Sentados numa esplanada na Praça Velha de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, Donaldo Picanço e José Silva exibem sorrisos de orelha a orelha. Respetivamente presidente e porta-voz da Sociedade Filarmónica Nova Aliança, ambos estão radiantes por estar de volta a casa.

Todos os anos, a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo (CMAH) convida uma filarmónica proveniente da diáspora açoriana para acompanhar a Marcha Oficial das Sanjoaninas durante a noite de São João. Este ano, a honra de participar naquele que é um dos mais emblemáticos eventos das festas que decorrem durante 10 dias calhou à Nova Aliança, proveniente da cidade de São José (San Jose, em inglês), no estado da Califórnia, nos EUA.

Para os açorianos que vivem no que chamam de "décima ilha” — aquela que está espalhada pelo mundo —, a oportunidade de regressar é sempre vivida com grande emoção. Com 24 anos, mulher e filha de 5 meses ao colo, José deixou a sua vida enquanto empregado comercial na ilha Graciosa para atravessar o Atlântico. Depois de viver em Boston, parou finalmente em São José (é em português que a cidade é sempre referida ao longo da conversa). Lá, repartiu o seu tempo entre um trabalho fabril e aulas numa escola para acabar o equivalente ao 12º e aprender inglês. Ao fim de quatro anos, o esforço compensou: tirou um curso de engenharia eletrónica e foi trabalhar na IBM durante 5 anos. Daí, mudou-se para HP onde ficou até se reformar, aos 64 anos de idade.

créditos: Rita Sousa Vieira / MadreMedia

A história de Donaldo é próxima e também tem contornos felizes. O primeiro destino foi uma leitaria em Los Banos, mas também rapidamente se mudou para a cidade de San José. Ao arranjar um trabalho numa empresa de jardinagem, o empresário apercebeu-se que podia o mesmo (ou até melhor) que o seu patrão e criou o seu próprio negócio, na mesma área. O sucesso bateu-lhe à porta, e agora Donaldo deixou os comandos da sua criação a um dos filhos, ficando apenas a supervisionar.

Nos primeiros anos, para os dois homens, nem sempre era possível regressar ao arquipélago, pois era necessário fazer pela vida e sustentar os filhos. Mas agora, vivendo no período de “férias prolongadas” que é a reforma, como lhe chama José, fazem sempre questão de voltar periodicamente aos Açores.

É com esse intuito, o de tentar fazer com que o máximo possível de emigrantes visite o território, que, do outro lado da mesa onde decorre esta conversa, José Gaspar de Lima diz haver uma estratégia concertada da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, da qual é vice-presidente. É por isso que diz tentar fazer das Sanjoaninas um evento não só dinâmico e atual, mas que consiga receber as comunidades da melhor forma possível, seja dedicando-lhes um dia ou convidando-as para atividades.

Porém, nem tudo é fácil. Para poderem vir para as Sanjoaninas, filarmónicas como a Nova Aliança têm de passar o ano a trabalhar para recolher fundos para a viagem. Por essa razão, diz o vice-presidente da CMAH é que existe o cuidado de convidar a filarmónica da edição seguinte com, pelo menos, um ano de antecedência, para lhe dar tempo de preparação.

O esforço, contudo, compensa. José Silva combate as lágrimas quando fala na forma como ele e a restante comunidade de São José são tratados quando voltam aos Açores. Esse é um fator tão importante que, quando regressa aos EUA, a primeira coisa que lhe perguntam é como é que foi recebido. Como a resposta é sempre positiva, a palavra espalha-se e contagia amigos sem vínculos familiares ao arquipélago. A vontade de visitar o que contam instala-se.

Mas não é apenas o passa-a-palavra que atrai norte-americanos aos Açores e à cultura açoriana. Na própria composição da filarmónica, 28 dos 47 músicos não têm raízes açorianas e a razão para estarem lá chama-se Moisés Fagundes. Filho de pais terceirenses — o pai de Vila Nova e a mãe das Lajes —, Moisés desdobra-se entre as funções de professor de música na Milpitas High School e de maestro na sociedade, cativando alguns jovens a juntar-se à Nova Aliança.

Dois deles são David e Emily. O trompetista, de 22 anos, juntou-se à filarmónica depois de ver um anúncio no Facebook. Gosta de bifanas e dos trajes folclóricos açorianos, confessa. Já a flautista, com 30, entrou neste projeto por ser colega de trabalho de Moisés e tem achado curioso como os emigrantes e lusodescendentes do grupo parecem estar sempre a encontrar primos na ilha Terceira. No entanto, ambos escolhem a mesma palavra para descrever como se sentem na Nova Aliança, "família", e consideram que, apesar da experiência de viajar para os Açores lhes ser enriquecedora, é ainda mais importante para quem tem uma relação direta com as ilhas.

