1. Roraima é o estado mais a norte do Brasil. Tanto que a sua sinuosa parte de cima está entalada entre Venezuela, à esquerda, e Guiana, à direita. Terras que os indígenas sempre viveram como uma, até que os militares vieram demarcar a fronteira. Um Brasil muito remoto para a esmagadora maioria dos brasileiros, a milhares de quilómetros, e muitas horas de vários transportes, das metrópoles.

Pacaraima fica nessa sinuosa parte de cima de Roraima, do lado que faz fronteira com a Venezuela. Ganhou povoação nordestina na febre do garimpo. A migração está no seu DNA. Mas foi pela violência contra gente de fora que fez manchetes no passado fim de semana. Nesse lugar —  cujo nome a maioria dos brasileiros nem conheceria antes do colapso na Venezuela —, habitantes locais expulsaram, com paus, pedras e fogo mais de mil refugiados venezuelanos. O ataque foi organizado pelas redes sociais. Primeiro, a turba bloqueou a estrada de acesso a Pacaraima durante cinco horas, e depois incendiou acampamentos, barracos, pertences, até os refugiados fugirem num êxodo, uma coluna de retirantes, incluindo crianças, grávidas e recém-nascidos.

Este ataque em massa seria supostamente resposta ao que aconteceu com o comerciante local Raimundo Nonato de Oliveira, assaltado sexta-feira à noite, hospitalizado com uma lesão na cabeça. Familiares relataram à polícia que os suspeitos do assalto eram venezuelanos.

À hora a que escrevo, as notícias são de vazio nos postos locais de assistência e vacinação de refugiados. Desapareceram as filas de entrada, parou o fluxo na fronteira. Governada por um poder estadual anti-imigrantes, que quer a fronteira fechada, a turba de Pacaraima conseguiu que o medo funcionasse.

2. Escrevo a muitos milhares de quilómetros, num interior montanhoso do Brasil, longe de qualquer fronteira internacional. Muitos locais aqui nunca viram o mar, São Paulo ou Rio de Janeiro, quanto mais os confins da Amazónia. Mas, quando o capricho da Internet permite, vejo que as notícias de Pacaraima também já não abundam. Nas manchetes do Google — que nem consegue calcular a distância entre o ponto onde estou e Roraima —, a Venezuela é notícia sobretudo por causa das réplicas do sismo, e como elas foram sentidas no Brasil. E nas redes sociais tenho de procurar um bocado para achar posts relacionados com a recente violência de Pacaraima. O Brasil vota daqui a mês e meio, uma das eleições mais dramáticas de sempre, há pouco espaço para outros dramas. Ainda assim, por exemplo, na próxima segunda-feira o vão do Museu de Arte de São Paulo — um marco não só da arquitectura de São Paulo, como da democracia brasileira — acolhe uma manifestação solidária com os refugiados venezuelanos.

3. Há sete anos, Agosto como agora, eu estava o mais perto que já estive de Pacaraima, nesse Norte amazónico de fronteiras traçadas por militares, onde Exército e Igreja Católica são os grandes poderes. Com o avanço evangélico, não sei como serão as coisas agora, mas no Alto Rio Negro, onde me encontrava então, em São Gabriel da Cachoeira, município mais indígena do Brasil, o bispo local viera justamente da vizinha Roraima, onde passara dez anos, e lutara ao lado dos índios pela demarcação das terras indígenas Raposa Serra do Sol.

“Os fazendeiros tinham invadido essas terras e os políticos eram contra a demarcação”, contou-me ele. “A igreja sempre se colocou ao lado dos índios e sofreu perseguições, ameaças de morte.” Lembrava-se de todos os detalhes: “No dia 15 de Abril de 2005 o secretário de Lula telefonou dizendo: ‘Hoje o Presidente vai assinar a homologação da Raposa em área contínua.’ O que significava que todos os fazendeiros que tinham criação de gado e grandes plantações de arroz deviam retirar-se imediatamente. Eles faziam duas colheitas e meia por ano, tinham desmatado muito, até a mata ao longo dos rios. Usavam herbicidas e pesticidas agressivos à fauna. Um estrago muito grande. Então os indígenas festejaram como se fosse a libertação da opressão do Egipto, dizendo: ‘15 de Abril ficará para nós como a verdadeira Páscoa.’”

Sempre que penso em Roraima, penso na Raposa Serra do Sol, e na facilidade com que gente vinda de fora se transforma na única dona da terra. Como ex-migrantes podem construir muros, fechar fronteiras, expulsar gente a ferro e fogo. É uma velha história, desde Israel.

4. “Existem forças políticas tenebrosas que se empenham em passar por cima das dificuldades do povo e aproveitar a xenofobia, que a cada dia é mais forte, como elemento válido para as eleições”, diz agora o pároco de Pacaraima à Radio France International. Chama-se Jesús López de Bobadilla, é espanhol, tem 77 anos, mora há nove lá. “O Brasil está em uma situação política, económica e social muito delicada, às vésperas de eleições, e tudo é aproveitado.” Bobadilla tem dado pequeno-almoço a milhares de refugiados desde que a crise na fronteira começou, mas com o ataque do último fim de semana caiu para metade o número dos que estão a aparecer na paróquia.

A governadora do Estado, Suely Campos, candidata à reeleição, tem insistido com o governo federal para que feche a fronteira, argumentando que Roraima não tem recursos para tantos imigrantes. O governo federal insiste que não pode fechar a fronteira porque a lei brasileira determina o acolhimento de imigrantes, e o Brasil assinou a Convenção de Refugiados de 1951. Depois da violência de sábado, Brasília enviou para Pacaraima 20 pessoas de 11 ministérios (Defesa, Casa Civil, Gabinete de Segurança Institucional, Justiça, Segurança Pública, Desenvolvimento Social, Direitos Humanos, Relações Exteriores, Educação, Saúde e Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações). Mas não parece haver qualquer estratégia para lidar com os refugiados. E os números dessa vergonha são esmagadores.

5. Acima de dois milhões de venezuelanos deixaram o país. Um dos maiores êxodos do continente, senão o maior, num breve espaço de tempo. Quase um milhão está na Colômbia. Mais de meio milhão no Equador. No Perú, 380 mil. E o Brasil, o gigante da América do Sul, recebeu nem cem mil. Conforme escreveu recentemente um ex-refugiado a morar no Brasil, como é possível que a Colômbia, com menos do que um quarto da população e um terço do PIB, tenha doze vezes mais refugiados venezuelanos do que o Brasil?

Uma das principais portas de entrada é Pacaraima. Será certamente difícil a um município tão pequeno lidar com um fluxo de muitas centenas de refugiados por dia. Para isso existe um governo estadual, e um governo federal. Só o estado pode determinar o rumo das coisas, fomentar um populismo incendiário, ou contrariá-lo. E num país como o Brasil, que acolheu tantos milhões de imigrantes de tantas partes do mundo, só um rumo devia ser evidente: acolhimento, de facto.

6. Enquanto as notícias de Pacaraima desapareciam dos media, uma nova sondagem presidencial era divulgada. Nela, Lula está em primeiro, destacado, com 39 por cento das intenções de voto. Mas este é também o país em que a sucessora de Lula foi derrubada por um golpe institucional, Lula está preso num processo absurdo e o segundo nas intenções de voto, com 19 por cento, se chama Bolsonaro, um adepto da ditadura, da tortura, da esterilização dos pobres, que quer revogar a actual lei da imigração e sobre os refugiados já disse isto: “A escória do mundo.”

Também por isso, para que sejam menos possíveis as turbas como a de Pacaraima, esta eleição é tão decisiva.

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