De quatro em quatro anos, o mês de fevereiro é maior. Este dia "a mais" destina-se a sincronizar o calendário com o movimento de translação da Terra, que demora 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos.

E, falando em números, pensemos em quem faz anos neste dia. Celebra de quatro em quatro anos? No dia anterior? No dia seguinte? Para esclarecer esta e outra dúvidas, o SAPO24 falou com Bernardo e Joaquina.

Joaquina Cipriano, cuidadora de idosos e natural da Lourinhã, não hesita quando se pergunta quantos anos faz este sábado. "Faço 16", diz a rir. E logo de seguida completa: "Ou 64, se preferir". O motivo da resposta, claro, está relacionado com a data.

"Costumo brincar com isto. Às vezes os meus irmãos teimam em não me dar os parabéns, em não telefonar. Às vezes telefonam a 1 ou a 2 de março, porque não há dia certo", conta.

Já Bernardo Castro, natural de Lisboa e a trabalhar na Jerónimo Martins, na área de retalho, inverte a resposta quanto à idade. "Faço 24. Ou seis, vá. Passei a vida toda a apanhar com essas piadas e eu próprio também as faço às vezes", responde sem ter de pensar muito.

Mas fazer anos num dia que nem sempre existe no calendário tem muito que se lhe diga. Para Joaquina, as celebrações não têm um dia definido — vão variando entre dia 28 de fevereiro e 1 de março, quando não existe o dia certo. "É sempre uma celebração mais ao nível de receber os telefonemas da família e isso assim. Não há sempre festa, é mais uma coisa para lembrar o dia", refere.

Mas houve um ano em que foi diferente. A memória já a começa a trair, mas do essencial nunca se vai esquecer. "Já não sei se foi quando fiz 40 ou 44 anos. Fiz assim a minha primeira festa grande, juntei os padres da paróquia, os meus irmãos todos, os meus cunhados, os meus sobrinhos e foi uma festa em que houve direito a assados, palhaços, tudo e mais alguma coisa. Foi assim a festa que ficou mais na memória, já que juntou a família toda, o que não é fácil. Foi um jantar bonito, com um prolongar de noite bonito", conta Joaquina.

Para Bernardo, a celebração é bem definida, por vontade própria. "Eu celebro a 28, geralmente. Há muita gente à minha volta que diz que se recusa a dar-me os parabéns antes do dia 29 e, quando a data não existe, só me dão no dia 1 de março. Dizem que o fazem porque dá azar dar os parabéns antes porque eu ainda não nasci a 28, mas eu em geral prefiro celebrar nesse dia".

A escolha, conta, tem vários motivos. "Quando era miúdo, um dos meus primeiros amigos fazia anos no dia 1 de março e nós éramos do mesmo ano. Na prática, eu era um dia mais velho do que ele. E se eu celebrasse a 1 de março já éramos da mesma idade e então era uma questão estratégica", começa por explicar. Mas vais mais longe. "Passados uns anos, vim a descobrir que o Benfica faz anos a 28 de fevereiro e pensei que era a oportunidade perfeita de juntar tudo e partilhar o meu aniversário".

Mas o 29 é que é. Quando existe, é o dia certo. Sem acertos para a frente ou para trás. Sem enganos ou superstições. Para Bernardo, que não se lembra de achar estranho fazer anos num dia que nem sempre é assinalado no calendário, a história começou cedo. "A minha mãe diz que quando os médicos começaram a fazer contas que ela ia dar à luz mais ou menos nesta altura, no fim de fevereiro, foi ao calendário e viu que o ano era bissexto. E disse logo que eu ia nascer a 29, e acertou", confidencia.

Por isso, quando calha no dia, há festa a sério. Mas uma ficou para a história. "Lembro-me muito da mais recente, há quatro anos [2016], que foi quando o Di Caprio ganhou o Óscar. A noite dos Óscares calhou de 28 para 29 de fevereiro e então organizámos uma watch party lá em casa e ficou na memória por isso", conta Bernardo.

Para Joaquina, ao contrário do que seria esperado, o dia 29 não vem desde o nascimento. "Só me apercebi da data quando fiz o bilhete de identidade. Eu escrevia, mesmo na escola, a data de 27 de fevereiro como data de nascimento. Só quando fiz o bilhete de identidade é que percebi que estava mal, acho que tinha uns 17 anos. Mas não dava muita importância. Foi a data que me tinham indicado. Não sei porquê, nunca questionei ninguém. Os meus pais faleceram quando eu ainda era uma criança, nunca soube o motivo. Desde que percebi que era a 29 assumi a data", justifica.

