Há que ter em conta um outro lado deste Donald. Há uns quatro anos, andava ele metido em premiadas séries de televisão (primeiro, ao longo de cinco anos, os 89 episódios de Community, depois a série Atlanta, que viria a receber o Globo de Ouro para melhor comédia e a dar-lhe o prémio de melhor ator), resolveu criar um alter ego que batizou como Childish Gambino. Passou a ser a identidade musical de Donald Glover.

Childish Gambino acaba de lançar o tal tema que, sem exagero, está a ser um furacão online. Chama-se "This is America" [Isto é a América] e tem desenvolvimento num videoclipe. Provavelmente já estão a vê-lo e ouvi-lo.

Vale analisarmos momento a momento esta que é uma das criações críticas mais incisivas que nos últimos tempos tivemos sobre a atual sociedade dos Estados Unidos da América. Gambino dança e canta de modo expressivo enquanto se sucedem cenas que não permitem ficar indiferente.

Gambino parte das origens, ele cuida o background. Agarra uma personagem do final do século XIX, no Mississippi, Jim Crown, promotor de leis de segregação racial. Foi este Jim Crown quem introduziu a separação de espaços conforme a cor: os negros passaram a ter limitações, por exemplo, em escolas, autocarros e repartições do Estado.

O videoclipe de Gambino começa com uma representação da figura grotesca de Jim Crown. Estamos metidos na atmosfera e, segundos depois, bruscamente, Gambino saca da traseira das calças uma pistola e dispara na nuca de um pachorrento homem negro que tocava guitarra e que é apanhado de costas. Mata e segue indiferente. Muda a música que fica dura, o gospel vem para o hip-hop contemporâneo e aí Gambino começa a atirar-nos: “This is America”. Avisa-nos que não tentemos escapar-nos e não vermos.

Logo a seguir aparece um coro de gospel que canta com entusiasmo. Gambino passa e executa todos com uma espingarda automática. Como nas matanças que se sucedem em escolas e igrejas dos EUA. O vídeo progride com raparigas que pedalam em bicicleta, dinheiro pelo ar, um automóvel a arder, um carro da polícia, gente que corre, miúdos com o telemóvel. Irrompe depois o trote de um cavalo branco no fundo da cena. É óbvia a alusão aos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.

Childish Gambino representa nos quatro minutos e quatro segundos, em que mata 11 pessoas, muito do que é recorrente no quotidiano dos Estados Unidos da América, em que armas, racismo e brutalidade da polícia sobre gente de cor é constante nas notícias. O massacre do coro gospel evoca obviamente a matança de nove pessoas no decurso de uma cerimónia religiosa em 2015, em Charleston, numa das mais antigas igrejas negras nos EUA. Os telemóveis nas mãos de miúdos remetem para as câmaras que têm fixado em imagens tantas cenas de violência na América.

Este videoclipe de Childish Gambino é realizado por Hiro Murai, que também dirige Atlanta, a premiada série de TV protagonizada por Gambino, na versão original como Donald Glover. O discurso de fundo nesta série Atlanta tem tudo a ver com o de "This is America", com múltiplas referências à cultura negra e à repressão que costuma cair-lhe em cima.

A inspiração é a mesma para o álbum do final de 2016, "Awaken My Love!", em que nos diz e canta o que está no título: é preciso que estejamos despertos. Na faixa seis deste álbum está Redbone, onde alerta “eles vão apanhar-te mesmo que estejas desperto”. Esta interpretação valeu-lhe um Grammy na categoria Rhythm and Blues.

Seja como Donald Glover seja como Childish Gambino, a personagem é brilhante. Para já, para além de ver e rever o videoclipe "This is America", e não perder de vista a série Atlanta, confronta-nos com uma realidade que é brutal mas à qual não se pode voltar as costas.

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