Fado Bicha são João Caçador na guitarra elétrica e Lila Fadista na voz. Em outubro, quando falámos com a dupla pela primeira vez, diziam vir "trazer barulho para a cena do fado. Porque [Portugal] é um país de muito silêncio". Esta sexta-feira, com o lançamento de "O Namorico do André", o seu primeiro single, voltam a cumprir aquilo que têm prometido. 

O dia em que é lançado não foi propositado nem é uma provocação, começam por dizer. "Íamos lançar dia 12 de abril só que entretanto as coisas atrasaram-se. Quando vimos que calhava na Sexta-Feira pensámos: foi o destino".

O tema tem várias particularidades, assume João Caçador. "É um fado sobre o amor entre dois homens, o que é uma novidade no fado — e acho que na música portuguesa em geral. Nunca tinha acontecido, vai ser a primeira vez. Até hoje não tínhamos ouvido em nenhum fado a representatividade e histórias sobre nós próprios. Tínhamos sempre de adaptar a figura masculina ou a feminina".

"Temos tido, até hoje, um grande pudor em partilhar histórias de amor, tanto a nível visual como musical sobre dois homens. E temos muita dificuldade em falar sobre isso", critica o guitarrista.

"O Namorico do André" é uma adaptação do "O Namorico da Rita", de Artur Ribeiro e António Mestre, fado imortalizado na voz de Amália Rodrigues. Não é recente, "já cantava o cantava antes de o João se ter juntado ao projeto", diz a voz da dupla, mas só agora sai dos palcos para as plataformas digitais.

Muda uma das personagens, mas não o sentimento que nutrem entre si. A Rita passa a ser o André, tem algumas adaptações relacionadas com a rima e com a métrica e ganha uma estrofe nova escrita por Lila Fadista. "Para além de querer que a música fosse um bocadinho mais longa, sentia que pedia um lado mais sensual e com mais fisicalidade", conta ao SAPO24.

"Encontro encanto nessa subversão malandra da letra", diz Lila. E até me permitiu perceber que ela tem um conteúdo que nós normalizamos muito, tanto que eu nunca me tinha debruçado sobre a ideia de se normalizar o facto de a mãe ter uma atitude proibitiva em relação às escolhas da filha. Está tão normalizado que um pai ou uma mãe possa ter uma ação proibitiva sobre as escolhas amorosas, sobre o corpo ou sobre a autodeterminação. Quando mudei o género, foi estranho. Porque é que uma mãe haveria de proibir uma relação do filho com um homem? Mas da filha com um homem... A subversão até nos permite sair da caixa e olhar para o que já estava escrito". 

O processo musical conta com o beat de BirdzZie e com a colaboração do produtor Twins, diretor musical do músico Dengaz e que trabalha com artistas como Plutónio ou o Diogo Piçarra. "Para nós foi um desafio: pegar no que fazemos ao vivo, só voz e guitarra, materializá-lo e passar para outro nível menos conceptual e mais musical e com identidade própria", conta João. 

Mas o tema não vem só. No mesmo dia é lançado um videoclipe realizado por Tiago Leão e filmado no cais palafítico da Carrasqueira, em Alcácer do Sal. "O vídeo conta uma história e tem alguns pontos em comum com a música, mas não segue a narrativa do Mercado da Ribeira", explica a dupla.

O romance "explícito" vivido entre o Chico e o André é representado por dois atores, um rapaz brasileiro e outro angolano. "Para além de serem um casal inter-racial, o que é simbólico por si, para nós faz sentido a evocação destas origens africanas e brasileiras do fado", explicam. Quem faz de mãe e de pai são dois ativistas, a Manuela Ferreira da Amplos e o Alistair Grant da PolyPortugal. Há ainda a personagem de um terapeuta de conversão, desempenhada pelo dramaturgo André Murraças. 

Lila e João estão conscientes de que o tema pode não agradar a todos e que pode trazer algumas críticas. "É uma experiência pela qual passámos". Recorde-se que as contas de Facebook e de Instagram da dupla já estiveram momentaneamente indisponíveis devido a denúncias de utilizadores. No segundo caso devido ao lançamento de um tema intitulado "Lisboa, não sejas racista" que versava sobre o caso Jamaica e da morte de Alcindo Monteiro.

"A maneira como reagi à primeira vez que isso aconteceu e à última foi bastante diferente", partilha Lila. "Consigo agora ter um distanciamento muito maior. Sabemos que isso vai acontecer. Especialmente porque estamos numa altura em que começa a ganhar força uma reação conservadora contra o que chamam de ideologia de género", continua. "Mas o que é isso de ideologia de género?", questiona João. "É dizermos que as crianças podem vestir-se como quiserem e que as meninas podem ter brincadeiras mais de raciocínio e os rapazes podem brincar com coisas mais afetivas e emocionais? Isso é ideologia de género?" 

E haverá espaço para "O Namorico do André", por exemplo, nas rádios? "Passa muito pela coragem", diz João. "Custa-me a crer que algumas o façam, mas por outro lado ao passar a nossa música estariam também a passar uma mensagem", continua. "Nós vivermos estas identidades sem constrangimentos e vivê-las a cem por cento é o maior ato político e ativista que podemos ter enquanto cidadãos e as rádios também têm esse papel", remata o guitarrista.

Sobre futuras novidades fica a promessa de novos temas em maio. "O nosso objetivo é reduzir a frequência de concertos e focarmo-nos em gravar o espólio de canções que andamos a cantar desde que começámos o projeto. Músicas que representam este tempo e esta energia inicial que trouxemos", avança Lila. Já sobre a possibilidade de virmos a conhecer originais do Fado Bicha fica a promessa: "chegará esse tempo". 

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