O que levou muitos russos a atirarem aviões de papel dos seus apartamentos, no passado domingo? O responsável foi Pavel Durov e o objectivo era conseguir o apoio para a sua aplicação Telegram (cujo ícone é um avião de papel), bloqueada a 16 de Abril pelo regulador das telecomunicações Roskomnadzor (RKN) que queria permitir o acesso às mensagens cifradas pelas autoridades.

O RKN, através dos tribunais, impediu o acesso a cerca de 18 milhões de endereços da Internet, no sentido de dificultar que os utilizadores pudessem utilizar o Telegram na Rússia mas, como o serviço está alojado em serviços norte-americanos da Google ou da Amazon, foram igualmente bloqueados outros endereços que pouco tinham a ver com o Telegram, como o serviço de música Spotify.

Pavel Durov, o co-fundador com o seu irmão Nikolai do Telegram, escreveu a 17 de Abril que a Rússia bloqueou o serviço para eliminar o Telegram do seu território, mas que o serviço continuava disponível para a maiorias dos residentes locais.

O que é o Telegram?

É uma aplicação de mensagens electrónicas rápidas, que permite a transmissão entre emissor e receptor de forma alegadamente segura por ser cifrada - tão segura que parece impossível aceder aos conteúdos, que podem ser de simples mensagens de texto a vídeos. Isto também porque os conteúdos transmitidos residem na nuvem ("cloud"), acedida pelo dispositivo do utilizador, do computador aos equipamentos móveis.

Devido às suas características de cifra das mensagens, a aplicação foi considerada uma ameaça pelo potencial uso para actividades ilegais, do terrorismo (nomeadamente pelo Daesh) ao tráfico de droga ou pedofilia.

Permite criar grupos (poucas centenas de pessoas), supergrupos até 100 mil pessoas ou canais para audiências ilimitadas, explica a empresa.

Criada em Agosto de 2013 pelos irmãos Durov, replicava a WhatsApp, uma outra aplicação de mensagens rápidas apresentada em 2009, bem como a funcionalidade das mensagens se poderem auto-destruir num horário pré-definido pelo utilizador - como o Snapchat já permitia desde 2011.

Contado assim, parece que o aparecimento do Telegram ocorre após análise à concorrência, mas os irmãos tinham lançado em 2006 o serviço de mensagens VKontakte (VK), semelhante ao Facebook. Sete anos depois, o governo russo - através de um "bilionário amigo do Kremlin", como lhe chamou a Bloomberg - tomou conta da VK por cerca de 300 milhões de dólares.

À revista Dazed, Pavel contou como a polícia e as agências de segurança se interessaram por ele e pelo irmão em 2011 (visando eliminar grupos da oposição existentes na VK) mas que mais "assustador" foi dois anos depois quando o obrigaram a vender 48% da VK. "Após as revelações de Edward Snowden em 2013, percebemos que o problema não era só com a nossa situação e existia noutros países. Assim lançámos a aplicação de mensagens cifradas para o público em geral".

Pavel parece ser o financeiro e ideólogo, enquanto Nikolai é o técnico mais discreto, pelo que se percebe das notícias e das explicações no site da empresa. Pavel foi para o Dubai, entre outras localizações, por onde circula com alguns dos programadores, e pediu a cidadania numa ilha das Caraíbas, mas sediou a empresa em Berlim. "A localização dos servidores é secreta, tal como muitos dos nomes dos funcionários, alguns dos quais são milionários", afirmou à Bloomberg em Dezembro passado.

Como validar o número de utilizadores se é secreto?

O crescimento da aplicação parece ser sustentado nos problemas políticos: em Fevereiro de 2014, quando o WhatsApp teve problemas com os seus servidores, a alternativa escolhida foi o Telegram, que conseguiu cinco milhões de novos utilizadores num único dia. O facto de o Facebook ter adquirido o WhatsApp nessa altura também ajudou à mudança de serviço pelos utilizadores. No mês seguinte, tinha 35 milhões de utilizadores activos.

Em Outubro, quando o serviço sul-coreano Kakao Talk foi pressionado pelas autoridades, muitos utilizadores mudaram para o Telegram. Em Dezembro desse ano contabilizava 50 milhões.

Em 2015, tinha 62 milhões de utilizadores activos mensais. No final do ano, após o Brasil ter dificultado o acesso ao WhatsApp, conseguiu mais 1,5 milhões de utilizadores.

Eram 100 milhões em Fevereiro de 2016 mas só com as eleições parlamentares no Irão, e em concorrência com o WhatsApp (o Facebook, o Twitter e outro programa de mensagens, Viber, foram bloqueados), cerca de 20 milhões de utilizadores iranianos aderiram ao Telegram.

