Em véspera de negociações “a sério” entre a Ucrânia e a Rússia, uma cidade sitiada demonstra os horrores da guerra. O resumo do 14ª dia de confrontos

  • Num dia para o qual a Rússia anunciara um novo cessar-fogo, a Ucrânia denunciou ataques russos contra um hospital pediátrico em Mariupol. A revelação à comunidade internacional partiu do próprio Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. "Ataque direto das tropas russas a maternidade. Há pessoas, crianças, debaixo dos escombros. A atrocidade! Quanto tempo mais o mundo será cúmplice ignorando este terror? Fechem o espaço aéreo já", escreveu no Twitter.
  • Apesar da violência do bombardeamento, este não terá provocado vítimas mortais de que se saiba até ao momento — apenas 17 adultos terão ficado feridos, não se registando crianças entre as casualidades de guerra.
  • O ataque provocou o repúdio da comunidade internacional, de António Guterres a Boris Johnson, passando pela Unicef e a OMS. O secretário-geral da ONU, em particular, disse que “os civis estão a pagar o preço mais alto por uma guerra que não tem nada a ver com eles. Esta violência sem sentido deve parar. Acabem com derramamento de sangue agora”.
  • A Rússia, ao contrário do que têm vindo a ser o seu modus operandi, não negou este ataque, mas a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, disse este foi provocado porque "batalhões nacionalistas" ucranianos tinham evacuado o hospital de funcionários e pacientes, estabelecendo no local posições de tiro.
  • Se este caso em concreto não causou vítimas mortais, foi por mero acaso. Segundo a câmara municipal de Mariupol, são já 1207 os mortos causados pelo cerco russo a esta cidade portuária, estratégica por se situar junto ao mar de Azov. “Nove dias de genocídio da população civil", acusou o município. “Nunca perdoaremos. Nunca esqueceremos. O povo de Mariupol resiste", avisou.
  • Estes números, todavia, são bastantes mais elevados que os reportados oficialmente. Até ao dia de hoje, pelas contas da ONU, a guerra na Ucrânia provocou a morte de pelo menos 516 civis, incluindo 41 crianças, mas "os números reais são consideravelmente mais elevados", anunciou hoje a ONU. Além dos mortos, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) registou 908 feridos, dos quais 76 são crianças.
  • Sitiada há nove dias, Mariupol tem víveres para três dias até que os seus habitantes comecem a passar fome, disse hoje um deputado ucraniano. Dmitro Gurin, um parlamentar cujos pais continuam em Mariupol, descreveu em declarações à estação pública britânica BBC uma situação humanitária muito precária na cidade que as forças russas querem controlar para fechar o acesso marítimo da Ucrânia ao exterior.
  • A violência deste 14º de guerra contrasta com as declarações feitas pelos canais oficiais de Moscovo, já que a Rússia admitiu "alguns progressos" nas negociações com a Ucrânia, alegando não pretender ocupar o país vizinho ou derrubar o Governo de Kiev. "Em paralelo com a 'operação militar especial' [designação usada pelas autoridades russas para qualificar a invasão da Ucrânia], estão também em curso negociações com o lado ucraniano para pôr fim ao derramamento de sangue sem sentido e à resistência das forças armadas ucranianas o mais depressa possível", disse Maria Zakharova.
  • Este sinal de aparente abertura surge na véspera do encontro entre os ministros dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Dmytro Kuleba, e da Rússia, Serguei Lavrov, em Antalya, na Turquia. A propósito deste encontro, o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, expressou o desejo de que a reunião entre a Rússia e a Ucrânia na Turquia, permita alcançar um cessar-fogo, aproveitando ainda para criticar "a caça às bruxas" contra todos os russos na Europa.
  • A questão é que, não obstante o calibre destas negociações — até então, foram apenas tidas reuniões entre embaixadores diplomáticos e não com elementos ministeriais —, um dos obstáculos nas negociações pode ser a ajuda militar a Kiev, bem como as sanções contra Moscovo por parte dos países ocidentais, que o Kremlin denuncia como agressões. A Presidência russa acusou os Estados Unidos de terem declarado uma "guerra económica" contra Moscovo, após Washington ter anunciado um embargo às importações de petróleo e gás da Rússia.
