria um mito familiar segundo qual o governo português lhe perguntou se queria ficar com um castelo, desde que o recuperasse. O avô achou que não estava para isso. Junto ao computador de Pierre havia também um manual de português, parte do espólio familiar.
Nesse dia, com a casa apinhada, muito roer de unhas, Pierre disse também que o caos não era a praia dele. Não era exactamente um anarquista. “Acredito numa democracia que não seja como a americana.” Não foi nesse dia ainda que Mubarak caiu e houve um momento em que a casa, e lá em baixo a praça, pareceu entrar em depressão.

8. 11 de Fevereiro, o dia seguinte. Voltei a visitar Pierre, e todo o acampamento. E como esquecer aquele italiano que quando me soube portuguesa cantou três estrofes seguidas da Grândola? Ou aquela mãe agarrada a uma almofada com a cara de um rapaz que, sim, era Khaled Said, o rapaz morto em Alexandria que desencadeara toda a revolução, e sim, ela era a mãe dele, ali na sala de Pierre. Ou aquele momento em que Mubarak, sim, renunciou, e é difícil ter palavras que não diminuam o que se passou. A explosão de alegria, de comoção em massa, de incredulidade-credulidade. A roda de gente a dançar, as palmas, os abraços, e a noite da grande festa lá em baixo na praça. Imaginem Pierre. A cara dele, ao fim de todos aqueles dias.

9. A revolução durou uma lufada de ar. A organização da praça durante dias até à queda de Mubarak: aconteceu, não foi mentira. Depois desfez-se. Islamistas, repressão, exército, depressão. Passaram sete anos. Não sei quando, mas em algum momento Pierre começou a emagrecer com o cancro que o matou. Vejo isso nas fotografias do mural dele de Facebook. Nas últimas está quase irreconhecível, um fio. Mas o sorriso está lá. E normalmente um gato. Como era uma pessoa queridíssima de tantos, vê-se bem aí. Mas não achei muitos obituários dele. Leio que no Egipto, no estado em que está, os media formais nem noticiaram a morte.
Quixote era o seu nome no Twitter e o nome de um blog que teve. Aliás, @Kikhote. Valeu. Valeu muito.

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