Quem começou a trabalhar nos jornais no final da década de oitenta do século passado, como foi o meu caso, sabe que uma pessoa se habituava a correr atrás da bola. É evidente que nesses tempos gloriosos, e que tantos de nós mitificámos (eu, mitifiquei em absoluto!), não existia esse grande milagre do facilitismo a que chamámos internet. Era mesmo preciso ir atrás da história, era mesmo preciso sair da nossa mesa para ir procurar a notícia, para entrevistar a personalidade a ou B. Não existiam telemóveis. Éramos felizes. Sim, é uma ironia, claro, os telemóveis e a bendita da internet possuem benefícios imensos e extraordinários. Não podemos ser tão cáusticos que desejemos a destruição da evolução tecnológica? Não podemos.

Correr atrás da bola é uma espécie de vício, uma pessoa treina-se para o fazer, às tantas é mesmo a única coisa na vida que nos importa, ir de objectivo em objectivo, cumprir, acertar, entregar a horas, fazer a coisa certa. E isto significa que o tal correr e a tal bola metafórica passam a fazer parte da nossa natureza, a nossa personalidade fica impregnada de tanta correria. E assim foi comigo.

Agora, no estado em que o mundo está, a velocidade é perturbadora. Estou em casa, tenho internet e tenho telemóvel. O que não tenho é razões válidas para ir à rua. Seria de esperar que vos dissesse que tenho tempo a mais.  Porque não perco horas no trânsito. Ou em reuniões intermináveis em que se mostram as fotografias dos filhos, dos cães, do lugar perfeito para ir de férias. Não almoço com ninguém. Não preciso de arranjar o cabelo para manter esse padrão de exigência que as mulheres, consciente ou inconscientemente (no meu caso será sempre tudo ao nível da inconsciência, por favor!), cumprem porque, afinal, as aparências são o que são e só temos uma oportunidade para causar uma primeira boa impressão. Também não preciso de ter sapatos que conjugam com a mala ou com o cinto, porque na verdade ando de peúgas, faço reuniões em zoom de peúgas e com calças de pijama. É sempre melhor do que estar em teletrabalho e ser apanhado na hora de expediente no spa ou na praia? Muito melhor, embora eu conheça quem tenha sido apanhado em flagrante.

As vantagens de estar em casa são muitas, é certo. Mas tenho que vos dizer: trabalha-se para caramba. Eu hoje fiz doze telefonemas, respondi a vinte e poucos emails, escrevi três textos, editei outros tantos e ainda tive tempo para cozinhar almoço, arrumar a loiça que estava na máquina, fazer a cama e limpar um canto que estava impraticável (é natural, é um canto muito escondido). Falta-me pensar no jantar e tirar a roupa do secador.

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