Ao contrário do que seria saudável, o mundo está cada vez mais violento, o ódio está cada vez mais latente. Nas redes sociais, nos cafés, na televisão, nas ruas, infiltra-se o ressentimento, promove-se o individualismo, propaga-se a discriminação, o ódio vai sendo normalizado e, pior, legitimado pela escumalha vestida de fato e gravata e despida dos mais pequenos escrúpulos e resquícios de empatia.

Para o que aqui vos quero dizer hoje, pouco importa agora as causas disto, apontar razões, nomear culpados e cúmplices. E tampouco importa voltar a constatar a tão triste quanto óbvia consequência da violência desumana que o racismo, o fascismo, o sexismo, a homofobia ou a desigualdade económica, entre outras coisas, provocam.

Importa antes perceber que chegámos a um ponto em que somos todos chamados a intervir civicamente. Ficar calado deixou de ser razoável, ficar calado é ser cúmplice, é compactuar, é aceitar o ódio como a nova normalidade.

Não digo que se pegue em tochas e archotes, que enchamos os bolsos de pedras e a boca de insultos, mas há muito que podemos fazer, mesmo que pequenos pareçam tais gestos. Participar em manifestações. Intervir se na rua vemos alguém ser discriminado ou violentado. Usar as redes sociais para mais do que fotos das taças de açaí e levantar a voz contra as discriminações, mesmo que só tenhamos 10 seguidores. Conversar e tentar chamar à razão o nosso amigo que teve um comentário racista ou homofóbico, explicar-lhe que o “agora é tudo racismo” não colhe quando o racismo continua a matar como mata, que o “já nem se pode dizer que ser paneleiro não é natural” não é coartar a sua liberdade de expressão, mas sim combater uma raiz de ódio que tantas vidas destrói.

Podemos também não voltar a ver determinados canais de tv e não carregar em links de vários sites ou cronistas. Podemos dizer incessantemente, sem nos cansarmos e para toda a gente ouvir, que a defesa dos direitos humanos não é nenhum extremismo, é apenas o que está certo. E ao contrário do que me disseram há dias, não temos de escolher uma causa, não temos de acreditar optativamente no feminismo, ou nos direitos LGBTI+, ou no ambientalismo, como se fossem coisas isoladas ignorando a sua comunalidade. Direitos Humanos não são uma opinião, são um princípio. Não se trata de politiquices, como alguns querem dizer. Trata-se de política, sim, que a todos diz respeito, que de todos depende. E se é nisto que acreditamos, então não podemos continuar calados.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- Racismo no País dos Brancos Costumes: livro sobre a realidade racista em Portugal, de Joana Gorjão Henriques.

- Memórias da Plantação: sobre o mesmo tópico, um livro fundamente de Grada Kilomba.

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