Um amante do futebol, grande fã do jogo do Barcelona no tempo de Guardiola, o britânico John Carlin, jornalista premiado, autor do livro “Invictus”, imortalizado no cinema pelo filme de Clint Eastwood que mostra como Mandela soube usar o râguebi para unir e reconciliar a África do Sul, também encontrou uma boa imagem para expressar a frustração que é bola num estádio vazio: “Futebol sem público é como sexo com máscara e luvas de látex”.

Sabemos que fomos neste ano apanhados por duas realidades. Duas urgências. Uma, sanitária com a pandemia que continua à solta e a tentar atacar-nos a todos, ao nosso menor descuido. A outra, económica, com tantas empresas de todas as dimensões em aflição, algumas já com a dúvida sobre se têm as condições necessárias para conseguir voltar.

A indústria do espetáculo desportivo, em especial a que vive do futebol, está, como toda a gente, impaciente pelo regresso. A impaciência costuma não ser boa conselheira.

Admito que os contactos entre jogadores, na disputa de lances, poderão não suscitar problema de contágio porque os clubes grandes, aqueles que estão a caminho do regresso ao campeonato já no fim do mês, têm estrutura para testarem diariamente toda a equipa, jogadores, técnicos e outros envolvidos diretos. Se alguns dos clubes não tiverem essa estrutura, a Federação Portuguesa de Futebol, que é reconhecidamente eficiente, pode tratar de garantir esse cuidado ou de o promover juntamente com a Liga.

Mas quem e como vai assegurar que, apesar das bancadas fechadas, não há ajuntamentos massivos de claques e outros adeptos a abraçarem-se junto aos estádios quando a equipa preferida marcar um golo? O mesmo nos cafés com ecrã gigante para atrair clientes?

A prudência aconselharia esperar mais pela retoma do futebol. Acresce a dúvida sobre se o futebol sem a emoção das bancadas satisfaz o divertimento.

É um facto que há o risco de a espera se tornar interminável, muitos meses, até que a ameaça do vírus esteja domada. Todos também sabemos que nas contas desproporcionadas de grande parte das equipas há clubes desesperados pela crise de liquidez e em ânsia para receberem os direitos de transmissão dos jogos.

A lógica dos que nos clubes reclamam “the show must go on”, sem mais esperas, tem uma única motivação: o dinheiro.

Um homem do futebol, treinador, o argentino Marcelo Bielsa, conhecido pela alta exigência e frontalidade, há vários anos que se queixa do sistema do futebol, como fica claro no livro Los 11 caminos al gol: “O mundo do futebol parece-se cada vez menos com o adepto e cada vez mais com o empresário”. A atual crise pode vir a forçar uma mudança desejável, a do modelo que estrutura os clubes de futebol.

Voltando ao caso específico do regresso do futebol português já no final deste mês. O futebolista Francisco Geraldes, oportuno, dispara a atenção para o ponto 1 do catálogo de condições da DGS para essa retoma do campeonato: “A FPF, a Liga Portugal, os clubes participantes na Liga NOS e os atletas assumem, em todas as fases das competições e treinos, o risco existente de infecção por SARS-CoV-2 e de COVID-19, bem como a responsabilidade de todas as eventuais consequências clínicas da doença e do risco para a Saúde Pública. ”

Há eventual risco para a saúde pública? Assim sendo, há que eliminar o risco. A composição da equipa de especialistas definida pela FPF leva a confiar que a decisão final que vier a ser tomada vai ser a que acautela a saúde pública.

O futebol, por muito divertimento que possa propagar, é uma indústria que não pode ter carácter prioritário na complexa saída do confinamento. Dá prazer ver um bom desafio de futebol, mas se envolve algum risco para a saúde pública, então que o jogo espere. Para mais, quando o espetáculo não tem os ingredientes todos.

Simon Critchley, professor de filosofia na New School for Social Research, da Universidade de Essex, publicou em 2017, na Penguin Books, um interessante livro com o título “What we Think About When we Think About Soccer” em que retrata com precisão a atmosfera do espetáculo de futebol: “O canto coletivo e o som inebriante da multidão não apenas acompanham a bela atividade dos jogadores, são também a matriz sublime da qual o jogo emerge, o campo de força que impulsiona a ação, na forma de uma música. Competitiva”.

Parece consensual escrever que os adeptos nas bancadas são mais do que um elemento decorativo no estádio. A emoção coletiva do público, os cânticos e o fervor da assistência constituem parte essencial do espetáculo. Com essa ausência, a difusão do jogo de futebol fica desvalorizada para quem transmite e degradada para quem assiste. Futebol sem público fica um espetáculo que perde vida.

Mesmo tendo em conta que os encostos e abraços entre os jogadores em campo não serão problema, o melhor será esperar para que o futebol seja espetáculo completo no estádio. Se calhar, a demora vai implicar mudanças no modelo dos clubes, talvez menos dinheiro a rodar em negócios de transferência muitas vezes inexplicáveis, e possivelmente a oportunidade para revelação de novos talentos nas escolas dos clubes. Já agora: que no regresso do futebol jogado haja menos envenenamento no futebol falado.

A TER EM CONTA:

Passaram 75 anos sobre o dia em que o mundo celebrou a capitulação do nazismo. É muito pertinente a discussão colocada pelo The Guardian: o que é que a II Grande Guerra significa para as gerações que não a viveram e que lições devemos tirar? A Europa do século XX foi palco para duas guerras mundiais, sofreu duas ditaduras maiores e uns quantos seguidores do modelo autoritário. A NATO e o Plano Marshall de um lado, o Pacto de Varsóvia e a mão soviética sobre vários países e povos do Leste da Europa do outro, são realidades que conformaram as identidades distintas dos dois mundos saídos da II Grande Guerra. A influência soviética desabou nos anos 80, com a implosão ativada pelo revolucionário reformista Gorbachev, um herói político do século XX. Entretanto, 15 países europeus já tinham conseguido juntar-se numa união europeia que tem por pilares a liberdade, a democracia, a solidariedade e o respeito pelo Estado de direito. A união dos 15 países cresceu para 28 e baixou, com a saída do Reino Unido, para 27. Muito do desenvolvimento de Portugal depois do 25 de Abril aconteceu porque essa Europa unida foi solidária nas políticas de coesão. A atual União Europeia, talvez demasiado alargada, tem parceiros que se afastam do ideal fundador e a solidariedade é uma força que está à prova. As próximas semanas são uma oportunidade para que a União Europeia consiga corresponder ao ideal. Mas o resultado é incerto.

Um irresistível violino para nos acompanhar.

Destaques que nos deixam atentos: esta e esta.

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