No mesmo domingo em que foram bem recuperados os primeiros quatro pequenos sobreviventes – felizmente, já há mais resgatados -, um navio militar irlandês, com nome inspirador, Samuel Becket, destacado para missão no Mediterrâneo, desembarcou no porto italiano de Messina 106 migrantes africanos que tinha resgatado quando o barco deles mostrava não resistir mais a meio do mar. Os marinheiros da armada irlandesa salvaram-nos e levaram-nos a terra firme, em Itália. Ficou desencadeada a fúria do governo nacional-populista em Itália: os portos italianos estão fechados para migrantes transportados por navios das ONG, mas há um acordo europeu que obriga a dar assistência a quem chegar em navios de missões militares reconhecidas, como é o caso da operação Eunavformed que envolve o Becket. Reação brusca do impetuoso Salvini, no posto de ministro do Interior de Itália: “Vamos levar à reunião ministerial europeia desta semana em Innsbruck a imposição italiana de bloqueio dos portos europeus também aos navios militares das missões internacionais”.

O ministro italiano do Interior que também é líder do partido “Liga”, alinhado na extrema mais à direita do leque político, veio no mesmo dia a ser desautorizado pela colega da Defesa, que integra o movimento populista “5S”. Ela avisou que “a atracagem em Itália de um navio militar não é competência do ministro do Interior”. Deixou assim claro que não há consenso no governo italiano para bloquear o desembarque de resgatados por navios militares.

A agressividade anti-migrantes subiu exponencialmente nos últimos meses na Europa em que disparam os medos, sobretudo em volta da antecipação de “uma horda de bárbaros africanos e islâmicos que tentam invadir a nossa Europa”.

A realidade dos números mostra como a ameaça está a ser usada como pretexto: de facto, números da UNHCR, as chegadas de migrantes à Europa através do Mediterrâneo, no primeiro semestre de 2018, diminuíram mais de 50% relativamente ao mesmo período do ano passado e a redução é ainda maior (80%) se compararmos com 2016. 

Tem aumentado, sim, a perigosidade da travessia, ligada à falta de socorro. A UNHCR, que faz as contas de modo contínuo, revela uma hecatombe neste ano: só em junho, 10 embarcações naufragadas levaram 557 vidas. As contas da agência das Nações Unidas para os refugiados estimam que está a morrer no mar um de cada sete migrantes. No ano passado, a relação era de um náufrago perdido por cada 38 migrantes. O que mudou foi a baixa no socorro.

Sucedem-se o alertas para o declive europeu. Juan Luis Cebrián, fundador do diário espanhol El País, alerta para o abandono dos valores clássicos que impulsionaram a fundação do projeto europeu. O historiador contemporâneo Timothy Garton Ash pergunta nesta semana: “Com o populismo anti-liberal a avançar no coração da Europa estaremos a assistir à estranha morte da Europa liberal?” Garton Ash prevê combates duros.

Estamos num tempo estranho, em que meio mundo se comove com o heroico salvamento de 13 aventureiros, mas em que se deixa morrer no mar quem emigra a sonhar com vida melhor.

ÚLTIMA SEMANA DO MUNDIAL DE FUTEBOL

Duas seleções que nunca foram campeãs (Bélgica e Croácia) estão entre as quatro que podem chegar a número um no mundo para os próximos quatro anos. É um Mundial de mudança de geração.

Quem vai suceder a Ronaldo e Messi no pódio da Bola de Ouro para melhor futebolista? É facto que CR7 é tri-campeão na Champions, que foi celebrado com os três golos à Espanha na abertura deste Mundial, mas o júri deste ano, composto por 176 jornalistas especializados, não deixará de ser influenciado pelo que este Mundial traz de novo. Falta ver o que vai sair dos quatro últimos jogos e, sobretudo, quem vai conquistar a Taça. Antes do campeonato começar havia grande expectativa em torno do egípcio Salah, mas a lesão na final da Champions tirou-o da corrida. Os franceses Mbappé e Griezman, os belgas Hazard e De Bruyne, o inglês Hary Kane e o croata Luca Modric estão no topo dos pretendentes. O eleito vai certamente sair da seleção triunfadora. Mas este Mundial também está a lembrar que o futebol é um jogo de equipa.

A revelação dos guarda-redes: já se sabia que Courtois está destinado a figurar na lenda das balizas. O croata Subasic é um herói a parar penaltis. O inglês Pickford mostra que com 1,85m também se pode defender grandes penalidades.

Um triunfo da Rússia: não se viram hooligans neste Mundial.

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