Mas as histórias não ficam por aqui. É que fazer anos a 29 de fevereiro causa sempre estranheza, conta. "Houve uma altura em que, após o recenseamento, numa mesa de voto, ficaram com um pouquinho de surpresa por olharem para o bilhete de identidade e verem a data. Às vezes as pessoas brincam com o assunto. Dizem 'ah, então não faz anos, é muito jovem!". Por isso é que eu disse logo que faço 16. É engraçado. Oficialmente eu faço anos todos os anos, mas na realidade o dia não existe na maior parte deles", refere Joaquina.

Bernardo também partilha as histórias caricatas. "Regra geral, as pessoas não acreditam que faço anos a 29, às vezes tenho de mostrar o cartão de cidadão. Mas depois fazem perguntas e acham graça", diz. "Quando arranjei emprego, disseram logo que sou o tipo mais novo de sempre no meu emprego, com cinco anos e não sei quantos meses. E quando me licenciei também brincaram porque era o mais novo de sempre também. Também há aquelas brincadeiras do 'mas tu não és maior de idade, não podes' ou 'tu pagas menos bilhete, porque tens menos de seis anos'. Essas coisas assim", conta divertido.

Para Joaquina, que faz 16 este ano, ainda há um longo percurso até aos 18, tão aguardados pela gente jovem. Mas espera serenamente a chegada desse dia. "Para quando atingir a maioridade não tenho ainda projetos", diz entre risos. Já Bernardo, que chega aos seis, mas já não tem de começar a escola primária, o dia é equivalente aos 18 e festeja-se em grande. "Decidi organizar vários almoços e jantares para estar com as pessoas todas, para aproveitar. Já tinha prometido há uns anos que, quando chegassem os 24, fazia assim uma festa um bocadinho mais alargada".

Celebre-se, então, que daqui a quatro anos há mais.

O que marca a História a 29 de fevereiro

Nesta data, em 1720, Ulrica, Rainha da Suécia, abdicava a favor de Frederico I, Príncipe de Hesse-Cassel. Em 1808, as forças francesas de Napoleão ocupavam a cidade catalã de Barcelona. Em 1832, a Nova Granada, um dos vice-reinos espanhóis da América do Sul, adoptava uma constituição e proclamava a república.

Em 1916, na Grande Guerra, as autoridades alemãs davam ordens à sua armada para afundar os navios mercantes das nações inimigas. Em 1920 a Checoslováquia adoptava uma nova Constituição.

Em 1956, o Paquistão adoptava a designação de República Islâmica e, em 1960, um sismo atingia a cidade de Agadir, em Marrocos. Em 1992, a Comunidade Europeia decidia conceder a Angola uma ajuda de 36 milhões de contos, de apoio ao processo de paz no país.

Em 1996, o Supremo Tribunal de Justiça reduzia a pena do ex-secretário de Estado da Saúde Costa Freire para cinco anos de prisão efectiva e 80 dias de multa. Costa Freire tinha sido condenado em primeira instância a sete anos de prisão por cúmulo jurídico, burla agravada, participação económica em negócio ilícito e prevaricação.

Ainda em 1996, o Governo português aprovava o diploma que permitia a emissão de bilhetes de identidade pelas conservatórias do Registo Civil não situadas nas capitais de distrito.

Em 2000, a Cruz Vermelha lançava a campanha internacional de solidariedade com as 150 mil famílias do Sul de Moçambique, afectadas pelas cheias. O Presidente da Indonésia, Abdurraman Warid, em visita Timor-Leste, pedia desculpa pelo sofrimento do povo timorense em 24 anos de ocupação. No mesmo dia, saía a primeira edição do Timor Post, em Díli.

Em 2000, na Ucrânia, era abolida a pena de morte. Na Nigéria, os Estados do Norte invertiam a tendência fundamentalista, manifestada a Sul, e renunciavam à imposição da Charia, a lei islâmica.

Em 2004, "O Senhor dos Anéis - O Regresso do Rei", de Peter Jackson, filme realizado a partir da obra de J.R.R.Tolkien, vencia os 11 Óscares da Academia de Hollywood para que estava nomeado, incluindo melhor filme, melhor realização e melhor argumento adaptado.

Poucos dias, muitas histórias. As do mundo e as de Bernardo e Joaquina.

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