A semana na Web Summit está a passar a correr e a um ritmo frenético — tanto que, sem darmos por isso, o dia de abertura já parece algo longínquo e distante. As talks são muitas, os painéis e palcos também, os oradores são mais de mil. Muito se passou, mas no palco principal da Altice Arena, o Center Stage da Web Summit, estas foram algumas das conversas que mais se destacaram.

Os macacos (NFTs) andaram à solta

A primeira sessão do dia na Altice Arena foi um desafio para Nicole Muniz, CEO da Yuga Labs, que teve de explicar ao mundo menos conhecedor destes tokens digitais a razão pela qual a “Bored Ape Yacht Club” (BAYC) é tão marcante no mundo dos NFTs. Afinal, estamos a falar de 10.000 imagens de macacos num estilo cartoon que são extremamente populares.

E dizemos o desafio porque a jornalista Yasmin Gagné, da Fast Company, lançou de pronto a pergunta que as vozes mais críticas costumam fazer: a de que quando compramos um NFT, na verdade, estamos apenas a pagar demasiado por uma imagem em formato JPEG. “O que é que os críticos não estão a perceber?”, perguntou.

Muniz respondeu que a diferença principal entre uma imagem JPEG e um NFT está “nos direitos” — um NFT tem um autor reconhecido, que pode reivindicar a sua autoria. Admitindo que, efetivamente, se “for isso que a pessoa valoriza”, o olhar para o item digital e ver apenas um “JPEG”, é vislumbrar algo vago e opaco porque este metaverso “pode ser muito mais do que isso”.

“[Um NFT] é uma coisa efetivamente tua, comprovadamente tua, estando tudo registado na blockchain. Mas é também — e é aquilo que temos feito na BAYC, e mais tarde com a Cryptopunks e a Meebits — dar a patente comercial [desse NFT ao criador]. Ser [um token] exclusivo é realmente algo único”, explicou, antes de salientar que a empresa quer olhar para além desta pequena noção.

Por noção, entenda-se que quer ser mais do que uma comunidade conhecida pela transação de NFTs. “Nós precisamos de pensar em como podemos ajudar os próximos 100 milhões de pessoas a migrar para a Web3”, disse, frisando que esta é a “verdadeira missão” da empresa. O que é compreensível, tendo em conta que esta opera no “The Otherside”, a sua plataforma no metaverso.

Quem não está alinhado com este mundo é possível que admita a possibilidade destas imagens serem apenas algo semelhante a segmentos de um videojogo ou de uma série de animação. Mas, a realidade, é que a Yuga Labs está avaliada em 4 mil milhões de dólares e toca em muitas áreas — e além de estar a contratar talento de topo para Web 3, quer voltar a fazer com que a Internet seja novamente “divertida”.

“A Web 1 foi divertida e tola, mas depois todos nós ficámos demasiado sérios [na Web 2]”, disse Nicole Muniz. “É por isso que queremos trazer a diversão de volta à Internet. Esta é uma grande parte do espírito e ADN da nossa cultura”, rematou.

Democratizar a saúde? A Apple acredita que é esse o caminho

A vice-presidente da Saúde da Apple, a Dra. Sumbul Desai, foi à Web Summit apresentar a visão (ousada?) da marca da maçã. Num estilo claramente “à evento Apple”, a apresentação centrou-se na forma como a tecnológica espera vir a utilizar o Apple Watch, iPhone e dispositivos iOS para “democratizar os cuidados de saúde”.

Apesar de a Dra. sublinhar que, de momento, apenas se vislumbra uma ínfima parte do que será para fazer e está nos planos, a VP está otimista acerca do futuro e do papel da tecnologia que se está a desenvolver em Cupertino.

Especificamente, a empresa quer facultar aos utilizadores ferramentas para que estes monitorizem a sua saúde a partir de casa, alertando-os para situações de risco como o nível baixo do oxigénio no sangue. “E se tivesse nas suas mãos ou no pulso os dados, o aviso, a red flag, que lhe dizia para consultar um médico antes de saber que algo estava mal?”, questionou.

“O desafio da medicina moderna é que os tratamentos só funcionam nos pacientes que os procuram. E, como consequência, os resultados dependem não só do tratamento, mas também do tempo”, explicou.

Por outras palavras, as pessoas só procuram os médicos quando é tarde demais ou sentem dor física. A deteção precoce de condições clínicas graves significa que os médicos podem intervir rapidamente, resultando em vidas salvas.

Em resumo: O objetivo da Apple passa por dar a oportunidade a que qualquer pessoa – que tenha os seus dispositivos – tenha acesso “a análises” em tempo real. Ou seja, dar ferramentas para que um indivíduo faça a monitorização da sua saúde de forma rotineira e não somente quando acontece um problema grave. Fazendo um check-up diário, passa a ter duas hipóteses: usufruir de uma vida mais saudável ou saber que está na altura de ligar ao médico porque algo se passa — ainda que não haja dor.

