“No domínio da atuação das pequenas e médias cidades, Portugal não tem que pedir contas a ninguém”, diz António Almeida Henriques, o homem por trás das cidades inteligentes na Associação Nacional de Municípios (ANM). Em entrevista ao SAPO24, por ocasião da cimeira Portugal Smart Cities, que termina esta sexta-feira em Lisboa, o responsável diz que “com esta dinâmica que estamos a criar no âmbito da Portugal Smart Cities Summit e da secção das cidades inteligentes da Associação Nacional de Municípios, já temos cerca de quarenta municípios muito conectados com esta estratégia e esta mostra é uma montra do que está a acontecer”.

“Diria que estamos a fazer um percurso muito interessante e já com provas dadas”. O vice-presidente da ANM afirma, por isso, que “Portugal está neste momento numa situação bastante avançada, competindo de igual para igual com outros países no domínio da inteligência urbana.”

Este desenvolvimento abre a porta à exportação de ideias e tecnologia, acredita Almeida Henriques. “80% das cidades da Europa serão pequenas e médias. Ora, se estas aplicações resultarem bem, como estão a resultar, nas nossas pequenas e médias cidades, criam a oportunidade para todas estas empresas exportarem estas competências para outros países”, defende o autarca.

E as inovações que se estão a desenvolver em Portugal, diz, já passaram as fases de testes: “não estamos a falar de projetos-piloto, estamos a falar de projetos consistentes que estão a ser implantados no terreno. Envolvendo o território, através dos municípios, e o sistema científico e tecnológico”.

À academia e ao poder local junta-se a indústria. Almeida Henriques dá o como exemplo o caso de Viseu e um consórcio de mobilidade urbana desenvolvido com a norte-americana IBM,  “que no fundo é líder do consórcio, mas está a comprar e a interagir com outras empresas para a criação do nosso MUV”.

Smart Cities. Eles vão andar aí — e não trazem condutor
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A inovação na mobilidade urbana é apenas mais um dos fatores que aproxima Viseu, cidade do interior, da capital portuguesa. “Lisboa está muito à frente, é uma grande cidade, mas também está aqui uma cidade média atrás”. Ao lado um do outro, o ‘stand’ da cidade de Viriato destaca-se pela dimensão, superior à de Lisboa.

Questionado sobre se isso pode servir de metáfora a um eventual maior desenvolvimento da inteligência urbana na cidade beirã que em Lisboa, Almeida Henriques destaca a diferença na dimensão dos dois territórios. “É mais fácil trabalhar numa cidade média e criar este ecossistema, do que numa grande cidade. Lisboa tem hoje um ecossistema na área do empreendedorismo muito interessante. Viseu está a procurar aproximar-se de Lisboa para ser um pouco a antena da Start Up Lisboa em Viseu e em toda aquela região do Interior, porque nos interessa esta ligação”.

Ligação que os empreendedores que se fixam em Viseu necessitam. “Os nossos jovens empreendedores precisam de ter escala e a escala ganha-se na rede. Se calhar alguns destes jovens empreendedores que estão a surgir em Lisboa podem encontrar um ecossistema amigável em Viseu, com um custo de vida mais baixo, eventualmente conseguindo fazer evoluir mais rapidamente a sua ‘start up’”, explica o autarca ao SAPO24.

“Temos muito a ganhar com esta rede e também muito do que eu tenho estado a fazer ao liderar esta rede — conectar, pôr as empresas a falar com os territórios, a falar com as universidades, porque disto está a resultar uma série de projetos que no fundo são no terreno já devidamente consolidados”.

“O cidadão vai ser o grande beneficiário”

Numa cimeira dedicada a empresas e órgãos de governo, pode por vezes ser difícil encontrar as vantagens que, na prática, podem servir os cidadãos cujos impostos, através das autarquias, acabam por pagar esta inovação.

No que toca à mobilidade, o benefício “é evidente”, diz Almeida Henriques. “Toda esta evolução em mobilidade pode permitir que os cidadãos cada vez menos usem o seu carro e que utilizem os vários meios de transporte, que utilizem o 'sharing' [partilha] da bicicleta ou do carro para se deslocarem de um sítio para o outro sem constrangimentos”.

Também nas áreas ambientais, como na recolha de lixo, há soluções vantajosas para a vida das pessoas: “Um cidadão será muito melhor servido se chegar a um patamar em que a sua recolha de lixo o ponha a pagar só os quilos de lixo que produz e não andar a pagar as ineficiências do seu vizinho do lado, que não faz recolha seletiva”, exemplifica.

Mas as hipóteses são vários, permitindo, por exemplo, ter os cidadãos mais próximos das tomadas de decisão, fiscalizando os processos. É o caso dos orçamentos participativos ou de “plataformas desmaterializadas que permitem ao cidadão interagir com a autarquia sem precisar de se lá deslocar, fazendo-o através do portal, onde trata de todos os seus assuntos”, ou onde, por exemplo “o cidadão pode, de forma mais transparente, acompanhar a evolução de um projeto de licenciamento: o cidadão fica com uma ‘password' e vai acompanhando cada momento da aprovação do seu projeto, sendo ele próprio o fiscalizador da atividade da autarquia”.

“Esta é daquelas vertentes em que, quando se fala no assunto parece futurologia, mas quando as pessoas sentem o efeito do benefício, aí é que o cidadão entra, porque o cidadão vai ser de facto o grande beneficiário destas melhorias que a tecnologia nos permite introduzir na gestão das cidades”, defende.

