Numa altura em que se vive “uma espécie de regresso àqueles períodos de crise que precederam as guerras mundiais e levaram ao aparecimento dos grandes líderes fascistas” a escolha desta peça “faz ainda mais sentido”, acrescentou à agência Lusa o encenador David Pereira Bastos.

O responsável pela direção artística do espetáculo sublinhou, porém, tratar-se de uma escolha que não foi só sua, pois já há algum tempo que o produtor do espetáculo, Manuel Poças, lhe falara sobre aquele texto que, com frequência, era tema de conversa entre os dois, já que ambos “admiram” a obra do escritor austríaco que é considerado uma referência do teatro da segunda metade do século XX.

Em 2018, após a estreia do último trabalho conjunto – “À espera de Godot”, que esteve em cena no Teatro Nacional D. Maria II -, voltaram a falar sobre a peça.

Na altura, Manuel Poças “achava muito pertinente” pôr o texto em cena, “porque se assistia a um crescimento dos movimentos de ideologia de extrema-direita, quer a nível parlamentar europeu quer a nível de tendências políticas de todo o mundo”.

“Lembro-me de, no fim de semana de abertura da temporada 2018/2019 do D. Maria II, ter decorrido uma iniciativa da ´École dês maîtres` dirigida por Tiago Rodrigues e de, no final, um grupo de portugueses, no qual me encontrava, estar a conversar com um formando italiano que nos disse ´Vocês não têm noção da sorte que têm porque Portugal é, neste momento, o único país europeu onde a extrema-direita não tem assento parlamentar´”, contou David Pereira Bastos.

Tal facto viria a mudar, com grande rapidez, frisou, pois entre essa altura, quando começaram a gizar o espetáculo, e o início dos preparativos para os ensaios, já a extrema-direita tinha assento parlamentar em Portugal, com a eleição do deputado do Chega, em 2019.

O que fez com que “ganhasse ainda mais sentido” pôr em cena “Praça dos Heróis”, que David Pereira Bastos define como “uma chamada de atenção”, quer para uma série de pormenores de aspetos específicos da cultura austríaca, quer de problemas “transversais e abrangentes” que afetam o mundo.

Além disso, a “retórica” de Thomas Bernhard (1931-1989) “presta-se muito à diatribe”, o que, por um lado, torna o texto “divertido” e “desconcertante pelo quase niilismo” e pela falta de esperança do autor pela espécie humana”.

Por outro lado, “Praça dos Heróis” tem passagens em que é o discurso “é tão livremente maldizente que faz lembrar os próprios discursos populistas”, afirmou.

“O texto tem algumas passagens em que, se de repente não viesse a palavra, a expressão a contextualizar a frase no final, há momentos em que parece que ele está a falar do contexto político atual português”, sublinhou.

Porque Thomas Bernhard “fala mal das coisas com ressentimento e esse peso sente-se, mas o discurso surge quase como necessário e irrefutável”.

“Eu, pelo menos, sempre que o estou a ler penso ´ah pois, pois claro, é mesmo isto, mas ninguém tem a coragem ou o descaramento de dizer estas coisas assim desta forma aberta’. E é precisamente neste ponto que o discurso de Thomas Bernhard vai ao encontro do discurso populista”, enfatizou.

A ação de “Praça dos Heróis” gira em torno de 15 de março de 1938, quando milhares de austríacos aclamavam Hitler, na praça vienense Heldenplatz, a celebrar a anexação da Áustria pela Alemanha nazi.

Escrita em 1988, com o título original “Heldenplaz”, a peça estreou-se em 04 de novembro desse ano no teatro vienense Burgtheater, para assinalar o centenário do teatro e o 50.º aniversário da anexação da Áustria.

Nesta peça, o escritor nascido nos Países Baixos que ficou conhecido como um dos mais importantes autores germanófonos da segunda metade do século XX, “vem assim pôr a descoberto o branqueamento histórico que permitiu que a Áustria se assumisse como a primeira vítima do III Reich, ao invés de um primeiro aliado”, segundo a sinopse.

“Mais do que isso, exponencia a perceção de que as políticas e crenças antissemitas, de extrema-direita, mesmo nazis, estão vivas e presentes na Áustria de 1988 tanto ou mais do que em 1938, como é referido por uma das personagens da peça de Bernhard”, acrescenta.

“Praça dos Heróis” é uma produção da Estado Zero coproduzida com o Teatro Nacional D. Maria II que, em parceria com o CCB, torna possível a apresentação das sessões no Pequeno Auditório daquela instituição.

O espetáculo acabou por não ter a carreira prevista na sequência do fecho dos teatros devido à pandemia de covid-19, tendo-se estreado, em maio último, no Centro Cultural do Cartaxo, parte da rede Eunice.

A peça chega agora ao CCB nos dias 20, 21 e 22 deste mês.

“Praça dos Heróis” tem tradução de Francisco Luís Parreira e a interpretar estão Ana Sampaio e Maia, Bruno Simão, Flávia Gusmão, Manuel Coelho, Miguel Sopas, Mónica Garnel, Paulo Pinto e Sílvia Figueiredo.

A fotografia, cenografia e figurinos são de Bruno Simão, o desenho de luz de José Álvaro Correia, com operação de Luís Moreira, e a sonoplastia de Ricardo Martins.

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