Como está a tua cabeça? Como assim, a minha cabeça? Sim, a tua saúde mental. Ah, isso, olha tenho uma aplicação para fazer meditação, tenho uma para me ajudar a dormir e, claro, tomo antidepressivos há anos e anos. Já não devem fazer efeito. Achas?, não, não, fazem de certeza efeito porque eu já não me angustio como anteriormente. Tinhas muitas angústias? Bom, tinha as do costume, sabes como é. Primeiro foi o casamento, o nascimento dos miúdos, o divórcio. E em paralelo a minha carreira, bom, o percurso profissional porque carreira parece-me sempre o autocarro lá na terra, enfim, a vida com os seus dramas. Então, mas quando te casaste tinhas vinte e tal anos, já estavas deprimida? Pois estava, foi tudo muito avassalador, a minha mãe começou por me dar um ansiolítico que ela tomava, a senhora da farmácia dava-lhos sem receita, depois o médico de família lá percebeu o peso que eu carregava e deu-me um antidepressivo, lembro-me bem porque me sentia muito enjoada, muito enjoada, experimentei outro e pronto, às vezes mudo, mas não passo sem eles.

Sim, é um diálogo ficcionado, porque muitas vezes a ficção ajuda a compreender a realidade. E em Portugal o consumo de antidepressivos é imenso. Existem, identificados, dois milhões e cerca de trezentos mil portugueses em sofrimento, uns por sofrerem de ansiedade, outros por estarem deprimidos. Em ambas as situações, o consumo de fármacos é uma realidade. Dois milhões. Com a pandemia, imagino que o número possa subir.

A nossa saúde mental deteriora-se com a pressão social, com a falta de dinheiro para isto e para aquilo, com a situação profissional, com as relações amorosas, com traumas. Tudo nos pode deitar abaixo? Tudo. Sou uma adepta incondicional da terapia. Porquê? Porque já tive deprimida, porque já vivi situações em que não me apetecia sair à rua ou em que entrava em pânico. Fui pelo meu pé a um consultório de um psiquiatra. Já sabia então que o tempo de espera para uma consulta de psiquiatria através do Estado seria uma espera tão longa, tão longa, que talvez eu piorasse e não podia dar-me a esse luxo. O meu seguro de saúde pagou seis sessões. Fiz muitas mais. Tomei antidepressivos e indutores de sono. Fiz um percurso. Nunca me automediquei e tão pouco posso dizer que o meu estado depressivo fosse muito elevado. Procurei ajuda e, com tempo, recuperei energia, recomecei a respirar. Não tenho vergonha de o dizer. A saúde mental é, ainda agora, um imenso tabu. Até quando? Não sei responder. Sei que existem dois milhões e tal de portugueses a sofrer. Comparativamente com outros países europeus somos os grandes consumidores de fármacos contra a depressão e contra a ansiedade. Os fármacos podem ajudar, mas não resolvem e não são por si só transformadores. Empurrar um problema com a barriga, neste caso, com medicação, é meio caminho andado para nunca sairmos do buraco em que estamos. Merecemos melhor. Todos nós.

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