“Bem-vindo à minha sala de jantar!”

Não, não se trata de um momento entre amigos. Nem tão pouco de um encontro presencial.

É assim que começa muitas vezes uma sessão de apoio psicológico urgente no acalma.online.

O psicólogo está na sua própria casa, em frente ao computador. Do outro lado do ecrã, está uma pessoa que agendou uma sessão porque precisa de ajuda.

O acalma.online é uma plataforma online de sessões gratuitas de apoio psicológico e foi criado para dar resposta rápida às dificuldades que surjam como consequência da pandemia.

Foi lançado a 3 de abril, e no dia 18 de maio já contava com mais de mil sessões agendadas e 600 realizadas.

A história deste projeto foi contada no magazine desta semana do The Next Big Idea que pode ver aqui.

“Não é uma psicoterapia. É apoio psicológico urgente”, faz questão de sublinhar Filipa Machado Vaz, psicóloga clínica e uma das coordenadoras dos psicólogos voluntários que se ofereceram para integrar o projeto. Hoje são já cerca de 100.

O que é isso de apoio psicológico urgente? Os elementos fundamentais são estes: resposta tão breve quanto possível assim que surge o problema, foco nos sintomas apresentados no momento e desenvolvimento de estratégias para lidar com a situação.

“Ou seja, enquanto numa psicoterapia é feito um estudo, uma avaliação de todo um desenvolvimento e das várias variáveis envolvidas no problema, aqui os psicólogos são treinados para numa sessão, que tem de 45 minutos a uma hora, darem uma resposta”, explica a especialista.

O acalma.online é um dos vários projetos que surgiram durante a pandemia e que cruzam inovação social e tecnologia.

Inês Sequeira, diretora da Casa do Impacto, um hub de inovação e empreendedorismo social da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, conta-nos como tudo começou: “Como temos várias startups ligadas à saúde mental dentro da Casa do Impacto, resolvi falar com os fundadores destas startups para perceber como é que podíamos criar uma plataforma online com um modelo psicológico de intervenção em crise para que de alguma forma se pudesse dar uma resposta rápida às pessoas que sentissem consequências do isolamento social, em termos de ansiedade, depressão, stress generalizado, etc.”

“Toda a gente nos ensina como usar as máscaras, mas ninguém nos ensina a lidar com a ansiedade”

“Não há saúde sem saúde mental”, afirma sem hesitar Filipa Machado Vaz. “Não me adianta ter uma saúde física boa, se depois em termos mentais não consigo ter relações que sejam boas, não consigo trabalhar, não consigo muitas vezes sair de casa. A saúde mental condiciona-nos profundamente”, continua.

A questão é que “toda a gente nos ensina como usar as máscaras, mas ninguém nos ensina a lidar com a ansiedade”, compara a psicóloga.

As sessões no acalma.online, marcadas através do site, pretendem precisamente cumprir essa função: “ajudar a pessoa a desenvolver estratégias para lidar com a situação do momento”.

Para isso, do lado de lá do ecrã estão profissionais credenciados pela Ordem dos Psicólogos, já com alguma experiência, preferencialmente com formação em intervenção em crise.

João Fugas, psicólogo clínico e também membro da equipa do acalma.online ajuda-nos a perceber porque é diferente falar com um profissional ou com um amigo: “Quando temos uma conversa com um amigo ou com uma amiga, eles não podem compreender as problemáticas associadas aos sintomas psicológicos. O que normalmente fazem é dar a opinião deles”.

“A intervenção psicológica é sustentada em objetivos específicos e usa estratégias específicas: temos de estar atentos ao verbal e ao não-verbal, temos de conseguir explorar quando é necessário, orientar a pessoa no seu discurso. Isto é complexo”.

No caso do acalma.online, os sintomas com que as pessoas têm chegado às sessões são “muito ligados à ansiedade, tristeza, não estar a saber gerir a questão do isolamento, dificuldades de adaptação à nova forma de trabalho, a conciliação com a vida pessoal, coisas ligadas a relações quer pela separação quer pelo convívio 24 sobre 24 horas”, descreve Inês Sequeira.

A responsável traça ainda um perfil das pessoas que mais têm recorrido à plataforma: 68% são mulheres, a média de idades ronda os 39 e mais de 60% das pessoas têm o ensino superior.

Há um dado em particular que surpreendeu os organizadores da plataforma: “Há portugueses espalhados por todo o mundo que têm entrado em contacto connosco. Ficaram retidos noutros países e com algum nível de ansiedade, com medo em relação ao futuro e que queriam estar ao lado dos familiares”, conta Filipa Machado Vaz, que realiza sessões também.

Começou com a pandemia e não tem data para acabar

O balanço do projeto até ao momento é positivo: é realizada uma média de 13 sessões por dia, a classificação dos utilizadores em termos de satisfação tem sido em média de 8.6 em 10, várias pessoas marcam mais do que uma sessão, e os psicólogos continuam muito motivados.

“Nós achamos que os problemas de saúde mental não só vão continuar como eventualmente se irão agravar, com as dificuldades económicas a aumentar. O objetivo é que o projeto continue a dar resposta. É essa a nossa missão”, afirma Filipa Machado Vaz.

Inês Sequeira explica que neste momento, na Casa do Impacto, estão a tentar encontrar um modelo de negócio que permita “garantir pelo menos que os psicólogos tenham alguma forma de remuneração”, mantendo a gratuitidade das sessões. “Estamos muito na perspetiva, não de ganhar dinheiro com isto, obviamente, mas de tornar o acalma.online um negócio sustentável”.

Uma das hipóteses que está a ser considerada é a da filantropia: “um modelo em que as empresas financiem X consultas, sendo que cada consulta tem um valor Y”.

Além da Casa do Impacto, o acalma.online resulta da união de esforços de várias startups: a doctorino , a ZenKlub , a Hug-a-Group , a WithCompany  e a DoctorSpin.

O acalma.online integra o tech4COVID19, um movimento de soluções tecnológicas para dar resposta a questões associadas à pandemia.

(Artigo atualizado às 13h48)

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