A conjugação de sondagens e outros estudos sociológicos em França evidencia que muito do crescimento do voto em Le Pen tem origem nas esquerdas. Porquê? Porque várias das forças políticas à esquerda se desconectaram das massas populares.

Os socialistas(PSF), que nos anos 80, com Mitterand, ultrapassaram 50% dos votos, aparecem agora entre os 6 e os 7%. Estão à procura de identidade e discurso, com fundas divergências internas, sobretudo entre a via social-democrata defendida pelo ex-presidente François Hollande e amigos, e a prioridade ao verde defendida pelo muito ecologista atual líder do PSF, Olivier Faure. Os socialistas estão fora de possibilidades na próxima eleição presidencial, apesar dos bons resultados da reeleita Anne Hidalgo na gestão da cidade de Paris.

A presidência francesa vai ser discutida em maio do ano que vem entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen. Macron, apesar de cada vez mais aliado a protagonistas políticos à direita, precisa de votos da esquerda em número suficiente para superar os que estão prometidos a Le Pen. Longe vai o empenho de 2002 em que gente de todas as esquerdas votou no candidato da direita tradicional para assim barrar as ambições de Le Pen pai. Chirac foi eleito com irrepetíveis 82%.

Na Alemanha, a cinco meses das eleições que vão decidir a sucessão de Angela Merkel no governo de Berlim, o SPD está ultrapassado pelos Verdes que poderão mesmo passar a primeiro partido, superando a aliança à direita, CDU/CSU.

Os social-democratas alemães (SPD) têm o mérito de, nos últimos anos, terem demonstrado sentido de estado ao integrarem em coligação o governo de Angela Merkel, como forma de garantir a governabilidade, sacrificando assim o apoio eleitoral ao SPD. Os militantes fartaram-se da cumplicidade com o governo de maioria conservadora e com o alinhamento neoliberal, e impuseram viragem à esquerda e nova liderança. Mas, para o eleitorado, ficou a perda de credibilidade com estas derivas identitárias do SPD e que beneficia são os Verdes.

Os Verdes alemães deixaram a antiga reivindicação de ruturas, aparecem pragmáticos, demonstram nas cidades e estados que governam elogiada capacidade de gestão com critério ecológico e, encabeçados por Annalena Baerbock, podem ser o partido mais votado nas eleições de 26 de setembro. Neste momento parece inquestionável que qualquer coligação para governar a Alemanha terá de incluir os Verdes. Com o SPD, que foi referência da social-democracia com Willy Brandt e, depois, em viragem liberal com Schroeder, agora à procura de identidade. A par da mobilização em torno dos Verdes, consta-se o estancamento ou mesmo redução da extrema-direita AfD.

Na semana passada houve eleições municipais no Reino Unido e regionais em Madrid.

A super quinta-feira eleitoral no Reino Unido, com 48 milhões de eleitores, ditou o triunfo dos conservadores - também o dos nacionalistas escoceses - e mais um desastre para os trabalhistas, cujo líder, Keir Starmer, neste primeiro teste eleitoral assumiu com clareza que “perdemos a confiança da classe trabalhadora”.

Dois dias antes tinha havido eleições na Comunidad de Madrid. Foi, como previsto, mais do que um bofetão, uma hecatombe para o PSOE, que perdeu a liderança das esquerdas madrilenas para um novo partido, Más Madrid, resultante de uma cisão no desmoronado Podemos.

Ficou evidente na batalha eleitoral de Madrid que as mensagens da esquerda estão muito longe dos problemas e aspirações de quem vive na região da capital espanhola.

O triunfo de Isabel Ayuso em Madrid mostra que a hiperliderança dela soube interpretar o que as pessoas querem neste momento e que ela traduziu numa palavra: liberdade. A liberdade para sair, para ir aos bares, para todas as lojas e restaurantes estarem a funcionar em pleno.

A crise financeira de 2009 levou em Espanha a forte contestação nas ruas, simbolizada pelo movimento que ficou conhecido pela data de uma enorme manifestação, 15-M e a entrada em cena do Podemos, liderado pelo inflamado Pablo Iglesias. A conjugação de interesses veio a fazer dele muleta do PSOE e aliado constantemente incómodo. Uma dúzia de anos depois de aparecer, a rebeldia do Podemos revela-se agora exausta, provavelmente esgotada. Madrid mostra que a versão Podemos light representada por Más Madrid pode ter espaço. 

A Covid-19 abriu a oportunidade para uma outra figura, que a soube usar com mestria: Isabel Diaz Ayuso que apareceu conquistadora, valente, à espanhola.  Não precisou de qualquer programa político detalhado, bastou-lhe focar-se no que foi potenciado como imediata aspiração máxima das muito ativas gerações mais jovens e do comércio: a liberdade, em oposição aos confinamentos. O candidato do PSOE, Gabilondo, sendo uma pessoa respeitável, passou a ideia de não ter percebido nada do que se passava em redor.

Será este modelo Ayuso exportável para toda a Espanha? É uma questão principal para os próximos tempos espanhóis. O socialista Sánchez já mostrou que tem agudo sentido de oportunidade, soube impor-se aos barões do PSOE e construiu a vitória a partir das periferias.

Fica para se ver quem é mais eficaz a captar a imaginação popular.

Joe Biden, nos EUA, supera as expectativas ao saber conjugar as aspirações dos jovens e famílias das cidades com as bases operárias que se tinham deixado levar pelas promessas de Trump, mas que entretanto voltaram  (parte delas) ao Partido Democrata.

Grande parte dos partidos de centro-esquerda na Europa continuam à procura de identidade após o abalo da crise financeira de 2009 que se tornou crítica crise económica e social. Conseguiram resposta económica, mas muitos falharam na resposta social – o caso português, com a dinâmica imposta pela geringonça, é alguma exceção a esta regra, apesar de muitas vozes que também se levantam a reivindicar muito mais.

Nos últimos meses vimos, sobretudo na Alemanha e em França, como partidos Verdes, politicamente recolocados ao centro souberam corresponder às aspirações de cidadãos, muitos com cultura política à esquerda.

Será que o centro-esquerda vai saber reencontrar-se com os eleitores? O futuro passa pela harmonização com os Verdes? A personalidade, homem ou mulher, que assume a liderança conta muito. Vê-se com o trabalhista Sadiq Khan em Londres e com Isabel Ayuso em Madrid.

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