Uma semana depois de umas eleições com resultados claros – sim, claros na sua própria incerteza quando não há uma maioria absoluta, mas isso não é de hoje – servem todos os argumentos para por em causa o que é historicamente um processo de indigitação de um primeiro-ministro.

Em primeiro lugar, o PS – ou alguns dos mais destacados e próximos de António Costa – suspirou por uma vitória sobre o PSD. Já não ambicionava uma vitória eleitoral sobre a coligação, nem sequer ‘poucochina’, bastava uma derrota ‘poucochinha’ para chegar ao poder. E havia até quem defendesse tal tese com uma leitura no mínimo enviesada da Constituição. Nem uma, nem outra, foi mesmo uma derrota estrondosa, reforçada pelo facto de a coligação ter perdido mais de 700 mil votos em relação a 2011.

Assim, o PS passou para a segunda melhor opção perante os resultados eleitorais. ‘Descobriram’ agora que o sistema português é representativo, que os portugueses votam na escolha de deputados e de um Parlamento de onde, posteriormente, sai o apoio para um governo. Na teoria é mesmo assim, mas não é na prática. Os portugueses escolhem um primeiro-ministro e não escolhem outro, daí a importância dos debates. E quem é que sabe qual é o número dois ou três na lista de um partido num determinado círculo eleitoral? Os portugueses escolheram Pedro Passos Coelho e não escolheram António Costa. Escolheram um programa político e não escolheram outro. Sobretudo, não escolheram, definitivamente, os programas políticos que defendem Portugal fora desta Europa.

Neste contexto, em terceiro lugar, surge a justificação de que a maioria dos portugueses não deu a vitória à coligação e, por isso, tudo é permitido. António Costa não se demitiu na noite eleitoral depois de uma derrota sem honra – depois de ‘correr’ com Seguro – nem glória e sabia o que estava a fazer. O que se seguiu, percebe-se agora, já estava no guião desde a noite da derrota eleitoral. O PCP e o BE abdicam de tudo o que disseram na campanha, dos seus princípios como a reestruturação da dívida, até das críticas duras ao próprio PS, e Costa tem um mandato do partido para negociar à direita e à esquerda. Além de seguir a mesma estratégia que lhe deu estes lindos resultados, a promiscuidade política vestida de Democracia, António Costa sobrevive. É isso apenas que está em causa.

Agora, em quarto lugar, há até quem defenda que Costa é na verdade um benemérito do governo de coligação, e da estabilidade política, porque o processo negocial com o BE e com o PCP é na verdade um engodo para aqueles partidos mostrarem a sua verdadeira natureza quando está em causa a possibilidade de chegarem a um governo. Está bem, acredite quem quiser.

O que está em causa é uma coligação negativa em que três partidos, cada um à sua maneira, abdicam do que defendem para formarem um governo. E um líder que parece não estar satisfeito com uma derrota, quer ir ainda mais longe. Quer descaracterizar um partido de poder, essencial ao país. Se não estivesse em causa o país, e as pessoas, e o que aconteceu nos últimos quatro anos depois de da bancarrota, até seria útil que se formasse um, este, governo frentista de esquerda. Para passarmos rapidamente a outra fase.

Já se percebeu o que está em causa, por isso, os próximos passos deveriam ser óbvios, desde logo para o Presidente da República. Ainda haverá reuniões entre a coligação e o PS, depois do encontro entre os socialistas e o BE. Tendo em conta os sinais, de loucura, servirá de pouco, ou servirá de muito, servirá para destapar a máscara e desfazer a farsa.

Assim, depois de convidar o líder da coligação a apresentar-lhe uma solução de estabilidade, Passos Coelho deve fazer isso mesmo. Mesmo sem um entendimento mínimo com António Costa, o exigível para que o país possa ter tão rapidamente quanto o possível um orçamento para 2016. Cavaco Silva deve, depois, dar posse a este governo e, no Parlamento, cada partido deve assumir as suas responsabilidades, especialmente o PS e António Costa. Dez dias depois da posse, Passos Coelho estará a apresentar um programa de Governo. Os deputados vão acabar por votá-lo e os portugueses vão tirar as suas conclusões. A Democracia é isto.

PS: Esta semana, o Estado português vai regressar aos mercados. Vamos ver se os investidores já perceberam a embrulhada em que António Costa está a por o país.

Notas soltas: Lembram-se dos ‘sawps’, aqueles instrumentos de cobertura de risco que não cobriram nada e, por isso, a dívida pública está a aumentar? Começa hoje o julgamento que opõe o Banco Santander a quatro empresas públicas – e a Maria Luís Albuquerque - e pode ler o que está em causa no Diário Económico de hoje e em www.economico.pt . E a coisa vai durar pelo menos durante as próximas seis semanas.

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Marcelo Rebelo de Sousa não falou de política, mas só fez política. Na última ‘aparição’ como comentador, para se despedir da TVI e os espectadores que o seguiam semana após semana, quinze anos depois, Marcelo deu espetáculo, num momento “pouco ortodoxo” (www.publico.pt ) ou “insane”, como escreveu José Alberto Carvalho na sua página pública de Facebook. E começou a campanha.

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