1. O que aconteceu ontem à noite no Rio de Janeiro — a destruição do Museu Nacional pelas chamas — não foi apenas uma perda esmagadora, ainda por avaliar em toda a extensão no momento em que escrevo. Foi uma tragédia política, civilizacional e paira como poderosa metáfora de vários abismos. O abismo de um país, o Brasil, cujo poder político abandona as instituições culturais e científicas, as despreza mesmo, deixando-as à ruína, à urina, ao lixo, aos urubus, apesar do esforço em contrário de tanta gente que nelas, e com elas, trabalha. Mas também o abismo entre presente e passado. Também o abismo entre presente e futuro. E ainda o abismo entre ex-colonizador e ex-colonizado. Todos ligados, porém não todos a mesma coisa.

2. Portugal colonizou o Brasil por 300 anos. Essa colonização deixou uma herança pesada que até hoje faz parte das vidas, dos corpos, dos lugares, como sabe qualquer pessoa que viva o Brasil por um tempo. Qualquer pessoa que ouça, por exemplo, a nova geração negra a emergir politicamente nestas eleições, como eu ouvi nas últimas semanas (reportagens dentro de dias no SAPO24): não há um, de entre eles e elas, que não mencione o passado colonial, base de um sistema escravocrata, com uma elite no topo, perita em manipular, destruir ou impedir narrativas que não lhe convenham.

Essa colonização não é só passado, é presente e futuro. É uma responsabilidade dos vivos, nossa, contínua, não se encerra. Pode traduzir-se de muitas formas, em palavra ou acção. Mas é difícil pensar num edifício tão simbólico quanto o Museu Nacional.

3. No final do século XVIII, um rico comerciante de origem libanesa, Elias Antônio Lopes, decidiu erguer a sua morada na Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, então arredores do Rio de Janeiro. Obra faustosa, cercada de terras que antes dele os jesuítas tinham posto a render à custa de escravos. Ficou pronta em 1803. Cinco anos depois, a corte portuguesa desembarcou no Rio, fugida das invasões napoleónicas. Provisoriamente instalado no centro, D. João VI buscou aposentos mais arejados, e Lopes acabou a ceder-lhe o palácio em troca de benesses. Foi assim que o edifício inteiramente queimado ontem à noite se tornou a sede da corte portuguesa, do seu império colonial e, em 1818, de um projecto de museu.

Duzentos anos de história que resultaram numa espécie de arca de Noé da vida nesta galáxia, de meteoritos a antigos esqueletos humanos, de borboletas a frescos de Pompeia. Um grande museu de história natural, um grande arquivo de cultura, e um bastião da antropologia brasileira, ligado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Marcou gerações na América Latina, e fora dela, incluindo muitos portugueses.

Para mim, quando pela primeira vez escrevi sobre o Museu Nacional em 2014, era o lugar lendário onde tinha trabalhado por exemplo o antropólogo Gilberto Velho, e ainda trabalhava o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, alguém que li a atravessar a Amazônia, e com ela, rio acima, rio abaixo, mudou a minha visão do mundo.

Tão forte era o poder do Museu Nacional como eixo mental, eixo entre Portugal e Brasil, eixo entre passado e futuro, que ele se tornou parte do romance que eu estava a escrever, inteiramente situado no Rio de Janeiro. O personagem português Tristão está perdido numa tese que foi tentar fazer com o Museu Nacional/UFRJ, centrada num povo indígena. De certa forma, ontem à noite essa tese imaginária, mas real como tantas, acabou de arder. O mínimo que cada um de nós pode fazer, cada um dos que estiveram no Museu Nacional, e por ele foram interpelados, é juntar memórias, fragmentos, imagens, tudo o que possa ser reconstituição, tudo o que possa tirar-nos do buraco negro (como hoje também me dizia numa mensagem a poeta angolana, e professora, Ana Paula Tavares: ir criando um arquivo contra as cinzas).

E que cinzas, hora a hora vemos. Acabo de escrever isto e leio, num mural de Facebook de uma professora da UFRJ, Cinda Gonda:

“Perdemos todo o acervo de Línguas Indígenas: as gravações desde 1958, os cantos em muitas línguas sem falantes vivos, o arquivo Curt Nimuendaju: papéis, fotos, negativos, o mapa étnico-histórico-linguístico original com a localização de todas as etnias do Brasil, único registro que tínhamos datado de 1945. As referências etnológicas e arqueológicas das etnias do Brasil desde o Sec. XVI...”

4. Escrevo entre viagens, acabada de chegar do Rio de Janeiro. Vejo que o ministro português da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, está no Rio e reagiu ao incêndio com grande consternação, considerando-o “uma perda irreparável”, não apenas local (“Era um acervo importantíssimo da história natural do país, da sociedade brasileira e também da história política, sendo este o palácio onde o rei de Portugal se veio instalar quando levou a corte para o Brasil. É um monumento muito importante para a história dos dois países.”).

Além de poeta, diplomata, Castro Mendes esteve em tempos colocado no Rio de Janeiro como Conselheiro Cultural. Terá boa noção, creio, do que desapareceu ontem à noite, e do que isso significa para a cultura do Brasil, de Portugal e do mundo.

Vejo também que o governo português diz estar “inteiramente disponível para, no que for útil e possível, colaborar na procura da reconstituição deste importante património identitário, não apenas do Brasil, mas de toda a América Latina e do mundo, em prol das gerações presentes e futuras”. Mais acrescenta: “Somos dramaticamente recordados de que também nas tragédias se reflectem os vínculos seculares entre os nossos dois países.”

Registo estas palavras porque é importante tirar delas consequências, actos sem qualquer nostalgia imperial. Este seria — é — um momento de ajudar, fazer, dar de um modo cem por cento descolonizante. De olharmos para a nossa história junta, fazermos jus aos mortos, e ao trabalho incansável dos vivos nesse lugar da memória que é/era o Museu Nacional.

5. Sim, a perda de ontem à noite é irreparável. Mas pode ser maior se não houver meios para resgatar, reconstituir o que não ardeu totalmente. Pode ser maior se continuar o descaso, a ignorância, o cinismo dos líderes políticos, num momento em que tantos brasileiros admitem votar num fascista como Bolsonaro, que entre outras barbaridades quer acabar com o Ministério da Cultura. Um momento em que o prefeito do Rio de Janeiro, Crivella, é um bispo de uma igreja do dízimo com um projecto de poder que passa pela destruição de largas áreas da ciência e da cultura.

A perda de ontem pode facilmente alastrar à Biblioteca Nacional, ao Museu de Belas Artes, a tantas bibliotecas, museus e acervos pelo Brasil. O centro histórico do Rio de Janeiro está cheio de relíquias a cair aos pedaços. A Bahia está cheia de relíquias a cair aos pedaços. São Luís do Maranhão, ainda mais. Em Belém, em Manaus, nas cidades mais antigas do Brasil, o mesmo cenário. E tanto resiste apesar de tudo. País fora, professores, estudantes, funcionários, artistas lutam contra o descaso das autoridades para chegarem vivos ao trabalho, para se manterem vivos no trabalho, muitas vezes pagando do seu bolso, ou do seu tempo, para que o prédio não caia, não inunde, não pegue fogo. Para que amanhã abra.

O Museu Nacional passou de 531 milhares de orçamento em 2013 para 54 milhares em 2018: um décimo. O governo Temer congelou os gastos com saúde e educação por 20 anos. A paixão, a invenção, o talento do Brasil são infindáveis. Aqueles que sugam tudo isso também parecem não ter fim. Mas o que não tem fim, nem nunca terá, é a luta.

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