A empresa contabilizou 40 milhões no ano seguinte, ainda no Irão, enquanto Durov afirma que a Rússia conta para cerca de 7% dos utilizadores do Telegram.

A 22 de Março passado, o blogue da empresa revela terem atingido os 200 milhões de utilizadores activos - tantos como a rede social Pinterest, mas muito longe dos 1.500 milhões do WhatsApp ou dos 1.300 milhões do Messenger do Facebook, segundo dados da Statista.

Portugal tem alguns utilizadores e "canais" temáticos mas como a empresa não divulga os acessos (até por questões técnicas), é difícil saber o número real dos mesmos.

A segurança do Telegram

A aplicação tem estado sob vigilância das autoridades e tem recebido sinais de como a sua utilização não será permitida em certos estados.

Em Fevereiro, a empresa de segurança informática Kaspersky Lab assegurou que "malware" enviado para a versão de computador do Telegram estava a ser usado há quase um ano para utilizadores russos, visando o seu uso para "minerar" criptomoedas [minerar significa obter criptomoedas a partir da descodificação de operações suportadas na tecnologia blockchain]. O problema foi resolvido em Outubro passado.

Outros investigadores, Alex Rad e Juliano Rizzo, detectaram que o Telegram não usa realmente uma cifra "end-to-end" (entre emissor e receptor), excepto se for activada a função "secret chat".

Pavel Durov explicou, em Junho passado à revista Fast Company, que teve propostas de autoridades norte-americanas para fragilizar a robustez da cifra na aplicação por forma a permitir o acesso das mesmas às comunicações. A empresa oferece 300 mil dólares a quem conseguir provar que as mensagens transmitidas podem ser decifradas.

Há uma semana, o presidente do Irão proibiu os membros do governo e as instituições públicas de usarem aplicações de mensagens como o Telegram, após protestos dinamizados pela rede social e que levaram a um encerramento temporário da mesma. Para os mais fundamentalistas (que defendem o uso das aplicações estrangeiras desde que a base de dados dos utilizadores esteja radicada no país), o Irão devia criar uma versão própria desta aplicação.

Este tipo de acesso condicionado foi o que levou a Rússia a bloquear o Telegram e Pavel Durov a dizer que "a privacidade não está à venda". Mas países ocidentais como a França tentam contornar essas dificuldades de acesso, alegando questões de segurança.

Tal como no Irão, o governo francês quer este Verão mudar o acesso aos serviços de mensagens rápidas pelos seus funcionários, para ter um serviço que não esteja "dependente das ofertas privadas". A alternativa é criar um serviço próprio, francês, com o mesmo objectivo.

O futuro pode não ser com dinheiro de Pavel

O Telegram não se publicita, não quer ser comprado nem fala em ter lucros. O dinheiro arrecadado é para investir na sua expansão.

Pavel Durov financia o projecto mas, se houver falta de dinheiro, a empresa tenciona obtê-lo em opções que não coloquem em causa a sua independência e apenas de forma a sustentar a infra-estrutura e os salários dos programadores.

Em Março passado, o jornal New York Times lembrava como o Facebook demorou sete anos a conseguir mil milhões de dólares de investidores (quando tinha mais de 500 milhões de utilizadores mensais activos), enquanto a Uber o fez em cinco anos, e que a Telegram o poderia conseguir em apenas quatro meses, através de uma "initial coin offering" (ICO).

Desde Janeiro, a empresa conseguiu 850 milhões de dólares de 81 investidores, incluindo empresas de capital de risco como a Benchmark, a Sequoia e a Kleiner Perkins, pretende lançar uma nova ronda para obter outros 850 milhões (tendo lançado entretanto uma iniciativa "secreta" e "privada" para obter financiamento de investidores seleccionados, o que a afasta do escrutínio das entidades reguladoras) e tem prevista uma terceira captação de investimento para o mesmo valor.

Esse investimento deve ser usado na criação de uma moeda virtual (a "gram") e numa nova rede global de "blockchain", a Telegram Open Network (TON), para transferência de pagamentos entre utilizadores, mesmo que estejam em diferentes países. No entanto, refere que 52% das "grams" será sempre assignado à empresa.

Mas outros desses investidores como a Union Square Ventures, Andreessen Horowitz, Greylock ou Polychain Capital mostraram desinteresse por nada terem visto de concreto, excepto 132 páginas de um folheto de captação de fundos, considerando tratar-se de especulação sem substância tecnológica.

"Há muito a ser prometido e pouco de clareza como isso será feito", disse Christian Catalini, responsável do Cryptoeconomics Lab no MIT, à The Verge. Também Matthew Green, professor na Johns Hopkins University, expressou que o documento da Telegram "parece que alguém foi à Internet e agregou as ideias mais ambiciosas de uma dúzia de projectos e disse 'vamos fazer isto mas melhor!'".

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