  • Outra matéria de discórdia nas próximas negociações será também o esclarecimento sobre as responsabilidades no impedimento à criação de corredores de ajuda humanitária no teatro de guerra, bem como o uso de soldados não profissionais nos campos de batalha. Hoje, o Presidente russo, Vladimir Putin, culpou os "nacionalistas" ucranianos por dificultarem a retirada de civis de cidades ucranianas sitiadas, negando as denúncias de Kiev de estar a bombardear os espaços de evacuação de várias cidades ucranianas.
  • A estas acusações, o Ocidente responde com outras. Não só há funcionários de segurança ocidentais que já temem a potencial utilização de armas químicas pela Rússia em Kiev, como o Ministério da Defesa britânico revelou saber que Moscovo empregou armas termobáricas no conflito. Consideradas formas de armamento particularmente letais, não são proibidas pela lei internacional. No entanto, têm regras estritas de utilização, não podendo ser empregues contra população civil ou em situações onde o uso de força contra alvos militares seja considerado desproporcional. De acordo com o Governo britânico, há provas de que a Rússia já usou estas armas em situações que colocaram em risco de vida populações civis na Ucrânia.
  • Na sequência do bombardeamento de Mariupol, Zelensky, uma vez mais, pressionou os parceiros ocidentais a criar uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia — algo que têm sido repetidamente rejeitado pelos seus aliados por temores de escalar ainda mais as tensões com a Rússia.
  • Foi também por essa razão que os EUA fizeram hoje saber que não vão permitir o envio dos aviões MiG-29, proposto pela Polónia para ajudar a Ucrânia a combater a invasão russa. O plano polaco era passar estes aviões para uma base aérea dos Estados Unidos na Alemanha, abrindo caminho ao uso dos aparelhos pelas forças militares ucranianas, conforme solicitado pelo Governo de Kiev. "Decidam o mais rápido possível, enviem-nos os aviões", pediu Zelensky, numa mensagem difundida na rede social Telegram.
  • No entanto, o porta-voz do Pentágono, John Kirby, em conferência de imprensa, disse que "os serviços de inteligência acreditam que a transferência [das aeronaves MiG-29] para a Ucrânia pode ser percebida como uma vantagem [para o conflito] e pode levar a uma reação russa significativa, que aumentaria a perspetiva de uma escalada militar com a NATO”, sublinhou. Já temendo a possibilidade de uma escalada, os EUA colocaram baterias antiaéreas na Polónia para rechaçar eventuais mísseis russos, enviados por engano ou não.
  • Entretanto, o fornecimento de energia elétrica para a central nuclear de Chernobyl e para os respetivos equipamentos de segurança foi "completamente" cortado devido às ações militares russas, anunciou o distribuidor de energia ucraniano, a Ukrenergo. A central de Chernobyl, que foi cenário do maior acidente nuclear da história, em 1986, "foi completamente desligada da rede elétrica devido às ações militares do ocupante russo. O local não tem mais fornecimento de energia", escreveu a empresa ucraniana na rede social Facebook.
  • Pelo lado das sanções económicas, a União Europeia (UE) concordou em reforçar as sanções decretadas no âmbito da invasão da Ucrânia pela Rússia, visando nomeadamente oligarcas russos e três bancos da Bielorrússia, o que será formalizado rapidamente por procedimento escrito.
  • Também a China — tida como, além da Bielorrússia, o principal aliado da Rússia — vai enviar ajuda humanitária para a Ucrânia, incluindo alimentos e bens de primeira necessidade, no valor de cinco milhões de yuans (721.000 euros), enquanto se continua a opor às sanções impostas à Rússia.
  • De resto, mais de 140.000 pessoas fugiram da Ucrânia em 24 horas, elevando o número de refugiados para mais de 2,1 milhões desde 24 de fevereiro, quando a Rússia invadiu o país, anunciou hoje a ONU. Com a chegada de mais 143.959 pessoas aos países vizinhos da Ucrânia, o total passou para 2.155.271 refugiados, segundo os dados referentes a terça-feira.

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