Investigadores da Universidade da Pensilvânia publicaram recentemente uma investigação na revista ‘Science’ que demonstra que quando uma determinada percentagem da população defende uma mudança na norma social, consegue consistentemente que toda a população a abrace [Centola et al., 2018]. E que, em muitos casos, basta uma pessoa para atingir esse ponto de viragem. Ou seja, basta uma pessoa para mudar o mundo.

A Maratona de Cartas é um projeto da Amnistia Internacional que, durante o último trimestre de cada ano, foca a atenção e mobiliza milhares de pessoas em todo o mundo em alguns casos específicos de direitos humanos. Este ano, foram cinco os casos que trabalhámos em Portugal. Cinco casos de mulheres em risco por defenderem os direitos humanos, por lutarem por um mundo melhor.

Por ordem alfabética, começamos por Atena Daemi, uma mulher iraniana que luta pacificamente para acabar com a pena de morte no país e que, por isso, foi condenada a sete anos de prisão, num julgamento que durou apenas quinze minutos.

Depois, Geraldine Chácon, uma jovem venezuelana que capacita jovens para defenderem os seus direitos e para fazerem do seu país um lugar melhor para viver, trabalho pelo qual já foi presa e impedida de sair do país. O seu processo não foi fechado para que possa ser presa de novo, a qualquer momento, sem qualquer aviso.

Marielle Franco foi uma corajosa mulher brasileira que personificou o que é a defesa dos direitos humanos. Lutou destemidamente por um Rio de Janeiro mais justo e, por causa disso, foi assassinada a tiro no seu carro.

Nonhle Mbuthuma lidera a luta da sua comunidade sul africana contra uma empresa mineira que quer explorar titânio na sua terra ancestral e por isso está a ser alvo de perseguições e ameaças, tendo já sobrevivido a uma tentativa de assassinato.

Por último, Vitalina Koval, que trabalha arduamente para defender os direitos LGBTI e os direitos das mulheres na Ucrânia, trabalho pelo qual foi já atacada e intimidada em várias ocasiões.

A Maratona de Cartas deste ano já terminou e já deu frutos. Nonhle e a sua comunidade já foram consultadas pelas autoridades para um inquérito sobre a exploração mineira nas suas terras e um juiz decidiu que não se pode explorar a região sem o consentimento prévio das populações. Até aqui estas não tinham sequer sido ouvidas.

Vitalina Koval, que em 2018 tinha sido atacada durante a marcha do Dia Internacional da Mulher na Ucrânia, viu o processo que movera contra os seus atacantes avançar e ganhou coragem para organizar nova marcha este ano – tendo mesmo conseguido proteção durante o evento.

Também o caso de Marielle continua a não ser esquecido: as autoridades brasileiras detiveram no passado dia 12 de março dois suspeitos do assassinato e a mobilização mundial está imparável pois é necessário garantir que as investigações são independentes e imparciais e que levem todos os responsáveis, inclusive quem ordenou este crime, a um julgamento justo.

Tudo isto, alcançado pelas mais de 348.000 assinaturas que tivemos em Portugal, e perto de 6 milhões no mundo inteiro – 5.912.113, contadas até ao momento.

Estes números são animadores, especialmente quando vivemos num tempo em que os discursos de ódio, divisão e medo proliferam e enquanto assistimos, em muitos casos, a um retrocesso nos direitos e liberdades um pouco por tudo o mundo.

São perto de 6 milhões de pessoas que nos mostram que estão dispostas a agir pelos direitos humanos.

Cada uma destas pessoas pode ser o ponto de viragem para fazer a mudança acontecer e ser agente de mobilização para tornar o mundo um lugar melhor.

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