A constatação é de um estudo a 196 países que analisou as dinâmicas da atenção mediática sobre os eventos que ocorrem diariamente. As notícias em Portugal demonstram que o país se encaixa na média desse interesse, segundo a análise "Spatiotemporal Dynamics of Media Attention in 196 Countries", de Jisun An e Haewoon Kwak, da universidade Hamad Bin Khalifa no Qatar, que será apresentada entre 15 e 18 de maio na International AAAI Conference on Web and Social Media (Montreal, no Canadá).

O estudo demonstra que, entre 7 de março e 9 de outubro de 2016, "o padrão de capacidade de atenção" dos media em Portugal, comparado com o dos outros países em análise, "não é diferente", explicou-nos Jisun An por e-mail. Se a "taxonomia dos valores noticiosos" evoluiu para gostos populares, comerciais e de audiências, passou igualmente para outros valores "afetados pelas mudanças económicas, culturais e políticas na sociedade", escrevem os dois investigadores do Computing Research Institute daquela universidade.

Os autores do estudo analisaram as notícias para entender as dinâmicas da atenção nos media, mostrando como esta análise é importante, porque mesmo os políticos podem ser influenciados por elas quando definem prioridades nas suas decisões. Apesar das interpretações num dado momento, a classificação das notícias é igualmente dinâmica, seja pela perda do valor noticioso ao longo do tempo ou por serem estimuladas pela atenção aos media concorrentes. Isto gera duas tendências: o modelo de "alarme" (em que as notícias passam rapidamente sem qualquer cobertura aprofundada) e um outro de "patrulha", em que os "media mantêm alguns assuntos sob constante vigilância e produzem notícias sobre eles".

Numa análise de distribuição cumulativa (CDF, de "cumulative distribution function"), regista-se como "entre todos os tópicos para Portugal, cerca de 62% têm um período de atenção de um dia, enquanto globalmente" isso ocorre para 69% dos tópicos. No nosso país, "38% dos tópicos recebem uma atenção de pelo menos dois dias", refere Jisun An, pelo que, "comparando com os tópicos globais, Portugal tem uma atenção ligeiramente mais longa para os tópicos".

Os investigadores focaram-se nos tópicos e não nas notícias. Por exemplo, Barack Obama é um tipo de "pessoa" e Coreia do Sul é um tipo de "país". Embora um tópico possa ter muitos "tipos", eles separaram estes em tipos de tópicos como "país, pessoa, país estrangeiro, cidade nacional, clube desportivo, cidade estrangeira, coisa, local, empresa, organização e evento".

Jisun An detalha que o método de análise passou por "agregarmos o top 10 (ou 90) de tópicos classificados pelo número de artigos publicados (por exemplo, se um artigo menciona um tópico 'FB Barcelona', em seguida, o seu tipo de tópico é 'equipas desportivas') ao longo dos 212 dias. Em seguida, obtemos a proporção de cada tipo de tópico fora de todos os tipos de tópicos".

O que cativa a atenção dos jornalistas?

O quadro de valores noticiosos seguidos pela comunicação social - a razão pela qual se escolhe uma notícia - passa pela "elite do poder, celebridades, entretenimento, surpresa, más notícias, boas notícias, magnitude, relevância, acompanhamento e agenda dos jornais". Mas há dinâmicas que baralham este quadro, tanto mais que estudos anteriores eram "limitados pelo esforço de codificação manual; assim, eram feitos com alguns exemplos de casos ou com um punhado de tópicos", explicam os investigadores.

Neste caso, interessou-lhes o modelo quantitativo, analisando dados para países da Argélia ao Zimbabwe a partir das manchetes para responder a três questões:

1) o que consegue a atenção dos media e há uma tendência global?

2) qual é o período da atenção empírica dos tópicos de notícias em todos os países e o que atrai a atenção dos media ao longo do tempo?

3) os tópicos noticiosos têm diferentes padrões de evolução temporal e, em caso afirmativo, pode a atenção dos media ser caracterizada por esses padrões?

