I

Tempos de nascer

Auto-retrato

Pela vida fora, em todas as idades, em tantas ocasiões, não sei quantas pessoas eu ouvi. De lugar em lugar. Atravessando o tempo. À mesa do café, em brincadeiras de criança, ao serão com a família, em salas de audiências, em gabinetes de instrução, no local do crime, em conversas corridas sobre a gente que passa — todas «testemunhas» de alguém, de alguma coisa. Conservo ainda nomes. Bráulio, Ludovina, Arraiano, Moreira, e tantos, tantos mais. De muitas, ficou-me a memória: do rosto, da voz, do susto, da ternura, da efabulação, da seriedade, tímida, hesitante, da falsidade, treinada, arrogante, da displicência, da amizade, sei lá. De todas, como ponto de encontro, uma palavra cerzindo os vários dizeres: «verdade». Uma verdade jurada, primeiro na rua, depois por Deus; mais tarde, pela honra — sempre na suposição da palavra dada. Lembro-me delas. E gosto de me lembrar das testemunhas que eu ouvi.

Agora, chegada a minha vez de depor, de falar de mim e dos outros, olho-me com inquietação. Nego-me interiormente à jura. Titubeante no encontro com «a verdade dos factos», acabo a celebrar comigo um frágil compromisso de respeito pela minha verdade, por aquilo que sinto que sei, como sei, como sinto; por aquele resto que retiro de um fundo enevoado onde se disfarça, no tempo, tudo aquilo que vi ou escutei, aquilo que fiz ou que foi feito, bem feito, malfeito. Aqui, de uma só vez, sou testemunha e coisa testemunhada. Olho-me à distância, e não sei se me leio através da fantasia que a lonjura colocou no lugar dos primeiros deslumbres, ou se apenas me vejo com os olhos de hoje, experimentados pelos anos. Recordo, de A Noite Fantástica de Stefan Zweig, a sua confissão de receio ao perscrutar a memória: «[…] ainda há pouco escrevi “eu” […] mas esta palavra já é pouco precisa porque esse “eu” de então […] já não existe, apesar de terem decorrido, de então para cá, apenas quatro meses; embora eu viva ainda dentro desse “eu”, e esteja a escrever à sua secretária, pegando na sua caneta com a sua própria mão.»

Pedro Moura e Susa Monteiro juntam-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado para dia 21 de fevereiro, uma quarta-feira, pelas 21h00. Consigo trazem  "Mensagem", de Fernando Pessoa, numa edição da RTP/Levoir.

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Sei, porém, que este é o produto de uma memória propositadamente não elaborada, sem trabalho de reconstituição, escorrendo em palavras a partir de uma mistura de lembranças e de esquecimentos, desprendida do rigor das provas, alheada dos documentos, dispensada de graves desígnios de certeza como fundamento de uma verdade que se quer ver reconhecida.

Talvez este seja outro «passeio no bosque», denso de recordações, embelezado pela reconstituição criativa de uma memória, ela própria, nascida nos caminhos da ficção afeiçoando os factos, moldando-os como se faz ao barro, criando realidade para lá do visível, buscando a verdade nos olhos que a vêem, e menos naquilo que, já pronto, é servido para que seja visto. Uma memória, apenas memória. Afinal, como acontecia com as testemunhas que eu ouvi.

Autobiografia

Ninguém nasce de uma vez. Nascemos aos poucos, pelo tempo fora. Vamo-nos juntando à medida que nascemos. Vamo-nos desconjuntando à medida que vivemos. Nunca chegamos a estar inteiros. Eu, por exemplo, nasci um dia, estava então no primeiro ano do liceu. Tudo começou na véspera, quando perdi a camioneta de regresso a casa. Tinha pela frente duas horas de espera e uma redacção de português para o dia seguinte. Nunca dedicara tanto tempo a escrever. Quando acabei, percebi que tinha completado uma pequena obra-prima: A Vida na Selva, que constituía o tema, serviu-me de mote para o desenho de uma comunidade de animais falantes, e o ritmo da narrativa foi aumentando à medida que o meu entusiasmo criativo crescia, estimulando as falas e polvilhando o texto de afectos, de dores, de conflitos, num contraste permanente entre o bem e o mal, até à chegada, apaziguadora, do leão.

Já na escola, perante toda a turma, fui o terceiro a ler. Quinze, dez minutos? Por aí… Apaixonara-me pela história. Deixara-me fascinar pela escrita. O silêncio na sala transmitia-me confiança. Mal terminei, sem que o soubesse, muito perto já de nascer, aguardei a avaliação da professora, a adorável D.ª Maria. Veio, em tom de crítica, uma pergunta:

— Diz lá, meu filho, não foste tu quem escreveu, pois não?

