Devia ter acontecido em Singapura, com data marcada para março. Mas, em fevereiro, do oriente chegavam os sinais de alerta sobre a posibilidade de não haver condições para realizar, fisicamente, o evento que junta 10 empresas elétricas e 35 startups do mundo inteiro com propostas para o setor. O Free Electrons não foi cancelado, mas para acontecer foi transformado numa iniciativa em que tudo - e é mesmo tudo - passou a ter lugar numa plataforma digital.

"O elemento fundamental acabou por ser a decisão de fazer", começa por explicar Luís Manuel, administrador da EDP Inovação e um dos responsáveis pelo Free Electrons. "Percebemos que não havia condições para o evento se realizar em Singapura, mas não havia razões para não o fazer nas condições atuais". Dito assim, parece simples - na prática, foi toda uma nova operação de repensar um evento, uma plataforma e a operacionalização de processos à escala global.

Carla Pimenta, head of startup engagement da EDP, recorda alguns dos momentos onde tudo se decidiu. "A decisão não foi fácil de tomar, sobretudo quando todas as outras utilities, os outros partners, ainda não estavam bem conscientes do que vinha aí. A Singapore Power, por outro lado, que seria o host deste bootcamp estava perfeitamente consciente que muito dificilmente iam conseguir receber 200 pessoas. Equacionou-se adiar, equacionou-se fazer noutro sítio, Lisboa esteve em cima da mesa e, à medida que íamos equacionando alternativas, a pandemia ia-se alastrando país a país. Mas estávamos longe de pensar que estaríamos todos a fazer um bootcamp a partir de casa".

E foi exatamente isso que aconteceu. A partir daí todas as premissas do Free Electrons tiveram de ser adaptadas ao novo contexto, desde como garantir que os participantes se relacionavam uns com os outros, trocavam ideias, avaliavam possibilidades de colaboração - que é um dos pilares do Free Electrons - até coisas tão simples quanto conciliar fusos horários de pessoas que estão espalhadas por 30 países no mundo inteiro. "Isto é que foi um grande desafio", confessa Carla Pimenta.

O bootcamp decorreu entre 23 e 27 de março. Foram mais de 250 reuniões num espaço muito curto de tempo e apesar de existirem várias ferramentas externas disponíveis - Skype, Zoom, Microsoft Teams, todas as que estas semanas de isolamento têm sido usadas por empresas pelo mundo fora - a decisão foi no sentido de criar uma plataforma de raíz que integrasse as funcionalidades necessárias e fizesse os participantes sentir-se duplamente "em casa" , ou seja, olharem para o evento como tendo um espaço próprio.

O ambiente físico do evento foi, assim, recriado, desde o hall de entrada à sala de conferências ou às salas privadas de reuniões privadas. Houve mais do que isso, desde aulas de artes marciais a alongamentos dados por um robot ou a happy hours com um copo de vinho na mão ou uma caneca de café - porque, mais uma vez, o fuso não era o mesmo para todos.

E houve vantagens na distância que se tornou próxima por estarem simplesmente todos no mesmo espaço digital. "A quantidade de pessoas que conseguimos envolver nas reuniões com as startups foi muito maior do que quando se está a falar de uma deslocação de alguém até Singapura", conta Luís Manuel, "chegámos a ter 29 pessoas [da EDP] na mesma reunião quando numa situação normal não teríamos mais de duas ou três".

Do ponto de vista do futuro da energia, tema central ao evento, a discussão acabou por ser também condicionada pelas duas variáveis que dominam todo o planeamento que atualmente se faz: "quando é que isto começa a recuperar e qual a velocidade da recuperação".

No que respeita às propostas apresentadas, o bootcamp trouxe a diversidade que a EDP esperava, com ideias nas principais frentes da energia, desde a gestão e manutenção de edifícios, à utilização de inteligência artificial e da sensorização à mobilidade. Os 15 finalistas desta fase do bootcamp são os seguintes projetos: Allume Energy (Austrália), AMPLY Power, Inc. (Estados Unidos), Chargetrip (Países Baixos), Disruptive Technologies (Noruega), energyX Solutions, Inc. (Canadá), FlexiDAO (Espanha), fos4X (Alemanha), FutureGrid (Austrália), Gridio.io (Estónia), Net2Grid (Países Baixos), Ripple Energy (Reino Unido), Soraytec AS (Noruega), Tesselo (Portugal), Vutiliti (Estados Unidos) e Vyntelligence (Reino Unido).

No final, Luís Manuel destaca uma nota de otimismo: "Se há alguma coisa de bom em tudo o que se está a passar, é que é uma ação concertada entre países de todo o mundo e esta capacidade de mobilização face a um problema global, com ações concretas. Mostra que o mundo é capaz de fazer coisas muito importantes com grande sacrifício".

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