Toto Wolf e o futuro a biodiesel

O streaming mudou e mexeu muito com comportamentos e hábitos de consumo. A maneira como consumimos conteúdos, nomeadamente de vídeo ou música, mudou. Muito. No caso do entretenimento, mais concretamente no que diz respeito às séries, se há algo que o prova é “F1: Drive to Survive”, série documental sobre Fórmula 1 da Netflix. Na teoria, seria apenas mais uma produto da prova rainha de automobilismo. Na realidade, é um fenómeno cujo sucesso está a ser replicado noutras plataformas (pode-se dizer que copiar é mesmo o maior elogio) e que chega até a pessoas que não seguem a modalidade. E isto acontece porque o foco da série está no que se passa nos bastidores e não naquilo que se passa nas pistas. A história do asfalto já lá vai, o mundo já conhece o desfecho, mas o drama das boxes fica no segredo dos Deuses. Bom, ficava. Agora virou reality show. Do bom.

Mas qualquer boa história tem os seus protagonistas, sejam heróis ou vilões. Um deles, neste caso, é o diretor executivo da Mercedes, Toto Wolff. Aos 50 anos, goste-se ou não da sua personalidade, seja vilão ou herói, a verdade é que tem uma aura que se equipara à sua estampa física (tem perto de 2 metros de altura) e é uma das figuras a quem as câmaras teimam a dar mais destaque. Assim tem sido ao longo de quatro temporadas e assim será na próxima que aí vem. Pondo isto, diga-se que a sua popularidade não passou ao lado dos organizadores da Web Summit, que colocaram o alemão no Center Stage.

Sendo uma das conversas mais aguardadas do dia, Totto falou muito de Fórmula 1, mas soube aplicar um discurso virado para o ambiente em que estava inserido. Ou seja, depois de ter rapinar um discurso mais direcionado para os fãs da modalidade (admitiu que a “época não estava a correr bem” e que espera “desafiar Red Bull e Ferrari” no próximo ano), virou-se para um tema que tem sido dominante nestes dias: a sustentabilidade. E explicou que a Mercedes reduziu as emissões de carbono graças à utilização de biodiesel nos seus camiões de transporte e na aviação. “É nossa responsabilidade mostrar à nossa audiência global de milhões de espetadores que, se nós conseguimos, todos o conseguem. Reduzimos as nossas emissões em quase 90%”, sublinhou.

Além da sustentabilidade, a temática da tecnologia foi – claro – igualmente abordada, assim como a parceria que a marca alemã tem com a empresa de software TeamViewer. Pelo meio, deu ainda a sua opinião sobre o futuro empresarial. “O trabalho remoto vai ser a chave para o sucesso”.

“Se posso recorrer a 10 dos meus melhores engenheiros em Oxford em vez de apenas a um tipo que posso assumir no terreno [há um limite imposto pelas regras durante as provas], isto torna-se uma questão de desempenho e de bater os nossos concorrentes”, justificou.

Na Microsoft, a tecnologia é para estar ao serviço do ambiente

Numa das principais intervenções do dia a ter lugar na Altice Arena, Brad Smith, Presidente da Microsoft, depois de anunciar um apoio tecnológico à Ucrânia num investimento de 100 milhões de dólares, alertou para um facto importante: apesar das crises recentes provocadas pela guerra, pandemia e inflação, a maior de todas elas e aquela que merece mais atenção, será a crise que ainda não chegou: uma provocada pelas alterações climáticas.

“Enquanto ajudamos a Ucrânia e combatemos a pandemia, não podemos desfocar-nos das alterações climáticas. Essa crise vai ultrapassar todas as outras”, adiantou Smith, que esteve no Center Stage para falar sobre sustentalidade, o papel da tecnologia e as ferramentas necessárias para ultrapassar a atual crise global de dependência do carbono.

Segundo a intervenção do Presidente da Microsoft, as próximas três décadas serão marcadas por uma revolução na sustentabilidade e, aproveitando o lançamento do relatório “Closing the Sustainability Skills Gap“, frisou a escassez de competências que o mercado irá enfrentar nesta área. Dados do LinkedIn Green Jobs indicam os empregos “verdes” cresceram a uma taxa anual de 8% entre 2015 e 2021, ao passo que a “pool” de talentos cresceu 6%.

Outra das preocupações evocadas por Smith tem que ver com neutralidade carbónica (“o mundo de ser neutro em carbono até 2050”) — daí fazer o apelo para que seja criada “uma nova convenção do clima”. Mas tal irá exigir que “os países ricos gastem dinheiro para remover o carbono da atmosfera de uma forma que irá beneficiar o planeta como um todo”.

Soundbites que ficam no ouvido

“Elon Musk, a julgar pelo que tem dito, faz intenção de marchar direto ao Twitter e destruir a confiança, o sentido de responsabilidade e aquilo que são boas práticas”.

Peter Mandelson, Cofundador & Chairman da Global Counsen, no palco Future Societies. 

“Nós queremos ter a certeza de que as crianças têm a oportunidade de fazer parte do metaverso e [queremos] proteger o seu direito de jogar”

Julia Goldin, Global Chief Product & Marketing Officer do grupo Lego, durante uma discussão sobre storytelling e barreiras criativas no palco PandaConf.

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The Next Big Idea vai estar no Altice Arena até sexta-feira e vários oradores e participantes da Web Summit vão passar pelo nosso espaço. As entrevistas acontecem ao longo do dia e serão transmitidas em direto na nossa página de LinkedIn.

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