Não respondi. Deixei que o meu silêncio contracenasse com risos dispersos pela turma. Guardei as lágrimas de raiva para casa. Limitei-me a nascer mais um bocado.

Na primeira vez que nasci havia guerra. Na minha terra havia fome. As pessoas dividiam-se em pés-descalços e pés-calçados. Os miúdos descalços vestiam camisola de escocês esfiapado e os mais pequenitos andavam nus da cintura para baixo. Eu usava calções. Quando chegou o tempo de aprender a ler, escrever e contar, o meu pai mandou-me para a escola dos pés-descalços. Aí, ao princípio, nascia todos os dias um bom bocado. Logo na estreia, regressado a casa, minha mãe, que me queria na escola dos meninos calçados, horrorizou-se ao ouvir as minhas queixas:

— Os menines dezerem que eu sou panelero.

Logo o meu pai acorreu em socorro de ambos, autorizando-me a levar, no dia seguinte, a bola de catechu, chegada de Lisboa, novinha em folha. Fui de calça comprida com o esférico debaixo do braço. Foi diferente o regresso ao seio da família:

— Mãezinha! Os menines já gostem de mim. E já não sou panelero.

Eram os novos amigos. Ainda hoje muitos deles o são.

Ficou aliviada a família, ainda que com fortes receios quanto ao rigor do palavreado aprendido nos bancos da escola. Acho que foi nessa altura que nasceu por dentro a parte mais funda de mim. Nasceu e ficou lá — para sempre.

Livro: "A Vida na Selva

Autor: Álvaro Laborinho Lúcio

Editora: Quetzal

Data de Lançamento: 8 de fevereiro de 2024

Preço: € 16,60

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Por causa da D.ª Maria, zanguei-me com o português. Não com a língua, mas com o seu estudo. Não ligava às onomatopeias, desprezava as parassínteses, desleixava, de propósito, as redacções, não atinava com o lugar das vírgulas. Aqui, no caso das vírgulas, a culpa não era da D.ª Maria. O problema vinha de trás, da aritmética. Na terceira classe, o professor verdascava-me as orelhas de cada vez que, nas divisões com números decimais, eu não acertava com o lugar da vírgula. Ainda hoje não acerto. Passei a detestar aritmética e acabei a recusar a matemática. Agora, o divórcio do português ameaçava deixar-me perdido em terra de ninguém.

O professor de moral, conhecido do meu pai, levou-lhe a má nova e segredou-lhe:

— O rapaz não dá para os estudos. Ponha-o na loja do avô.

Mal sabia o mestre que dias antes, numa breve passagem pelo balcão, «o rapaz» vendera, por quatro escudos e cinquenta centavos, uma peça de quarenta e cinco escudos.

Creio bem que o meu pai apenas se reanimou com o possível futuro daquele filho único quando este lhe ofereceu um quinto ano completo, na idade apropriada, ainda que com a débil média de catorze valores. Mas julgo que sossego, sossego só lhe chegou quando, muitos anos mais tarde, o filho ficou classificado em primeiro lugar no exigente concurso para juiz, sendo, entre vinte e três magistrados do Ministério Público concorrentes, o único a obter a classificação de Muito Bom. (Se calhar, não fica bem estar aqui a dizer isto…)

O certo é que só então uma carreira parecia garantida aos olhos da família. O meu pai chefiava a estação dos correios, na Nazaré. Conhecia o alfabeto Morse. Recebia e expedia telegramas. Eu ficava ali, junto dele, a ouvir o ritmo das batidas, ora rápidas, ora lentas e distendidas, que iam depois transformar-se em palavras. Gostava do cheiro dos carimbos, da pancada destes sobre os selos, dos cuidados que o meu pai punha em tudo o que tinha para fazer.

«Há uma ética de serviço público», dizia ele, esfregando o nariz em sinal de orgulhosa satisfação. E eu aprendia. Minha mãe, Libânia, para todos a Libaninha, fechara em mim a sua vida. De coração frágil, mais frágil ficou, gordo como eu era, com o meu primeiro nascimento. Mãe ternura, mãe coragem, a desnascer a cada dia por causa de um coração que dilatava. Só podia ser de amor. Gostava de me ver no teatro, a minha mãe. Nunca deixava de assistir aos espectáculos que o Clube Académico da Nazaré levava à cena pelo Natal e pela Páscoa. Vínhamos de férias, os estudantes, uns de Lisboa, outros, eu incluído, de Coimbra.

Como sofria minha mãe com a minha participação nas greves académicas, nos lutos, nas manifestações, com o meu pai a recomendar-me que o deixasse mediar as más notícias e a esconder dela outras, como a do retorno a Coimbra, detido, em grupo, pela PSP, por tentativa de participação no Dia do Estudante, em Lisboa, em plena crise académica de 1962.

