A única certeza, neste momento, parece ser a de que Joe Biden vai vencer o voto nacional. Todas as sondagens mostram rara estabilidade nessa indicação, e as escassas alterações são de reforço do avanço de Biden, que no estudo NBC/WSJ chegou no domingo aos 14 pontos percentuais, depois de outros inquéritos que colocavam a diferença entre os 3 e os 7 pontos.

Mas o voto nos EUA não é nacional e a presidência decide-se estado a estado, através dos grandes eleitores. Há quatro anos, Hillary Clinton teve a vantagem de 3 milhões de eleitores no voto nacional, mas perdeu a eleição no somatório de delegados dos 50 estados.

Há um número reduzido de pequenos estados, não chega a 10 dos 50, que vão decidir para quem vai a presidência. Na maioria desses chamados “swing states” Biden está na frente, nalguns casos, como na Pensilvânia(+7), no New Hampshire(+7), na Florida(+5) e até no Arizona(+4), com vantagem que lhe dá favoritismo. Mas também há a evidência de que Donald Trump nestes quatro anos conservou grande parte da base eleitoral. As fatias de eleitores que oscilam – mas que têm importância decisiva – são estreitas.

Esta é, porém, uma eleição marcada, como nenhuma outra, pelos imprevistos. Os acontecimentos com impacto sucedem-se: as revelações do NYT sobre a estranha vida fiscal de Donald Trump, o controverso processo de substituição a toda a pressa de Ruth Bader Ginsburg no Supremo Tribunal,  o tóxico debate Trump/Biden e, agora, aquele vírus que neste ano, só nos Estados Unidos, já causou a morte de 208 mil pessoas e que continua a infetar 35 mil a 40 mil pessoas em cada dia, a entrar também pela Casa Branca e a atacar o presidente que desvaloriza a ameaça e que sempre desprezou os gestos barreira.

A democracia americana está habituada a receber choques e a absorvê-los. Mas esta sucessão de acontecimentos suscita a pergunta: isto vai mudar alguma coisa na eleição? Sobretudo: o diagnóstico de Covid-19, com efeito de bomba com deflagração de múltiplas especulações nas redes sociais, que implicações traz?

As turbulências na economia são das tais que devem ficar em breve absorvidas. Nas escolhas políticas, está ainda para avaliar.

Em setembro de 1955, o então presidente Dwight Eisenhower sofreu um sério ataque cardíaco, com várias complicações. O médico presidencial, Paul Dudley White, cardiologista famoso, foi muito elogiado pela transparência que usou na informação clínica com resposta a todas as perguntas nos briefings diários. Então, com as complicações de saúde, a simpatia por Eisenhower cresceu, traduzida em apoio político para a reeleição, em 1956, com vantagem sobre o adversário acima da que tinha conseguido em 1952. Pode agora haver semelhante efeito de proximidade em relação a Trump? O quadro está diferente, marcado pela extrema polarização. Não se vê que possa haver mudanças de campo.

Há uma evidência: Donald Trump quer não largar, nem por um momento, o controlo da comunicação. Tanto nas mensagens vídeo a dizer que se sente muito bem, como no (insensato) passeio de carro para saudar os apoiantes à porta do hospital. Está visto que não querer explorar qualquer vitimização. Tentou mesmo esbater as dúvidas que tinham sido suscitadas pelas preocupações do chefe de gabinete na Casa Branca.

Trump quer usar o diagnóstico Covid-19 como linha política na estratégia para dar mais fôlego à campanha dele e conseguir, daqui a um mês, chegar à vitória.  Quer impor a mensagem de triunfo pessoal dele sobre a doença: cura veloz, ausência de efeitos clínicos colaterais, regresso rápido à campanha e aí explorar a mensagem de que tinha razão ao desdramatizar a ameaça do vírus e acrescentar que o perigo maior é o da paralisação da economia. É o que os eleitores dele querem ouvir. Resta saber se acrescenta mais alguns, ou se perde indecisos que admitiam votar nele.

Obviamente, não falta quem suspeite que em toda esta história há muita encenação e mentiras. Mas também há os apoiantes para quem qualquer informação negativa sobre Trump é fake news, mesmo que os factos sejam evidência.

É assim que o debate, na noite de quarta para quinta-feira, entre os vices escolhidos pelos mais idosos candidatos em toda a história presidencial dos EUA, vai ser muito mais visto e escrutinado do que qualquer anterior expectativa. Está reforçada a ideia de que um deles, Mike Pence ou Kamala Harris, tem probabilidade de, mais tarde ou mais cedo, passar a usar o acrónimo POTUS que significa presidente dos EUA. E o que não ficar na função impõe-se como alternativa a partir da oposição.

A TER EM CONTA:

Quem vai decidir a eleição nos EUA?

A batalha contra o vírus num hospital de Nova Iorque. Como em tantos outros, perto de nós e pelo mundo.

Com a Covid a crescer entre os mais jovens, a cidade de Paris fecha os bares.

Três primeiras páginas escolhidas hoje: esta, esta e esta.

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