Da qualidade de vida aos carros autónomos. Como é que se consegue ser Viseu?

Olhando para Viseu, que nesta cimeira assumiu a vontade de ser a primeira cidade portuguesa com um transporte público elétrico autónomo, com a apresentação do Viriato, Almeida Henriques, presidente da autarquia viseense desde 2013, sublinha o desenvolvimento de um “ecossistema” que permite à cidade tornar-se atrativa para pessoas e empresas.

À partida, podia achar-se que Viseu tem tudo para correr mal. No interior, sem grande tradição académica, a cidade beirã conseguiu, no entanto, ultrapassar esses desafios, sendo sucessivamente nomeada como a cidade portuguesa com melhor qualidade de vida.

Mas, como é que Viseu consegue ser Viseu? "Exatamente pelo ecossistema que temos conseguido criar e exatamente por colocarmos a qualidade de vida como a nossa primeira prioridade”, diz o líder da autarquia, que elege a qualidade de vida como “o principal fator de competitividade” da cidade.

“Uma empresa ao fixar-se em Viseu consegue melhor produtividade. Um cidadão ao fixar-se em Viseu consegue qualidade de vida a mais baixo preço. Basta ver que um T3 em Viseu custa 300 euros por mês e em Lisboa custa 700 ou 800 — logo por aí está estabelecido o paralelismo”, afirma Almeida Henriques.

A aposta passa também por garantir que essa qualidade de vida se alarga “desde o momento em que se nasce até ao envelhecimento”, começando desde logo por um “ensino de grande qualidade, por uma lógica que aposta no desporto e na cultura como dois suportes do próprio ensino”.

Fruto disso, em Viseu, “mais de 30% dos jovens são atletas federados, o que será seguramente o maior rácio do país”, indica o autarca. Também a cultura é presença forte nas escolas, estando todos os estabelecimentos de ensino pré-escolar e básico equipados com instrumentos Orff, garantindo que “todas as crianças contactam com a música desde o momento em que entram no sistema de ensino em Viseu”.

“Portanto, a lógica é termos um sistema de ensino extremamente pujante, que no fundo permita formar bons cidadãos. E depois permitir uma boa qualidade de vida ao longo de tudo: uma boa oferta desportiva, uma boa oferta cultural, uma cidade limpa com bonitos jardins, com espaços de partilha. Toda a estratégia da cidade está focalizada na qualidade de vida e na pessoa”.

“Este ecossistema permitiu-nos também apresentar Viseu a várias entidades que queiram colaborar connosco, como ‘living lab’ [laboratório vivo]. Esta é a cidade ideal para poderem testar o conjunto das tecnologias”.

E foi precisamente a necessidade de garantir os aspetos da qualidade de vida que obrigou à procura de novas formas de fazer as coisas. É que “a cidade jardim”, como é conhecida, “precisava de tecnologia para desenvolver os jardins, para a rega gota-a-gota, para poupar água”, conta o autarca. E foi por aí que começou, diz: “A cidade jardim, no domínio da água, também queria introduzir a telemetria e introduziu-a nos contadores inteligentes. Construímos entretanto uma ETAR de terceira geração, onde a reutilização da água se podia colocar. Estamos neste momento a desenvolver um projeto de economia circular para permitir que esta seja das primeiras ETAR em que a água volta a ser reaproveitada, para já para a rega de jardins e limpeza das ruas, mas, posteriormente, mesmo para voltar outra vez ao ciclo da produção da água”, antevê Almeida Henriques.

Também na recolha de resíduos a cidade desenvolveu “um projeto onde para além da recolha e dos chips que já estão instalados nos contentores e permitem uma gestão mais inteligente da recolha de lixo, estamos a ir mais longe — é na própria seletividade a reservar uma parte desse lixo que vai ser queimado numa central de biomassa que está a ser construída com capitais privados e onde se estima que 30% do consumo venha a ser lixo”.

Atraindo projetos, atraem-se pessoas. O ecossistema “já está a permitir fixar pessoas e criar valor a partir de Viseu”, diz o autarca. “Foi isso que permitiu por exemplo trazer um centro de competências da IBM, que neste momento já tem mais de cem pessoas a trabalhar, numa fase inicial trazer uma Bizdirect, que já tem cerca de 70 pessoas a trabalhar, trazer uma Compta, que instalou o seu departamento ambiental em Viseu, trazer uma Critical Software, com quem assinámos um contrato há cerca de oito dias, que vai instalar um centro de competências com 50 pessoas, estabelecemos com a Altice um laboratório colaborativo em Viseu, que nesta primeira fase avança com 15 pessoas”, enumera.

“A verdade é que nós neste último ano e meio fixámos duzentos engenheiros na cidade de Viseu, o que seria de facto impensável, como é que se cria uma dinâmica que fixa duzentos engenheiros, numa cidade média do interior do país, que não é Lisboa nem Porto”.

Trata-se de usar a tecnologia e a inteligência urbana como um “instrumento para a felicidade das pessoas e, ao mesmo tempo, permitindo à autarquia ser ponto indutor de toda esta estratégia, em rede com os vários parceiros, mas ao mesmo tempo ser ela própria um consumidor de algumas destas tecnologias para introduzir mais eficiência na gestão e poupança de recursos”.

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