Anda toda a gente a puxar para si o episódio tailandês e eu não tenho qualquer pejo em fazer o mesmo. Por estes lados a alegria é genuína, assim como o tinha sido antes a inquietação; nesse sentido, nem sequer critico esta vaga de resoluções imediatas, como da Liga Portuguesa ou do Benfica, em convidar os jovens resgatados para virem cá conhecer o nosso futebol. Chamem-lhe demagogia, chamem-lhe folclore, chamem o que quiser - eu alinho e aplaudo e festejo. Se a alegria não nos expuser um bocadinho ao ridículo não é alegria de muitos quilates. Mas, calma, há limites e há abutres; decreto falta de paciência para o sensacionalismo cangalheiro da Judite de Sousa. A jornalista da TVI até me ajuda na analogia futebolística, uma vez que se apoderou do lado mais exasperante do Nuno Luz (jornalista melga da selecção portuguesa). Da janela do hospital tailandês, não havia quem lhe atirasse um saco de mijo?

Abandonamos a gruta asiática e recuamos até ao Mundial asiático. Há 16 anos, o Campeonato do Mundo estreou-se fora da Europa e das Américas e foi também a primeira vez que se organizou em 2 países. Falo obviamente do “Coreia-Japão 2002” que, embora tenha sido a melhor Copa de sempre, foi outra competição de péssima memória para os portugueses. A nossa selecção partiu cheia de expectativas, tanto pelo Europeu brilhante que fizera 2 anos antes, como pela aparente acessibilidade do grupo onde tinha calhado. Mas Portugal foi multiplamente humilhado: humilhado pela selecção dum país quem nem se digna a chamar football ao futebol; perdemos 3-2 com os Estados Unidos (aos 36’ os americanos já lideravam por 3 bolas a zero). Humilhados pela Polónia, que se deixou golear, dando-nos a sensação que o jogo seguinte seriam favas contadas. Humilhados pela Coreia do Sul, com quem nos bastava um empate, mas concedemos o 1-0 de onde nunca se esquecerá ainda a humilhante agressão de João Vieira Pinto ao árbitro da partida. Céus, até o cabelo loiro do Petit nos humilhou – e eu sou fã do Petit, por isso é com amizade que lhe digo que aquela cara não foi feita para sustentar grandes veleidades cromático-capilares.

Agora que já tirámos Portugal do caminho, fica muito mais fácil recordar porque é que o Mundial da Coreia-Japão foi o melhor de sempre. Para além das novidades geográficas, este torneio foi rico em dados e estatísticas que se inscrevem na história dos campeonatos do mundo. Saliento que teve a pior prestação duma selecção campeã em título (a França fez apenas um ponto, o que serviu como mesquinho prémio de consolação para nós, há 2 anos sedentos de vingança dos gauleses). Teve, por outro lado, a melhor prestação da selecção que se sagrou campeã: um Brasil 100% vitorioso.

Este Mundial de 2002 foi profícuo em enredos e óptimo a tirar jogadores do anonimato global. Tornou-se palco de surpresas e de jogos intensos - o mais emocionante de todos talvez o Coreia X Itália. Essa partida foi inesquecível pelo dramatismo, e inesquecível também (os italianos que o digam) pela arbitragem vergonhosa. Mas se há manchas perpétuas nas bandeiras brancas deste campeonato, também há memórias insuperáveis vindas das bancadas. Os adeptos nipo-coreanos tornaram-se a bitola no que concerne a organização e entusiasmo. Nos estádios, a euforia andou distante do caos, a excitação andou longe do tumulto, a agitação andou perto da civilidade: tudo raro. Foi, por isso, um público merecedor do maior marco deste Mundial: a primeira final entre Brasil e Alemanha, duas selecções que são também os dois paradigmas em que se divide o bom futebol.

Se outros argumentos faltassem, diria que o Campeonato do Mundo de 2002 foi tão claramente o melhor de sempre que nem Scolari conseguiu estragar a equipa que treinava. Digamos que a tarefa da inépcia do Sargentão não era fácil – tinha de conseguir falhar o “penta” ao comando a selecção dos “3 Rs”, o tridente ofensivo composto por Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo “Fenómeno”. Com essa fórmula, e com outros grandes nome no plantel, a pobreza técnica do seleccionador brasileiro não foi suficiente para ajudar o adversário. A Alemanha do enorme Oliver Kahn, ou do inspirado Michael Ballack, nada pode contra esta canarinha. Seriam necessários mais 12 anos para que, finalmente, Scolari liderasse a selecção germânica numa vitória retumbante contra o Brasil.

Não vou dizer que “sou nostálgico” porque isso parece designar um estado pleno de romantismo. Digo antes que “sofro de nostalgia”, e assim aludo à verdadeira raiz patológica do meu problema. O sintoma claro está na memória que funciona ao contrário: é cristalina no passado e vai-se turvando com a proximidade do presente. Lembro-me melhor dum espirro em 1986 que duma pneumonia anteontem. Por tudo isto, e porque as edições do Mundial que ainda tenho de cobrir são cada vez mais recentes, na próxima semana vou escrever de forma condensada e esquecida. Quando voltar, até já terá terminado o Campeonato do Mundo de 2018. Será tão recente que temo não me lembrar.

(conclui na próxima semana)

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