Por muito boas que sejam as traduções, ver filmes dobrados pode ser uma experiência desconfortável (especialmente à medida que ficamos mais adultos) dado que os movimentos da boca das personagens raramente coincidem com o áudio. Em Portugal, temos a sorte de uma vasta oferta de conteúdos internacionais, na qual a maior parte tem legendas. No entanto, apesar de ser um ótimo exercício para aprender a falar outras línguas, não é uma opção muito viável para, por exemplo, pessoas com problemas de visão.

A empresa britânica Flawless arranjou uma solução que junta o melhor dos dois mundos: através de inteligência artificial (para não variar) consegue fazer com que as dobragens pareçam mais naturais. Digamos que sincroniza os lábios dos atores com as palavras que estão a ser ditas na língua da tradução, editando a imagem original do filme ou da série em questão.

Ao The Verge, o fundador da startup explica que o processo mantêm o estilo e desempenho original do conteúdo em causa. Não fica perfeito, mas está lá perto, e é através desta ferramenta que a empresa promete oferecer uma dobragem rápida e barata em qualquer idioma. Ora, veja aqui atores como Robert De Niro, Tom Hanks, Jack Nicholson ou Tom Cruise a “falar fluentemente” outras línguas.

A esta tecnologia podemos chamar deepfake (veja aqui como funciona)e a Flawless espera que a preservação da performance original do elenco seja atrativa para os cineastas. O CEO da empresa usa como exemplo o filme dinamarquês "Another Round", vencedor de um Óscar em 2021, que, depois do sucesso na Dinamarca e dos prémios internacionais, deve agora ter um remake em inglês com Leonardo DiCaprio no papel principal. E será que seria preciso um remake se o deepfake fosse utilizado?

  • Fun fact: a Netflix descobriu que a probabilidade de as pessoas verem um programa dobrado era maior do que a de um com legendas. Por isso, não só colocou a dobragem como definição standard, como já está a trabalhar com 170 estúdios no mundo inteiro para oferecer dobragem em mais de 34 línguas em todos os conteúdos na sua plataforma, segundo a Bloomberg.

A indústria dos deepfakes tem vindo a ganhar força e a Flawless não está sozinha no mercado. Neste artigo do Fast Company pode encontrar outras empresas que trabalham no sentido de desenvolver aplicações com esta tecnologia.

Contudo, existem problemas com esta tecnologia

Se por um lado o deepfake tem um potencial enorme, por outro pode ser perigoso. Em causa está esta facilidade de falsificar o discurso, que levou mesmo, em janeiro do ano passado, a que o Facebook e o Twitter optarassem por banir conteúdos que recorressem ao uso destas dobragens que não são reais, mas que, ainda assim, podem parecer muito realistas. É neste contexto que a University College London identifica esta ameaça como o “o crime mais perigoso” em termos de inteligência artificial.

Foi no final 2017 que começaram a tornar-se virais na internet uma série de vídeos que recorriam ao deepfake. Um dos casos que mostrou as evidências deste problema foi um vídeo de um suposto discurso feito por Barack Obama, onde, aparentemente, o antigo presidente dos EUA insultava Donald Trump (à época, ainda à frente da Casa Branca). Na verdade, este vídeo recorria ao deepfake para falsificar as palavras de Obama, através das palavras do realizador Jordan Peele. O mesmo aconteceu com um vídeo que andou a circular no Instagram, onde Mark Zuckerberg admitia que o verdadeiro objetivo do Facebook era manipular os utilizadores. Contudo, mais uma vez, era usado o deepfake para construir toda uma intervenção que nunca tinha sido feita por Zuckerberg.

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Um artigo do parceiro

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