É verdade que o Partido Democrata reconquistou a Câmara dos Representantes, e isso introduz uma novidade legislativa gigantesca. Trump passa a precisar de negociar com a oposição todas as medidas que quiser impor. O cenário afigura-se castrante e contrastante relativamente ao que vinha a acontecer nos últimos quase dois anos. É por demais expectável que os Democratas accionem muitos travões no futuro, e que queiram ainda rever aqueles que até agora foram os dossiers mais controversos desta presidência.

Também é verdade que, ao perder o domínio sobre comissões parlamentares, Donald Trump arrisca-se a ser enfrentado nas grandes polémicas que o têm ensombrado. Por muito improvável que seja, ou por muito esfumado que esteja, o certo é que o fantasma da destituição ganha corpo. Não só as várias suspeitas sobre Trump podem ser escarafunchadas com mais pujança, agora a oposição tem os votos necessários para acender os rastilhos da exoneração. Duvido que tal processo destitutivo esteja para breve, mas lá que isto é um ceptro poderosíssimo para os democratas, é.

Então, se eu não sou um apreciador do senhor Trump, porque é que me está a falhar o optimismo? Porque o tweet do presidente a anunciar que os resultados das intercalares tinham sido um “tremendo sucesso” é dos menos iludidos que ele já escreveu. Perder a Câmara dos Representantes é uma chatice, mas se as intercalares servem para medir o pulso político aos E.U.A., então eu vou ter de concordar com o Donald do Twitter.

Primeiro, e mais óbvio, há que notar a vitória do Partido Republicano no Senado. Com esta vantagem na Câmara Alta, Trump vai continuar a nomear quem quiser para os cargos da administração. Não é, contudo, aqui que eu dou razão à satisfação do presidente na sua rede social de eleição. Apesar do forte equilíbrio bipartidário que estas intercalares preconizam, e apesar de algum enfraquecimento na margem de manobra de Donald Trump, a verdade é que o resultado presente não sopra para longe as nuvens do futuro. Olhando para o céu, a minha previsão meteorológica continua a ter 5 letras e 4 algarismos. Nas nuvens leio “Trump 2020”.

A adesão às urnas foi considerável e favoreceu ambos os partidos. Apesar disso, tenho a suspeita de que os detractores da actual presidência estavam mais motivados (e, consequentemente, mobilizados) do que os defensores -  é uma suspeita que carece de dados, por isso dou a mão à palmatória e espero que me corrijam. A minha cisma tem que ver com as características das eleições intercalares: estas são, à partida, as que menos estimulam aquele eleitorado que fez a reviravolta em 2016. As intercalares afiguram-se mais políticas, ou seja, espicaçam menos o lado pessoal, práctico e icónico que inflamou as presidenciais. Parte dos factores mobilizadores que surpreenderam e deram a reviravolta há 2 anos, aqui atenua-se. Então é crível pensar que o equilíbrio notado nestas intercalares pode voltar a vergar-se para o lado trumpiano em 2020.

Para além disso, no campeonato das pequenas batalhas dentro desta eleição, é provável que o Partido Republicano leve vantagem. O grande feito Democrata passa pela eleição inaudita de candidatos pertencentes a minorias, sejam elas étnicas, seja pela orientação sexual  - mas, até aqui, não se pode clamar tal feito como uma vitória em confronto directo com os Republicanos, caso contrário correr-se-ia o risco de instrumentalização das características dos candidatos, ou de amesquinhar a eleição até à fórmula “pretos vs brancos”, ou “gays vs héteros”.

Assim sendo, temos mesmo que admitir que as batalhas mais estimulantes foram provavelmente as vencidas pelo partido de Trump, e pelo próprio Trump. Por exemplo no Texas, Ted Cruz derrotou a rock-star democrata, a sensação de nome curioso: Beto O’Rourke. Noutra estirpe de confrontos, todos os Democratas dos chamados swing states (estados onde o equilíbrio bipartidário é grande) que se opuseram à nomeação do juiz Kavanaugh foram derrotados no Senado.

Na campanha, o presidente foi meticuloso e revelou contenção ajuizada (acreditem, estou mesmo a falar de Donald Trump) nas deslocações que escolheu fazer, e essa preservação fortaleceu-o, já que as visitas selectas transformaram-se em vitórias eleitorais para o seu partido. Mais: os candidatos Republicanos que não apoiam o presidente foram, de uma forma geral, trucidados nas urnas. Então, quando falo em pequenas batalhas estimulantes, a vitória de Trump não é exclusivamente contra o partido adversário; há justas internas de onde o presidente sai reforçado de forma inequívoca.

Do lado Democrata, Nancy Pelosi foi a voz e o rosto do suposto sucesso eleitoral. Pelosi tem também a voz e a cara de muitas vozes e de muitas caras que associamos àquele partido. Reside nela um lado de continuidade e de identidade, duma facção que não se renovou. Não acho errado mantermos aquilo que nos parece decoroso, mas o decoro está apequenado numa América que, desde 2016, se marimba para etiquetas. Continuidade, num mundo que tanto mudou, já parece displicência. Falta um campeão Democrata. Falta um São Jorge à altura do dragão alaranjado. Temo que “tremendo sucesso” seja o rascunho de 2018 para um tweet trumpiano de 2020.

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