Anunciam-se tempos de grande conflitualidade política nos Estados Unidos. Trump, que até aqui privilegiava o ataque aos jornalistas, agora, vai voltar os disparos orais contra os deputados. Vai descarregar sobre a nova maioria democrata na Câmara dos Representantes a culpa pela desaceleração que se anuncia do boom económico.

Os anteriores presidentes Clinton, Bush e Obama também foram confrontados com este quadro político de governação com parlamento adverso. Todos conseguiram, com esforço de parte a parte, compromisso para evitar impasses. Vai ser mais difícil com os EUA de agora, tão polarizados em duas Américas que se detestam.

Os democratas, com o controlo da Câmara, tornam-se uma força de bloqueio. É-lhes mais difícil tornarem-se uma força de iniciativa legislativa, porque o Senado e o Supremo Tribunal têm forte maioria alinhada com o Presidente.

O partido dos Clinton e dos Obama segue dividido e sem agenda clara. Para estas eleições de meio de mandato foi conseguido um tema comum, que funcionou: não basta que a economia puxe o país, é preciso garantir que todas as pessoas têm acesso ao sistema de saúde e de assistência social. É um discurso que vai certamente ser aprofundado. Mas com intensidade variável, conforme as sensibilidades.

Os democratas estão fragmentados entre a velha guarda encabeçada por Joe Biden e Nancy Pelosi e uma ala assumidamente socialista que emergiu nos últimos meses, com grande ativismo de mulheres e jovens em resposta à revolução populista e à transformação do modo de fazer política.

Já nas próximas semanas vão levantar-se os aspirantes para liderarem os democratas no confronto com Trump nas eleições de 2020. Os democratas mostraram nestas eleições midterm agora concluídas, algumas novas figuras, com indiscutível carisma: o principal cometa terá sido Andrew Gillum, candidato a governador da Florida – ele é a esquerda da esquerda dos democratas. Também Beto O´Rourke no Texas e Stacey Abrams na Georgia. Todos melhoraram muito mas todos perderam, embora por escassa margem, frente aos candidatos republicanos.

O nome mais sonante da ala socialista dos democratas que se propõe aprofundar as propostas de Bernie Sanders e que consegue a eleição é Alexandria Ocasio-Cortez, deputada por Nova Iorque. Aos 29 anos, é a mulher mais jovem de sempre a chegar ao Congresso dos EUA. Promete levar para Washington a mudança ideológica, geracional e racial.

A diversidade entra na nova Câmara dos Representantes:  uma uma ex-refugiada com origem na Somália, Ilhan Omar, vai representar o Minnesota; uma muçulmana, Rashida Tlaib, com origem palestiniana, está eleita pelo Michigan. Todas pelos democratas.

O partido Democrata consolidou o seu domínio em dois dos principais estados costeiros, a Califórnia e Nova Iorque. Conseguiu crescer em bastiões republicanos, como o Texas. As novas gerações estão a aproximar a Florida dos democratas, mas este estado do sul continuou republicano. O partido de Trump confirma o domínio de sempre sobre a América interior, predominantemente rural e a hegemonia dos últimos anos nos estados industriais do nordeste.

Os democratas vão continuar à procura de uma liderança unificadora que possa aparecer galvanizadora. Trump tem os republicanos na mão e já está em campanha para a reeleição. As midterm confirmaram que ele é poderoso em campanha: nas últimas semanas meteu-se no Air Force One a atravessar os EUA com dezenas de escalas em aeroportos em cujas placas ou hangares fez comícios relâmpago. Argumentava que ao votarem no candidato local estavam a votar nele, Trump. Provavelmente, assim, travou a onda democrata que se levantava.

Há neste momento duas Américas: uma de enorme maioria branca que vota em Trump; outra, marcada pela diversidade, que anda pelos democratas mas ainda sem liderança definida.

A nova maioria democrata na Câmara dos Representantes vai colocar-se como muro de bloqueio a ambições legislativas de Trump. O Presidente pode colher vantagens eleitorais dessa provável obstrução. Mas os democratas vão passar a liderar as comissões do parlamento, designadamente a Judiciária, de Inteligência e Segurança Interna e a de Negócios Estrangeiros, entre várias outras. Trump emergiu nestes últimos dois anos como líder do movimento internacional populista e xenófobo. Vai agora enfrentar fortes choques políticos, mas o seu poder segue forte. Vai provavelmente tuitar ainda mais, com alvos mais diversificados e com o mesmo estilo de ajustar o relato dos factos ao que lhe interessa.

Trump perdeu a Câmara dos Representantes mas sai praticamente ileso desta prova eleitoral. Os democratas ganham energia mas ainda lhes falta encontrarem liderança que represente uma agenda comum entusiasmante.

A paisagem política dos Estados Unidos da América deve ser marcada, nos próximos dois anos, pela tensão de muitas crises.

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