Foi na Estação da Amadora. Estávamos quase. Lisboa fervilhava e a Cidade Universitária estava em polvorosa. Rompera a crise académica de 1962. Fora proibido o Dia do Estudante e a polícia estava nas ruas para cumprir ordens e garantir a ordem. De Coimbra, desde manhã cedo, partiam representações de estudantes que iam sendo detidas à medida que avançavam em direcção à capital, e devolvidas à procedência. As últimas notícias traziam a detenção da secção de rugby, da Associação Académica, e do Orfeão Académico, travado, esse, às portas de Leiria. Nós éramos as Danças Regionais, também secção da Associação Académica. Escapáramo-nos de comboio, escolhendo a linha do Oeste, numa automotora insuspeita para quem quisesse, de Coimbra, demandar Lisboa. E estávamos quase. Porém, sem honra, fomos acabar às mãos do inimigo, mesmo à beira do êxito.

Sem honra, porque a glória, afinal, esperava-nos noite alta, em Coimbra, onde centenas de colegas, aplaudindo à nossa passagem, nos recebiam, enjaulados, a nós, nas carrinhas Mercedes da PSP.

Glória efémera, essa, todavia. Vinha lá o encerramento da Associação Académica.

— E agora, queres seguir o quê? — perguntou o meu pai, concluído o sétimo ano.

— Quero ir para o teatro — respondi.

Fez-se silêncio e fui para a justiça.

Foi no Fundão que mais vezes nasci, como magistrado e como homem. Abundavam ali os exemplos, e, num tempo de ditadura, o Fundão era um reduto de esperança e de liberdade. E foi no Fundão que nasci como pai, nascimento que fui repetindo pela vida fora. Lendo Vinicius, sentia-me um magistrado em construção. Nasci ali também, sentida a sua falta, para a urgência da formação. Entrei no Centro de Estudos Judiciários (CEJ) disposto a contrariar André Malraux. Dissera ele que julgar é não compreender, pois, se se compreendesse, jamais se poderia julgar. O meu propósito era demonstrar que julgar é compreender, pois sem se compreender jamais se legitimará eticamente o poder de julgar. Não me entusiasmava o magistrado como mero técnico do direito, falsamente neutro, desligado do conhecimento do mundo e da vida. O CEJ teria, pois, de ser uma verdadeira Casa de Cultura. Foi talvez esse interesse pela vida, despido de preconceitos, aberto a receber dela o que ela tem para oferecer, sem juízos prévios, que me levou a escolher como tema para a intervenção de posse como membro da Academia Internacional da Cultura Portuguesa As Ilhas e a Bruma: Açorianidade e Autonomia.

Os Açores são um bom lugar para se nascer. Não são o paraíso, mas quase; não são o inferno, mas às vezes parece. É nesse encontro de radicais contrários que nasce e vive o açoriano. E eu nasci, uma vez mais, nos Açores. Tinha, quando aterrei ali, acabado de cumprir o desejo de concluir a carreira de juiz. Sempre a carreira. Magistrado era o que fora. Em tudo o mais, ainda que sem diminuição de valor e de responsabilidade, apenas tinha estado — como estive antes metido nos caminhos exigentes da política; e, depois, entre os recantos estimulantes da educação e da escola, ligando pensamento e acção, neste último caso sob o amparo científico e cívico da Universidade do Minho, que me fez seu doutor honoris causa.

Foram os Açores que me deram um tempo novo. Levaram-me à busca de mim para lá de mim. Da Terceira, olhando sempre fixamente para o mesmo lado da ilha, pode imaginar-se a linha da costa continental, e nela, ali ao meio, é fácil descor- tinar o traço da enseada por onde se chega, por mar, à Nazaré. Talvez por isso os carnavais sejam tão parecidos.

E esse tempo novo apelava agora à ficção. Nos Açores, a poesia brota da pedra lávica. Morrem e nascem poetas com a mesma naturalidade com que se vive plantado sobre o absoluto, até que o absoluto se declare em chamas, em lava nova, sabe-se lá quando e como.

Era, pois, tempo de escrever, de voltar a nascer, na busca de um outro ser. E volta-me à memória a redacção inicial, A Vida na Selva. Os meus livros andam por aí. Ninguém me trata por «meu filho». Ninguém me pergunta quem os escreveu por mim. Será que a velha redacção era melhor? E que por isso estes são mais fiavelmente meus? Ou será que eles são a minha resposta, a minha redacção transformada em romance? Afinal, a garantia, agora minha, dada ao meu pai de que valeu a pena não me tirar dos estudos?

Passei, há dias, pelo restaurante que veio suceder à loja do meu avô. Lembrei-me do balcão corrido; das cadeiras de palha onde os amigos da casa vinham conversar ao fim da tarde; das fazendas nos expositores — daquilo que podia ter sido a minha vida. E voltei a nascer, mais uma vez, como se fosse a primeira.

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