Este texto será ensimesmado. Desculpe por isso, logo de início. É uma mensagem para dentro, para mim próprio e é sobre todas as pessoas que fazem parte da Amnistia Internacional e todas as que se possam juntar a ela, com o seu muito ou pouco, que fará a diferença. À Amnistia ou a outras organizações da sociedade civil, o importante é agir. Nunca como hoje foi tão importante agir. E nunca como hoje foi tão fácil fazê-lo.

Em 1961 o advogado inglês Peter Benenson escreveu um artigo no jornal “The Observer” em que refletia sobre os prisioneiros de consciência e a gravidade de serem esquecidos porque, longe da sociedade, escondidos à força e em silêncio, eram mantidos atrás das grades de uma prisão.

A Amnistia Internacional nascia aí com o desígnio de não deixar que essas pessoas e as suas causas fossem esquecidas. Foram presas precisamente para isso: para as silenciarem e para que o mundo se esquecesse delas e do incómodo que causavam por denunciarem violações de direitos humanos e proclamarem que um outro mundo seria possível.

Não raras vezes, quando me encontro com ex-prisioneiros ou prisioneiras de consciência, me dizem da importância, enquanto estão sozinhas no cárcere, de receberem cartas, postais, desenhos - ou na impossibilidade de as receberem diretamente - de saberem notícias sobre o mundo lá fora a mobilizar-se por elas.

Do mesmo modo, já vi o enorme incómodo no rosto de embaixadores e governantes quando, como mensageiro de tantos milhares de pessoas, lhes entrego caixas e caixas cheias de cartas com petições a pedirem liberdade para alguém desse país, preso pelo ato de pensar e de ter consciência.

Recordo os meus tempos de professor em que uma aluna, do alto dos seus onze anos e sexto ano de escolaridade, me diz feliz que tinha feito uma coisa muito importante para o mundo naquele dia, que foi assinar as petições da maratona de cartas da Amnistia Internacional. Mais tarde, já como um dos responsáveis da organização em Portugal, comovo-me sempre com as cartas que também recebemos, sejam de crianças, sejam de idosos a agradecerem à Amnistia o facto de poderem fazer muito pelos outros, quando não sabiam como.

A maratona de cartas surgiu numa secção nacional da Amnistia Internacional. Tratou-se de um evento em que numa noite inteira o maior número de pessoas acorreu a um local designado para assinarem petições que ajudassem a libertar pessoas em risco por serem prisioneiros de consciência.

O sucesso foi tão grande que desde aí todos os anos todas as secções nacionais da Amnistia Internacional em todo o mundo se organizam, já não apenas numa noite, mas nos últimos meses do ano, para escreverem cartas e assinarem petições por casos semelhantes, em eventos de rua, nas escolas, nos cafés, em casas de cultura, e até online.

A referência literária é amplamente conhecida e longínqua no tempo: a caneta tem-se revelado mais forte que a espada. Escrever cartas, assinar petições, resulta! As histórias de sucesso são inúmeras. E este ativismo está ao alcance de todos nós. Assinar petições, partilhar mensagens nas redes sociais, escrever e-mails às autoridades. O nome de cada um de nós, com o nome de tantos outros milhões de pessoas, pode e faz a diferença sempre que algo é errado ou injusto. A resistência é um dever humano.

No mundo de hoje, em constante mudança e de ameaças graves aos direitos humanos, é cada vez mais urgente não ficarmos de fora e protegermos quem protege direitos humanos. Por isso escolhemos este ano em Portugal destacar cinco casos de cinco mulheres, pessoas de coragem que lutaram e lutam por justiça nas suas comunidades. Mulheres que estão em risco e ofereceram a vida por nós, nos locais onde vivem e trabalham.

Por elas, devemos tornar-nos nós próprios defensores de direitos humanos. 70 anos depois da assinatura da declaração universal dos direitos humanos, nada está garantido.

Como nos canta Pedro Abrunhosa na sua recente chamada de ação para todas as pessoas, sejamos do lado dos puros, com Amor em tempo de muros, para Amor sem tempo e sem muros.

Nunca se subestime. Nunca nos subestimemos. O seu nome e as suas palavras têm força. Escreva-as!

Para conhecer as cinco mulheres defensoras de direitos humanos e participar na maratona de cartas de 2018 aceda aqui: www.amnistia.pt/euassino

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