Eles usaram o Unfiltered News, uma ferramenta da Jigsaw (propriedade da Google), para os tópicos mais e menos vistos nas notícias em vários países e em várias línguas. A recolha ocorreu com os 100 tópicos mais vistos, embora nalguns países não conseguissem chegar a essa centena no período em análise. Jisun An nota que nos 212 dias do estudo, para Portugal "houve 230 tópicos únicos quando se analisam os 10 principais tópicos do dia - assim, Portugal ficou na 73ª posição relativamente ao número de tópicos".

O estudo analisou inicialmente "a proporção dos artigos de notícias em cada tipo de tópico por país" e depois as suas médias nos diferentes países. "O perfil médio dos tipos de tópicos é bastante estável em quatro dos cinco meses, exceto em junho, quando ocorreu o referendo do Brexit" no Reino Unido, explicam.

Com essa exceção, "os 10 principais tipos de tópicos são consistentes", incluindo para Portugal. Por outras palavras, "a menos que algum evento global cause uma tempestade nos media (um súbito aumento da atenção dos media), a ordem média do que consegue a sua atenção é relativamente estável".

Segmentando os tópicos, os investigadores determinaram que o "país" (as notícias nacionais) lideraram no período em análise, atingindo os 74%. Depois, surgem as pessoas em segundo ou terceiro no tipo de tópicos, o que é "razoável" dado que as elites ou as celebridades se encaixam na seleção das notícias, e é algo que também determina o interesse nas notícias de desporto.

Mas como evolui este interesse noticioso ao longo do tempo? "Em cada país, é surpreendentemente baixo", dizem, e vai de um a cerca de dois dias. Ou seja, "ao que os media prestam atenção muda rapidamente", talvez com a exceção do desporto e do terrorismo (caso da Síria, no período em análise).

O trabalho mostra que "os meios noticiosos prestam atenção aos tópicos de forma diferente, mas têm alguns padrões subjacentes. A maioria dos tópicos tem picos acentuados e padrões de atenção de queda rápidos, reafirmando que os media têm um curto período de atenção".

Apesar da análise global, o estudo mostra que "países localizados próximos uns dos outros provavelmente terão uma distribuição similar de tipos de tópicos nos seus perfis". E se estiverem em diferentes continentes?

Como as notícias em Portugal podem ser semelhantes às do Paraguai

Questionada sobre a proximidade estatística de tópicos entre Portugal e Espanha - o que pode parecer normal, sendo países vizinhos - mas também com a Holanda e o Paraguai, An explicou- nos mais em detalhe como um "tópico" é diferente de um "tipo de tópico".

Assim, o clube de futebol "FB Barcelona é um tópico e as equipas desportivas são um tipo de tópico"), pelo que "mesmo para dois países em diferentes continentes, se ambos são apaixonados por desportos (por exemplo, futebol), então a distribuição de tipos de tópicos pode ser semelhante (por exemplo, uma alta proporção de artigos de notícias sobre equipas desportivas e similares para outros tipos de tópicos). Isto resulta em Portugal e o Paraguai [estarem] posicionados próximos um do outro", refere.

Questionada sobre se a média de 6,8% de todos os artigos publicados nos diversos países sobre equipas de desporto ser igualmente válida para Portugal, considera que "a proporção de notícias de 'equipas desportivas' em Portugal (e Itália como referência) é de 0,39 (0,45 para a Itália) quando se utilizam os 10 melhores tópicos. Mesmo quando se utilizam os 90 melhores tópicos, as proporções são ainda elevadas - 0,26 para Portugal (0,32 para a Itália)".

Em paralelo, nota, "o Unfiltered News usa o Google News" pelo que "os nossos resultados dependem do que o Google News indexa de artigos de notícias de Portugal e de Itália. Não sabemos quantos meios de comunicação publicam notícias sobre desporto em Portugal mas, pelo menos a partir dos índices do Google News, uma grande parte das notícias é sobre equipas desportivas em Portugal (e Itália)".

A investigadora salienta ainda que "a linguagem, a cultura, as migrações, as situações económicas e políticas também podem explicar a relação entre dois países". Mas "não examinámos a distância entre países", conclui.

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