Quantas mulheres tiveram relações sexuais por boa educação? Por elegância? Para não parecer mal?

Não se fala do sexo neste contexto. O da delicadeza.

Não se trata de uma violação, trata-se de acatar ou de atuar de acordo com as expectativas do Outro, para agradar, para não criar conflito.

A intimidade implica diálogo e, na adolescência, essa consciência é inexistente.

Eu não sabia que era possível dizer ‘não’ sempre que não me apetecia. Sem que tal recusa fosse sinónimo de falta de entusiasmo e de afeto. Descobri mais tarde, porventura, tarde de mais.

Ter a noção concreta do poder do desejo e do prazer, e da paridade possível entre parceiros, é crucial, mas não é evidente.

A falta de desejo pode implicar medo. Ficará a gostar menos de mim, se eu não quiser fazer amor? Como justifico o não querer? O não me apetecer? Estas são as perguntas que muitos adolescentes fazem. As respostas serão distintas, ou talvez haja quem não tenha respostas.

Existem cedências de vários níveis no discurso e na prática amorosa. No sexo não há exceções, as cedências também acontecem.

Há muito tempo, numa conversa de raparigas, constatei que a maioria das minhas amigas, não tendo vontade, já tinha cedido ao ato de fazer amor com o parceiro ou parceira. Não havia uma queixa implícita, apenas o facto de perceberem, todas aquelas mulheres, que, por vezes, o desejo não acompanhava o desejo dos que elas amavam.

A insegurança dentro de uma história de amor limita, prejudica, alimenta equívocos. Nesse sentido, o diálogo é, mais uma vez, a ponte possível para a construção de uma sexualidade saudável. Mas quem é que fala sobre a sua sexualidade com o parceiro? Muitas pessoas o fazem; outras tantas calam.

Volto então à adolescência, a esse tempo terrível em que vivemos em ruínas permanentes, a tombar e a fazer nascer ideias e sentimentos, com uma intensidade única. Na minha geração não se falava de sexo com o parceiro. Era apenas a conversa dos corpos que importava, a conquista do prazer, essa partilha absoluta que podia, se fosse o caso, levar a outras histórias, a relações consistentes no tempo. Mas estamos a falar da adolescência: a continuidade, seja do que for, é sempre relativa.

Com a idade percebi que era possível dizer ‘não’ sem deixar de ser amor. Assisto, com perplexidade, a algumas conversas de amigas que, tal como eu, tendo elas mais de 45 anos de idade, permanecem no silêncio quanto ao que lhes apetece. Não lhes ocorre que recusar é um direito. Pior ainda: não querem discutir o assunto, encolhem os ombros. E essa atitude, só por si, entristece.

Diz-se que o sexo é também uma relação de poder.

O melhor do sexo é descobrir que esse poder é partilhado.

(Texto escrito para o Dia Mundial da Saúde Sexual e publicado originalmente no site da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica. A efeméride assinala-se a 4 de setembro, mas a sua comemoração prolonga-se pelo resto do mês, e do ano. “Saúde sexual e direitos sexuais são fundamentais para o bem-estar” é o slogan que serve como ponto de partida para uma reflexão e discussão, que se pretende global (trans/nacional), e voluntária, abrangendo os mais diversos contextos: políticos, sociais, culturais, mediáticos, científicos, médicos, universitários, escolares e artísticos.)

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