Como estás, leitor? Achas que te posso tratar assim? É tranquilo? A quarentena devia fazer com que abandonássemos o excessivo formalismo. Ou estás a pensar “mas andei contigo na tele-escola para me estares a tratar por tu”? É? É um pouco abusivo? Desculpe, então.

A tele-escola está de volta e eu considero um erro que seja transmitida na RTP Memória. Vejamos, um adolescente está concentrado a estudar o dia todo, quase zonzo, e no fim do dia ainda tem de levar com um episódio de Liberdade 21? Para além disso, a RTP Memória sucede-se à CMTV na lista de canais. É como escolher uma escola para os filhos que fica ao lado de um bairro dominado pelo crime e pelo sexo. Perigoso.

Um dos problemas da tele-escola é, naturalmente, a dificuldade em monitorizar. Não dá para a professora reclamar a atenção dos alunos, "Menino Miguel, importa-se de repetir o que é que eu acabei de dizer ou estava na lua?". O púbere discente limitar-se-ia a puxar atrás na box, repetia o que a professora disse e continuava a fazer scroll no TikTok. Para além disso, é difícil para o docente recriminar comportamentos. Tenho a certeza que, no contexto atual, o despedimento seria o único desfecho possível para um professor que se virasse para a turma e dissesse “vocês aí, todos para a rua!”. É muito limitativo.

A tele-escola será transmitida pela televisão pública, mas tenho a certeza que haverá pais ricos que de modo algum vão permitir que os seus filhotes assistam à mesma tele-escola do que os pobres. Os pais que têm a descendência nos Salesianos certamente vão obrigar os putos a ver o Canção Nova, os do Liceu Francês assistirão à emissão do ARTE e os do Colégio Militar não terão outra hipótese senão alugar o Platoon no videoclube.

Para os betos, a tele-escola é um LED de ecrã curvo com 60 polegadas que suporta 4K, tem uma soundbar e um sistema de VR para a altura do recreio. A tele-escola para pobres será vista através de uma Grundig de 1996 ligada à TDT que ainda tem de levar uma pancada para sintonizar, cujo comando está inserido no mesmo invólucro de plástico há vinte anos. Um país, dois sistemas.

Não vejo razão para não expandir o conceito a mais áreas do ensino. O isolamento podia ser uma excelente oportunidade para tirar a carta. Não seria difícil montar uma tele-escola de condução - ou como o meu primo que aos 14 anos roubava as chaves do carro à mãe chamava, Gran Turismo 2. Ou uma tele-escolinha de futebol do Simão Sabrosa. Daquelas pedagógicas, que não permitem que os mini-futebolistas abdiquem dos estudos, repetindo vezes sem conta, como o Pedro Proença precisa de ouvir, “primeiro a tele-escola, depois a bola”.

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