As memórias que não tenho

A Chegada à Lua é daqueles acontecimentos históricos que estão para lá da fronteira da minha vida e, no entanto, estão tão perto que parece ser possível tocar-lhes com a mão.

Explico. Quando algum acontecimento histórico acontece nos primeiros anos de vida, ou não nos lembramos, mas sabemos que estávamos já vivos e gatinhantes quando tal aconteceu, ou temos uma vaga ideia de uma certa memória, mais ou menos reconstruída, de vermos alguma coisa na televisão ou de ouvirmos alguém falar sobre o assunto.

Já quando um acontecimento ocorreu antes do nosso nascimento, estará para sempre vedado às nossas memórias directas — mas, se virmos bem, no caso de acontecimentos que ocorreram poucos anos antes do nascimento, as diferenças não são assim muitas.

Lembro-me de ver tantas e tantas vezes as imagens de Neil Armstrong a dar o tal primeiro passo pequeno para um homem e grande que se farta para a Humanidade; lembro-me de ouvir os meus avós e pais a conversar sobre o assunto como se tivesse ocorrido um dia antes; lembro-me de aprender o nome dos astronautas na escola (uma memória que os meus filhos também terão, estou certo); lembro-me, enfim, de muita coisa — até me lembro de ouvir muitos a gozar, encolhendo os ombros, com os pobres coitados que não acreditavam na Chegada do Homem à Lua.

Pois, ontem, liguei o computador e, numa rede social de nome francamente conhecido, encontrei gente que conheço e respeito, inteligente e informada, a levantar dúvidas sérias sobre a chegada daqueles homens à Lua.

Fiquei em choque. Nem consegui discutir o assunto. Uma pessoa tem surpresas destas na vida. E, enfim, se há algo que temos de aprender na vida em linha que nos calhou viver na época em que estamos, é que nos desvenda alguns aspectos menos simpáticos dos que nos rodeiam — e, convenhamos, de nós próprios.

Porquê o choque? Porque, mais uma vez, percebi que a inteligência não é barreira contra o disparate. Diria mesmo que, por vezes, os mais inteligentes ficam com mais recursos para inventar desculpas para o dislate.

Para lá da inteligência de cada um (que ninguém controla) e da avalanche de informação (que nem sempre ajuda), temos de ir tentando pensar melhor — o que não parece querer dizer grande coisa, eu sei. Mas um dos princípios desse "pensar melhor" será: para uma teoria extraordinária, precisamos de provas extraordinárias — e as "provas" que os teóricos da conspiração apresentam são, quase sempre, pormenores martelados até ao limite, enfiados num tacho que arde em lume brando, durante anos, saindo de lá um cheiro nauseabundo a asneira. Um cheiro, no entanto, que inebria e engana alguns incautos.

Estas teorias vêm sempre com dois mecanismos de defesa: quem nela acredita está convicto de que os outros são ingénuos (e, por isso, nunca quererá cair na mesma ingenuidade); além disso, sempre que são apresentados factos, esses factos são sempre prova de que alguém anda a martelar as provas, consistindo, por isso, prova de que a conspiração é verdadeira. Assim, se mostrasse uma fotografia dos vestígios actuais da Chegada à Lua, essa fotografia seria vista como prova de que há uma conspiração — conspiração essa que até cria fotografias falsas de vestígios que não existem…

Não há volta a dar: as teorias da conspiração são buracos negros mentais.

As provas da conspiração

No caso da Lua, quem duvida da "explicação oficial" (expressão em conspiratês que significa "aquilo que todos sabemos") vai atirando "factos" aos pobres iludidos que somos todos nós: foi Kubrick que filmou a chegada, num estúdio ou num deserto; a bandeira ondeia a um vento que não existe na Lua; a Wikileaks publicou imagens a provar que foi tudo falso…

A Wikileaks não publicou tais imagens, claro está. Existem, isso sim, vídeos criados por teóricos da conspiração, que dizem ter ido buscá-los à Wikileaks — um nome que tem a simpática função de "areia para os olhos". (Mais: imagine-se que, num dos milhares de mensagens recolhidas pela Wikileaks em empresas e organizações, são apanhados e-mails de uma ou duas pessoas a trocar ideias sobre a teoria da conspiração. Para quem acredita nestas coisas, isso será prova bastante: a Wikileaks revelou a conspiração! Ela é verdadeira! Já não é areia para os olhos — é areia movediça, onde nos enterramos…)

Quanto à bandeira, enfim, move-se um pouco — enquanto está a ser espetada no ingrato solo lunar. Depois, lá fica em repouso, como compete a um pedaço de pano em sítio onde não há vento.

A Lua e o Euromilhões

É logicamente possível que esta conspiração, como praticamente todas as teorias da conspiração, seja verdadeira — mas do possível ao provável vai uma grande distância.

Para que esta teoria da conspiração fosse verdadeira, seria necessário o silêncio de milhares de pessoas, uma tecnologia de gravação desconhecida à época, a cumplicidade das potências rivais, entre muitas outras condições todas elas possíveis, mas extraordinariamente improváveis.

É como o Euromilhões: sei que posso ganhá-lo três vezes seguidas — e sem sequer jogar! Como? Era só ter alguém que decidisse jogar e enfiar-me o talão no bolso — e ainda que isto acontecesse três semanas seguidas e que durante essas três semanas os números vencedores fossem os meus. Fisicamente possível, extraordinariamente improvável. O mesmo acontece com esta teoria da conspiração — e quase todas as outras.

Enfim. Começamos a entrar neste jogo e nunca de lá saímos. É a mais autêntica das perdas de tempo. Quem acredita na teoria da conspiração não vai mudar de ideias por causa duma simples crónica — vai ficar apenas convencido de que sou um irremediável ingénuo ou, nos casos mais delirantes, que faço parte da conspiração. O melhor será olharmos para o acidente mental que são estas teorias e pensarmos que todos podemos ser vítimas: em que disparates caímos nós?

Mas, para lá desse cuidado básico, também há esta curiosidade: por que razão será mais fácil, para certas pessoas, acreditar numa teoria em que poucos acreditam, sustentada por quase nada, do que acreditar na "explicação oficial", sustentada por documentos de vários países, fotografias infindas, transmissões em directo, testemunhos repetidos de quem lá foi, fotografias de satélite, explicações técnicas pormenorizadas… Foi esta a pergunta que deu o título a esta crónica — e tenho agora de confessar, ao chegar ao fim, que não tenho resposta. Será tudo fruto de uma conspiração destinada a criar infindável assunto de conversa para comentadores e cronistas?

Termino, que é domingo e tenho de ir brincar com os meus filhos. Digo só isto: o mais triste é como estas infecções mentais retiram a muita gente o prazer da curiosidade e da descoberta — o prazer de sentir o coração a bater, a 50 anos de distância, quando revemos aquelas imagens de má qualidade, a filmar a chegada da nossa Humanidade a esse satélite que nos acompanha desde o princípio dos tempos, desde que um ser humano apontou para cima e balbuciou um primeiro nome para aquele círculo de luz nocturna.


Marco Neves | Escreve sobre línguas, livros e outras viagens no blogue Certas Palavras. Publicou há poucas semanas a Gramática para Todos — O Português na Ponta da Língua.

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