As últimas semanas têm sido desafiantes para a Apple. Perdeu o lugar de empresa mais valiosa do mundo para a Microsoft. Foi obrigada a repensar a distribuição do Apple Watch devido a um processo judicial relativo à patente de uma das suas funcionalidades. E viu a União Europeia passar uma legislação que a obrigada a dar mais palco a outras app stores e marketplaces dentro do seu ecossistema de forma mais justa. No meio disto tudo, ao longo do último ano, tem sido confrontada também com um desaceleramento das vendas do iPhone e com a pouca atenção (ou pouco barulho feito) dada a produtos relacionados com inteligência artificial, comparando com aquilo que as suas principais rivais no setor tecnológico têm vindo a fazer em tempos recentes.

Significa isto que a Apple está em maus lençóis? Longe disso. Penso que qualquer empresa não teria qualquer problema em calçar os sapatos da famosa maçã de Cupertino e ter um valor de mercado próximo de 3 biliões (trillion) de dólares. No entanto, a semana passada trouxe dois momentos importantes para gigante tecnológica – um para compreender melhor o seu estado atual e outro para especular o caminho que pode percorrer.

Por um lado, iniciou-se o período de apresentação de resultados dos negócios cotados na Bolsa americana e a Apple teve a oportunidade de partilhar com acionistas as principais métricas do trimestre mais recente, que decorreu entre setembro e dezembro de 2023:

  • Receitas totais de 119,6 mil milhões de dólares (+2% face ao 1ºT de 2023) e lucros a aproximarem-se dos 34 mil milhões de dólares (+13%);
  • O setor dos serviços (Apple Music, App Store, Apple TV+) esteve em destaque ao crescer 11% para 23 mil milhões de dólares;
  • O segmento dos produtos manteve-se relativamente inalterável nos 96 mil milhões de dólares, com quedas significativas nas vendas do iPad e dos Wearables/Acessórios a serem contrabalançadas com algum crescimento do lado dos iPhones e dos Macs (nova gama iPhone 15 lançada em setembro).

Sobre o panorama corrente da empresa, Tim Cook abordou ainda alguns temas adicionais. Primeiro, informou que base de dispositivos ativos da Apple ultrapassou os 2,2 mil milhões, o valor mais alto de sempre entre todos os segmentos de produto e geográficos. Segundo, celebrou um resultado de vendas recorde na Europa (~30B euros) e desvalorizou a decisão europeia face a App Store, dizendo que o Velho Continente representa apenas 7% desse segmento. Por último, houve tempo ainda para discutir a China, um mercado onde a Apple voltou a ver as suas receitas diminuir.

Dar tempo ao IA. Apostar na Realidade Aumentada

O outro momento importante da semana foi o lançamento dos Vision Pro, os muito aguardados headsets de realidade aumentada da Apple. É o primeiro “novo” produto que Apple apresenta desde o Apple Watch (2015) e, por isso, há uma curiosidade natural não só sobre as funcionalidades, mas sobre o impacto que pode ter na empresa. Será algo mais residual como os iPads ou poderemos estar a observar um "momento iPhone" para os headsets?

Para já, a venda só está disponível nos EUA e o preço de 3499 dólares deverá afastar até alguns dos mais fanáticos da marca. Contudo, de acordo com o site MacRumours, cerca de 200 mil unidades já foram compradas em pré-venda, o que significa que a Apple terá faturado qualquer coisa como 700 milhões de dólares com este produto com um destino incerto, antes de o introduzir no mercado. Nada mal.

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Quanto às funcionalidades e primeiras reviews, a opinião geral tem elogiado a experiência de utilizador com o VisionOS, inspirado no sistema operativo do iPad, apesar de encontrar algumas falhas no design do headset (nomeadamente, o peso e o formato óculos de esqui) e no número de aplicações que já tem disponível (são poucas as nativas). Ao dia de hoje, o produto parece mais talhado para ser uma ferramenta de trabalho em conjunto com o Mac e não tanto uma forma de entretenimento, por faltarem jogos e apps como a Netflix, o Spotify e o YouTube (a Disney+ e a Apple TV+ estão disponíveis).

Com esta nova gama, Cook diz que a Apple está a ser pioneira no conceito de "spacial computing", uma forma de interagir com computadores recorrendo apenas a realidade virtual e aumentada. Esta não é a primeira vez que a Apple espera pelo seu momento para entrar num determinado segmento (olá, Apple Watch!) onde outros começaram a abrir portas: a Meta perde algum dinheiro com os seus modelos Quest há já uns anos, mas tem feito avanços significativos, especialmente na área do gaming.

E também poderá não ser a última. Em conversa com os acionistas, Tim Cook revelou que a Big Tech deverá apresentar novidades relativas a IA generativa até ao fim do ano e, apesar de raramente ser mencionado, tem surgido várias histórias sobre o potencial Apple Car, um elétrico que deverá ser lançado nos próximos anos (e que Elon Musk anda a dizer que é um "open secret" desde 2016). Estaremos cá para ver.

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