Sim, pode ser questionável que a Web Summit sirva de barómetro para medirmos o que está a fazer mexer o mercado das tecnologias pelo mundo. Mas, não, não é desprezível o facto de o número de startups vindas de África estar a aumentar de edição para edição naquela que é considerada uma das maiores cimeiras tecnológicas no mundo. Este ano marcaram presença 41.

Cabo Verde, por exemplo, vale um capítulo por si só. Mas já lá vamos.

As mudanças no panorama do empreendedorismo do continente africano têm dado que falar, e o Quartz, publicação dedicada à área dos negócios, tem lançado alguns dossiês especiais sobre o tema. Num estudo divulgado a 8 de novembro, o Quartz ajuda-nos a compreender “porque é que o panorama das startups de África continua a fazer história” (“Why Africa’s startup scene keeps making history”, no original).

Os valores investidos estão a bater recordes - e há cada vez mais "anjos" locais

O ano de 2019 ainda não chegou ao fim e as startups de topo em África já angariaram quase 700 milhões de dólares (cerca de 635 milhões de euros). São dados da GreenTec Capital Partners, uma empresa que acompanha os negócios acima de um milhão de dólares que envolvem capital de risco no continente.

As contas deste ano vão a caminho de bater o recorde de 2018, ano em que as startups africanas angariaram 725 milhões de dólares (mais de 650 milhões de euros).

O salto é mais impressionante ainda se nos lembrarmos que em 2017 o financiamento arrecadado pelas startups em África rondava os 200 milhões de dólares (aproximadamente 181 milhões de euros), segundo estimativas da WeeTracker, uma empresa focada no mundo dos negócios em África.

A maioria do dinheiro continua a vir de fora, com o capital a ter origem em empresas privadas e em Governos estrangeiros. França, por exemplo, já se comprometeu a investir 2,8 mil milhões de dólares (2,5 mil milhões de euros) em projetos de empreendedorismo africanos até 2022.

No entanto, está a crescer o investimento doméstico: quatro em cada dez fundos de investimento são geridos por entidades com base em África, e há cada vez mais redes locais de “business angels” - investidores particulares que financiam projetos de empreendedorismo e startups. A título de exemplo, na última década, foram criadas a Dakar Angels Network, a Lagos Angels Network, a Benin Business Angels Network e a Africa Business Angels Network, recorda o Quartz.

Startups em África: alguns nomes para onde olhar

Segundo o Quartz, estas são algumas das novas empresas tecnológicas em África a que vale a pena dar especial atenção.

  • Paga. Fintech nigeriana que angariou, desde 2009, 202 milhões de dólares (mais de 183 milhões de euros) e que tem 12 milhões de utilizadores na Nigéria;
  • SolarNow. Empresa do Uganda que vende produtos para energia solar e que dá prioridade a clientes que usam a energia solar para gerar rendimento;
  • mPharma. Empresa que facilita a gestão do stock de medicamentos, entre outros serviços na área da saúde, e que tem atraído a atenção dos investidores de Silicon Valley;
  • Jumia. Startup nigeriana dedicada ao comércio online, muitas vezes chamada de “Amazon de África”.

Onde se concentra o investimento e a diferença que a língua faz

Há quatro países que concentram em si 73% dos negócios acima de um milhão de dólares. São eles, de norte para sul: o Egito, a Nigéria, o Quénia e a África do Sul. O Egito é uma novidade em relação a 2018.

As ferramentas para os empreendedores lançarem negócios estão aqui concentradas: dos 643 centros dedicados às startups, 42% estão localizados num daqueles quatro países.

Só as cidades do Cairo (capital do Egito), Cidade do Cabo (capital da África do Sul), Joanesburgo (África do Sul), Lagos (a maior cidade da Nigéria) e Nairobi (capital do Quénia) têm 20 ou mais hubs para apoio na angariação de financiamento, disponibilização de instalações, etc.

O apoio institucional aos empreendedores está a crescer e não apenas nos países anglosaxónicos, que tradicionalmente têm dominado este mercado em África.

Os países francófonos - mais lentos a destacar-se na atração de financiamento, até por questões de língua - estão a ganhar terreno, em parte por causa do investimento por parte dos Governos e dos investidores locais. Exemplo disso são o Senegal, a Costa do Marfim, o Mali e o Togo. No Senegal, por exemplo, há um compromisso de investimento de 50 milhões de dólares (mais de 45 milhões de euros) em projetos de empreendedorismo de mulheres e de jovens adultos, conta o Quartz.

Para onde olhar? As áreas que captam mais investimento e a startup dos 100 milhões de dólares

Em 2018, as fintech (negócios financeiros suportados em novas tecnologias) lideravam de forma destacada o investimento em capital de risco em África. Cerca de 40% do financiamento no ano passado foi para esta indústria.

O investimento nestas soluções, em particular nas aplicações de mobile banking, mostra a importância da criação de soluções para uma população com acesso por vezes limitado a infraestruturas bancárias, como descreve o Quartz.

Agora há sinais de que o investimento se está a alargar a outras indústrias, nomeadamente ao setor energético, logística, saúde, educação, retalho e agricultura.

Na área da educação e do emprego, há uma startup que se destaca: Andela. Esta startup conseguiu um investimento de 100 milhões de dólares só este ano. A empresa recruta talentosos programadores africanos, dá-lhes formação e encaminha-os, depois, para empresas de tecnologia de topo.

A IBM é um dos principais parceiros desta startup, que trabalha atualmente com 135 empresas a nível mundial e que já tem escritórios no Egito, Ruanda, Uganda, Quénia e EUA.

Cabo Verde Digital: O que é? E porque veio à Web Summit?

Um "centro tecnológico com mil programadores" nos próximos cinco anos. É essa a visão do projeto Cabo Verde Digital.

"No fundo, o grande objetivo é transformar a Cidade da Praia, capital de Cabo Verde, numa 'tech hub', e é isso que nós vamos realizar junto com o Governo de Cabo Verde", afirmou um dos parceiros do projeto, Diogo Folque Guimarães, cofundador da 'startup' portuguesa de formação Academia de Código.

A parceria entre a Academia de Código e o Governo cabo-verdiano "nasce de uma grande vontade de Cabo Verde neste processo de digitalizar-se e de apostar em talento”, disse à Lusa o responsável a propósito da participação da participação deste país na Web Summit deste ano.

"Cabo Verde pode começar claramente a exportar tecnologia. Isso é algo de que nós gostaríamos de fazer parte", acrescentou Diogo Folque Guimarães.

Esta perspetiva está alinhada com o exponencial aumento de programadores em África. O continente é o segundo com o crescimento mais rápido de profissionais desta área. A Microsoft, por exemplo, vai investir mais de 100 milhões de dólares (quase 91 milhões de euros) em centros de programação em África.

O primeiro-ministro cabo-verdiano, Ulisses Correia e Silva, considerou no último dia da Web Summit, que Cabo Verde "ganha notoriedade, representação" e interesse com a sua participação na conferência de tecnologia em Lisboa.

“Estamos no maior evento tecnológico do mundo, e é bom que Cabo Verde esteja representado através dos seus talentos”, acrescentou o chefe do Governo do arquipélago lusófono, sobre uma iniciativa que custou “mais de 100 mil euros” aos cofres do país.

“O retorno será bom para o país, enquanto país, e também para os nossos jovens”, não tem dúvidas o primeiro-ministro.

Fazer da tecnologia uma bandeira, à semelhança do turismo, é a aposta de Aruna Handem, diretor-geral das Telecomunicações e Economia Digital, área integrada no Ministério das Finanças de Cabo Verde.

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