É por isso que a Moisés, que faz questão de falar português como forma de manter a oralidade lusófona que os pais lhe passaram, lhe "toca no coração" estar aqui depois de passar seis meses a ensaiar a música. A hora de demonstrá-la ao resto da ilha, todavia, estava prestes a chegar.

Quando bateram as 21 horas, um tiro de canhão deu o sinal para se iniciarem as marchas de São João. Partindo do Alto das Covas, os marchantes passaram pela rua da Sé engalanada e cheia desde as 17 horas para os ver. As escadas da igreja que dá nome a esta rua estão repletas, assim como as bordas do passeio, reservadas com as cadeiras de praia e de campismo por aqueles que não querem perder pitada. Nas janelas e varandas estão penduradas colchas regionais cujas cores rivalizam com as roupas de quem prossegue rua abaixo.

A primeira marcha é a Oficial das Sanjoaninas, seguida da Filarmónica Nova Aliança. Inicia-se um tributo a D. Afonso VI — o tema deste ano das festas —, com os marchantes vestidos como fidalgos, secundados por Moisés e os seus músicos. Das tubas, à frente, às trompetes, na retaguarda, a performance segue segura, mas falta-lhe algo. No entanto, dita a tradição que a Marcha Oficial começa e termina o cortejo, pelo que voltaremos dentro de algumas horas para ver como vai correr a segunda tentativa.

Com cerca de 24 marchas a fazer o seu caminho pela cidade, há muito por onde ver, a começar pelos trajes que existem para todos os gostos e mudam consoante o tema. A cor não falta, e originalidade também não. Enquanto há quem opte por vestidos de detalhes deslumbrantes, outros desafiam a norma e vêm vestidos de cozinheiros com colheres de pau em riste. Mais brilhantes que os trajes, só os olhos orgulhosos de quem os enverga.

Mas não é só na indumentária onde a variedade reina; também na música há espaço para surpresas. Se não admira que a marcha da casa do Benfica da Terceira cante “o campeão voltou” pelas ruas de Angra, marchas com ritmos mariachi ou com trechos de “I Will Survive”, clássico de Gloria Gaynor, surpreendem pela ousadia. Contudo, não obstante as diferenças entre si, todos os desfiles têm o mesmo destino, a Praça Velha, onde um comité de boas vindas está instalado para receber os marchantes mais sedentos, com água ou cerveja. 

créditos: Rita Sousa Vieira / MadreMedia

O público vai seguindo com atenção, batendo palmas ou tentando seguir as letras, cantando com o auxílio das folhas que os petizes que encabeçam as marchas vão dando. Porém, embora as marchas estejam a decorrer, há quem evite as ruas principais e opte pelas banquinhas do Largo Prior do Crato, na marina, no conhecido Cerrado do Bailão ou em qualquer rua lateral para uma experiência mais frugal e recatada das Sanjoaninas. 

Com o passar das horas, as ruas começam as esvaziar-se, há menos cadeiras nos passeios e os trajes misturam-se com a roupa quotidiana, assim como a cerveja com as bifanas e sardinhas. O fim da noite será passado a saltar as fogueiras na rua de São João até a luz das labaredas ser substituída pela do sol madrugador.

Há, no entanto, uma última marcha a fazer a sua derradeira volta por Angra. De novo descendo a Rua da Sé, a Marcha Oficial das Sanjoaninas mantém o encanto das suas figuras, mas música está… diferente. Mais solta, mais gingona, mais audaz e mais foliona. Livrando-se do peso da responsabilidade em dar início às marchas, a Filarmónica segue dançando, com os elementos radiantes a dar voltas, a saltar e a arriscar passos de dança. Atrás deles, acompanha uma multidão animadíssima.

Enquanto isto decorre, surgem José e Donaldo a descer a rua, observando atentamente os seus pupilos. José volta a mostrar aquele sorriso rasgado. “Estão vibrando, agora é que estão mesmo a desfrutar!”, exclama. Ao seu lado, Donaldo nada diz, partilhando apenas da felicidade da sua comunidade, entregue à alegria de contribuir para uma grande festa que também é sua, que nunca deixou de ser sua. E no entanto, é nessa altura que uma frase que tinha dito horas antes naquela esplanada na Praça Velha faz mais sentido do que nunca: "Uma pessoa tem de vir às Sanjoaninas para ver como é, senão não acredita".

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